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O Filho do Pescador

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O Filho do Pescador

Capítulo 2 · O Filho do Pescador

Capítulo I — Mas eu sou tão pobre!

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CAPÍTULO I

MAS EU SOU TÃO POBRE!... A descrição das cenas da natureza é a pedra de toque do escritor! descrever estas cenas está ao alcance de qualquer gênio medíocre; mas empregar nesta pintura as verdadeiras cores precisas e nos seus devidos lugares, é sem dúvida o ponto mais difícil de atingir na poesia descritiva ou pintura da natureza. Desculpai-me, pois, se mal o vou fazer. — É sempre no meio desses belos quadros da natureza que amor ama revoar. No meio dos imensos encantos de uma risonha primavera, ataviada de todas as galas de que é suscetível a mais brilhante de todas as estações, uma aurora verdadeiramente mágica começava de espreguiçar-se sobre um céu puro e sereno, entre as aurirroxas sanefas de um horizonte adornado de todas as pompas matinais! Vistosos festões de uma alegre púrpura entrelaçavam interessantes rosas de ouro, que recamando um céu a que não toldava a mais ligeira nuvem de procela, ofereciam nesse imensurável espaço da sidérea campina o mais agradável contraste da púrpura de Tiro com o ouro de Ofir, sobre o belo azul de um céu brasileiro em uma manhã de primavera \ Uma feiticeira e voluptuosa aragem, respirando meigamente da parte do Oeste, fazia correr sobre a líquida face da formosa baía de Niterói uma ligeira ondulação, que suavemente empurrava sussurrantes e brincadoras ondas, que molemente se escoavam a saudar a branca praia com um amortecido beijo, cujo doce murmúrio

ia-se enamoradamente quebrar nos bosques e nos mais vizinhos rochedos! O viçoso tapete dos campos, entretecido de verde grama e de alastrantes ervas, esmaltado de mil e de milhares de flores, várias no seu tamanho, no seu feitio e no seu colorido; parece agora tecido de brilhantes fios de prata, que refletiam ao primeiro raio do nascente sol: era o orvalho da madrugada, que sustido sobre a relva da campina, a tornava argentada, de uma maneira elegantemente encantadora! A branda rola do prado sacudindo as úmidas asas com amoroso arrulhar, gemia enamorada junto dos implumes filhinhos, enquanto o terno companheiro fatigava as leves asas, buscando sustento para a tão querida família! Era ali o mais tocante quadro do amor conjugal! A branca flor da laranjeira, emulando-se com o cândido jasmim, exalavam juntamente a mais delicada fragrância, convidando as outras flores, para que, unidos aos delas seus perfumes, embelezassem com seus voluptuosos presentes este quadro sedutor de uma natureza tão bela, quanto profícua! O requebrado gorjeio do ledo gaturamo, os belos trinados do lépido canário do Brasil, acabavam esta mágica cena de feiticeiros encantos com a simpática grinalda de inocentes hinos, tecida pelos amorosos cânticos dos alados da selva! Era dia!... O primeiro raio do sol deslizado por sobre as espumantes ondas do oceano, com um furtivo tocar, depunha incerto um como pálido véu sobre a branca frente de uma bela casa, situada à margem do Atlântico, sobre a deliciosa praia de N. S. da Copacabana, distante do coração da cidade do Rio de Janeiro duas léguas, pouco mais ou menos. Um ameno jardim, custosamente e com gosto plan-

tado e cultivado, oferecia sobre o fundo desta casa nm belíssimo lugar, não só para os passatempos da vida do extravagante, como também para as melancólicas medi' “ eta! oar de delícias, do fundo de uma espaçosa rua, acabava de saudar o nascimento do astro do dia uma mulher, que nesse mesmo desalinho do primeiro despertar, nada lhe faltava de quantas graças a natureza liberaliza aos seus prediletos! No meio dessa bela desordem, que se notava na linda madrugadora, diríeis que apenas tomando os seus vestidos e apertados ligeiramente, sé havia precipitado ao jardim, para aí disputar gloriosamente às aljofaradas flores os fugitivos beijos dos suspirantes zéfiros! Seus louros cabelos, enquanto uns se notavam preguiçosamente presos por um pequeno pente, outros caídos sobre seus alvos ombros, embalados sobre as asas da branda aragem da manhã, vinham, ora enternecidamente, beijar suas faces de rosas, ora voluptuosos oscular seus lindos lábios de rubis! Seus grandes olhos azuis, onde parecia que um belo céu se refletia com encantadora serenidade, tinham um não sei que de mágico amortecimento, que lhes prestava mais importantes graças! Era o humor sonolento da derradeira hora do despertar; e as negras roupas com que então se vestia formava uma bela e verdadeira antítese de tanta brancura, e tão variadas graças, com a sombria e única cor do luto! Se não fosse a cor de seus vestidos, vós me perguntaríeis se é Flora que, no meio de um deleitável vergel, em cada ósculo que recebe do Favônio anima uma linda flor? Não; o personagem que acabei de pintar-vos não é uma existência mitológica, não é uma criatura poética Que hora para quem ama! Que ocasião para amantes! Que lugar para os mistérios de amor!

A gentil madrugadora da Copacabana tendo lentamente passeado a rua do jardim, foi finalmente sentarse sobre um banco, debaixo dos longos e frondosos ramos de uma veneranda mangueira, sobre cujo tronco dois séculos haviam deixado seus tardos vestígios; e depois de ter feito vaguear seus olhos pelo amplo dos mares, que ante ela se desenrolava, trouxe-os ao depois a contemplar as ondas, que em incessante lida vinham com murm urinho rouco despedaçar seus furores de encontro à impassível dureza dos sobranceiros rochedos. Ela meditava! Há poucos minutos durava esta cena muda, quando alguém de um modo afetuoso murmurou seu nome! Ela ergue-se rapidamente, e voltando a ver quem a chama, um mancebo está de joelhos a seus pés... A moça o encara e fala. — Senhor... — Eu te amo mais do que a minha própria vida... — A m im !... Senhor, a mim?... — Sim, a ti, minha bela náufraga... a t i... acredita-me, eu te a m o ... — A mim! tão pobre! vítima da desgraça! cercada da miséria, escapada a um naufrágio que se tu. .. — E que importa tudo isso? Eu te amo, e é quanto basta. Sai, pois, da desgraça, sim, vem aos meus braços; vem ser minha, minha para sempre, minha esposa enfim !... — Senhor, mas vosso pai.. . — Ele consentirá, oh! sem dúvida. — Mas eu sou tão p o b re... — E que importa? Não tenho bastantes bens da fortuna para a nossa felicidade? Não te amo eu? Sendo igualmente por ti amado, que mais precisaremos? Nada, pois, nos falta, temos riquezas. .. oh! tanto não é mister a quem ama.

— Pois bem, senhor, fazei o que quiserdes, eu vos sou grata. — Não; não é a tua complacência, nem um amor filho da tua gratidão, que hoje te suplico; é um amor puro, livre e independente de qualquer idéia de agradecimento; um amor como este em que me abraso... — Pois bem, eu vos amo.

O Filho do Pescador

Sinopse

Leia gratuitamente O Filho do Pescador, de Antônio Gonçalves Teixeira e Sousa, romance brasileiro original de 1843 e marco fundador do romance no Brasil. Texto integral em domínio público preparado em HTML para leitura online no Literunico, com fonte UFSC/BLPL validada, capítulos completos, capa nova no padrão Literunico, busca, redes sociais e pesquisa por IA.

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