Universo da obra
Universo da obra
VIVAM OS NOIVOS! A humanidade é um imenso livro; cada um homem é um capítulo dele, e cada acontecimento do homem forma uma lição deste grande livro! Por mais que vos canseis, vós não encontrareis duas lições iguais, pois aquelas mesmas que mais semelhantes vos parecerem, se bem as estudardes, achareis não poucos pontos de desconveniência. É sobre estas lições que o homem aprende e ensina. O estúpido passa por elas com a mesma indiferença com que a seta corta os ares; o sábio, o meditador, é sobre elas que formam a sua ciência! Em tudo se aprende e em tudo se ensina. Quando eu vos dou uma cena risível, conquanto não desaprove o vosso riso e até vos fique obrigado por ele, todavia a minha exigência vai mais longe. — À prosperidade dos noivos! — Vivam os noivos, vivam os noivos! — À saúde dos amigos dos noivos! — À mesma, à mesma! — À saúde das madrinhas! — À saúde das madrinhas! — Vivam as madrinhas! — Vivam os padrinhos! — À saúde do Sr. Jorge! — Sr. Jorge, à sua saúde! — À saúde do mesmo senhor! — Viva o Sr. Jorge! — Obrigado, meus senhores!
— Viva, viva o Sr. Jorge! — Obrigado, obrigado! — Viva o Sr. Anastácio! — À saúde do mesmo senhor! — Vivam, meus senhores.. . — À saúde da Sra. D. Joana! — Para servir a V. M.cês por muitos anos. — Viva a mesma senhora! — Na sua graça, meu senhor. — Bravo, bravo... É na verdade um belo meio este de se enxugar uma boa meia dúzia de copos de vinho do Porto! Enquanto rodavam estas e outras saúdes, o bom do Sr. Jorge, que era um dos padrinhos, arrimado a um canto da mesa, tasquinhava mui desencalmadamente em uma perna de leitão, cuja gordura, alambuzandolhe a sórdida barba, lhe escorria em fios pelos cantos da boca. O nosso belo comilão não se descuidava de ajudar a digestão com repetidos copázios, cujas elevadas bordas continuamente afogava, e cujo fundo sem cessar expunha ao vento. — Olha o velho Jo rg e ... Diziam os rapazes, mofando do velho Jorge, que por seu turno nenhum caso fazendo deles, só lhes respondia entre o estrondo de risadas ébrias: — Obrigado, obrigado. .. — Minha senhora, quer que a sirva com um pouco deste belo guisado? deve estar superlativo. Assim assoprava a voz adocicada de um belo gamenho todo cheio de si! — Pois não; se não se incomoda... — Oh, minha senhora!... antes com muito gosto. Eis aqui. — Minha senhora, à saúde das pessoas que lhe estimam. — Viva.
— Sr. Jorge, à saúde do Augusto e da Sra. D. Laura. — Oh! a esta sou obrigado. — À mesma. — Vivam os noivos. — Vivam, vivam os noivos. — E que seja por muitos anos, e com muitas felicidades. — Dos noivos bebo à saúde. — Bravo o verso, bravo... — Então quem improvisa?... ninguém? — Então, meus senhores: pois numa rapaziada tão luzida não há quem improvise uma décima? — Toca a roer as unhas... — É boa inspiração.. . — Um dos da companhia bate as palmas e pede atenção. — Silêncio, meu senhores, silêncio... — Psiu. .. psiu... silêncio... — Silêncio... — O h !.. . — Silêncio... — Tudo está calado. — Mas não o senhor. — Silêncio, meus senhores.. . Houve um momento de silêncio, e logo uma voz disse: — Ah! sou poeta de água doce, então até quando quer que estejamos calados? Entre o estrondo de longas risadas alguém disse: — Ora, meus senhores, silêncio por um momento. .. — Ah! gosta de versos, minha senhora? — M uito. — Então caluda; a Sra. D. Júlia gosta muito de versos.
— Sinto não ser poeta, minha senhora... — E para quê? — Para cantá-la em um lindo epicédio... Dois da companhia sorriram-se, quatro ou seis tiveram um frouxo de riso e o nosso pedante, mais espantado, lhes diz: — Por que riem? disse eu alguma coisa má? fazem obséquio de dizerem? — Não; muito pelo contrário: é tão bom o que disseste, que nos obrigou a rir... — Mas os senhores fazem-me desconfiar. — Bravo, bravo, desconfiou, desconfiou. — Hoje dir-se-ia mais elegantemente deu cavaco. — Ora, adeus; mas os senhores riem e quem não me entendeu suporá que eu disse alguma asneira. — Ora, Juca, não te zangues, disse Augusto. — Então a décima? — Ah! sim, a décima, a décima... M OTE Dos noivos bebo à saúde. GLOSA Enquanto sobre esta mesa Esta bela companhia Desfruta com alegria Prazeres da natureza; Enquanto... enquanto... — Enquanto do estro a m agreza... — Ora, Sr. Moura, deixe que o Sr. Tomás acabe a décima. .. Repita, Sr. Tomás. .. — Nada, nada; não digo mais... — Ora, por quem é Sr. T om ás... — Enfim, a senhora manda...
M OTE Dos noivos bebo à saúde. GLOSA Enquanto sobre esta mesa Esta bela companhia Desfruta com alegria Prazer es da natureza; Enquanto a gentil beleza Conquista aqui peito rude, Eu empinando um almude De vinho bem generoso, Contente, alegre e gostoso Dos noivos bebo à saúde. — Bravo, bravo... viva o Tom ás. .. — À saúde do Tomás. — Sr. Tomás, viva. — Muito obrigado, minha senhora. — Agora lá vou eu; queiram ouvir-me, disse alegre maganão de bom gosto. — Está bebado. — Lá vai verso. — Venham, venham eles. — Lá vai verso — Pior está esta! — Aquilo é bebedeira. M OTE Dos noivos bebo. .. à saúde. GLOSA — Guloso será ele. .. Enquanto certo poeta (Não sei se já lhes contei)... um
Faz versos... também farei A minha décima pateta... — Agora unzinho mais curto. — Fora o poeta! — Ouçam meus senhores, ouçam; o negócio é sério. — Sim, sim, acabe. — O que está dito, está dito, eu continuo. — Vamos a isso. Enquanto cada um se afeta... — O homem, esse também nasceu nos dias grandes. — É verso e companhia... — Ora deixe-me acabar. — É justo; deixem o senhor acabar. Todavia o bom do poeta continuou assim: Enxugando o seu almude Entre esta canalha rude, Composta de beberrões, Eu cá, com os meus botões, Dos noivos bebo à saúde. — Bravo, Sr. Julião, bravo. — Muito bem, muito bem. — Ah! Sr. Julião, visto que também faz versos, e se diz geralmente que os poetas não se descuidam de beber; como acontece que o ar do campo desafia muito o apetite, será bom que V. M.cê quando vier a alguma súcia fora da cidade seja só... — Como assim? — Quero dizer que não traga outra vez os seus botões, que bebem por doze bêbados... — Bebem como mil diabos! acrescentou outro. — Sr. Lúcio, disse então uma bela senhora e muito grave, tenho lido em manuscrito algumas poesias suas. .. — Nem há coisa alguma minha impressa, minha senhora.
— Bem o sei: mas não me fará a graça de fazer uma colcheia a um assunto que lhe eu der? — Não improviso, minha senhora. — Escreverá; temos papel e tinta bem perto. — Pois bem, minha senhora, por servi-la. — Eis o assunto: Amo a quem não sabe amar, Aborreço a quem me adora. Um respeitoso silêncio reinou então, e o aspirante da poesia escreveu e leu o seguinte M OTE Amo a quem não sabe amar, Aborreço a quem me adora. GLOSA Sem um passo recuar Bem perto vejo o meu dano! E buscando o meu tirano Amo a quem não sabe amar! O que me busca alcançar Então meus fados deplora; Porém quando ele me chora Com piedoso coração, Lhe insultando a compaixão Aborreço a quem me adora! Os bravos e vivas retumbaram por algum tempo: houve saúdes, agradecimentos, muitos vivas ao Sr. Lúcio, etc., etc. Finda esta algazarra, um dos nossos patuscos disse a Julião: — Ó Julião, como é aquele verso da tua décima, que principia: “Eu cá co m ?...” Achei graça nestes saltinhos; é bonito, homem. .. “Eu cá com. .
Houve muitas risadas, ditos jocosos e alguns picantes, como sempre dizem os senhores que chalaceiam; e ainda algumas afrontas indiretas, que são levadas em tom de brinco nessas ocasiões. Os meus leitores muito bem terão previsto que de garrafas se não teriam aqui despejado! E de certo a alegria era já demasiada! Também os leitores muito bem sabem que toda esta função era por causa dos personagens que já otimamente, conhecem, isto é, a madrugadora do meu primeiro capítulo, e o mancebo que a seus pés declarou um terno amor. Também já sabem que estes dois personagens chamam-se, ele, Augusto, e ela Laura, como todos a tratavam: havia, pois, oito dias que na matriz de S. José tinham pronunciado seus votos conjugais ante os santos altares. Foi oito dias depois dos desposórios, que Augusto convidou os seus amigos para os banquetear, e assim lhe ajudarem a vazar algumas garrafas, o que desempenharam optime cum laude!* Estes mancebos, com poucas exceções, eram destes moços de que muito abundam as grandes cidades, isto é, eram alguns destes belos espíritos de educação muIheril, em tudo efeminados, que atam com graça um lenço ao pescoço, que se vestem com elegância, que dançam sofrivelmente um minueto, que falam rapidamente sobre matérias em demasia sérias, que são para eles incompreensíveis mistérios, e discorrem eloqüentemente sobre coisas vulgaríssimas. Findo o jantar, ficaram as damas na sala, e a nossa amável rapaziada dirigiu-se a refrescar as escandescidas cabeças, que então fumegavam, embaixo de uma velha mangueira. Sigamos-lhe os passos até ali. Os nossos jovens eram dos que arrancham a má língua o seu tanto
ou quanto. Neste lugar falou-se em tudo o que se passou na mesa, quem comeu muito, quem bebeu em demasia, quem se esquentou, quem ficou bêbado, as damas que namoraram, os mancebos que fizeram corte, a quem, etc., etc., e tc .. . Ora, como em todas as funções há sempre um bobo, e há gente tão descarada que se embebeda ou finge-se bêbada, para com esse pé dizer o que sabe e não sabe, mentiras e verdades; era um tal André quem, com bastante graça, desempenhava esta infame parte. Cada um por seu turno lhe fazia a sua questão, a que o obsequioso André satisfazia benévolo e com diligência. — Ó André, que te parece o Lúcio? — Um moço que lê alguma coisa, que tem mui pouco talento e muito orgulho; bastante desconfiado e algumas vezes atrevido. — Obrigado, Sr. André. .. — Oh! não há pelo que... — E o Raimundo? — Oh! célebre criatura! parece nascido de propósito para um grande proprietário de muitos bens de raiz; não há gênio mais sofredor! Lá para ele, estes respeitos humanos, pundonores, etc., são uma verdadeira quimera! Que feliz homem! Que filósofo! — Que dizes de Sebastião? — Que muito perde a justiça em o não ter por espião, porque nada vê que não conte. — E o Júlio? — Oh! com suas fumaças de honrado e de falar a verdade, anda gordo. — Que língua! — Ora, isto é gracejar... — E o Luís?... olha, lá vem ele.. . — Oh! nada de falar nesse senhor, que tem mania de valente. — E o Aurélio?
— Cáspite! O moço bonito que leva ao espelho três a quatro horas! — E que dizes do Bernardo? — O namora paredes? — E o Florindo? — Oh! é um senhor que sabendo apenas ler, fala em todas as matérias; até às vezes fala em francês e entende o latim! dança mal um minueto e mal arranha uma viola, a cujo som canta algumas velhas modinhas, e tem a glória de agradar a todas as damas!... — E o Ribeiro? — Ora quem fala num cantador de modinhas? — E o que dizes do Mendes? — Que sem instrução é o nosso A ristarco!.. . Esta cruel maledicência pertenceu a muitos, assim ausentes, como presentes, até que um dos da súcia, gostando mais da variedade, disse: — Ó André, que dizes de D. Geraldina? — A namorada do Júlio! — Como! e o Augusto? — E o Lúcio? — E o Florindo? — Diabo!.. . daqui a pouco tem um cento!... — E D. Henriqueta? — Ah! essa tem sempre um único namorado, com a diferença que tem no dia uns quatro ou seis, bem entendido, cada um por seu turno. — E D. Elvira? — É uma menina que morre por casar... — Que língua do diabo!. .. — E D. Justina? — Ora não fales nisso! uma velha que se lhe meteu em cabeça namorar e casar-se!... — E aquela que passou agora?... olha, ainda ali vai. — Oh! muito respeito: quer namorados ricos, como D.
Angélica quer nobres, D. Margarida militares e D. Bernarda filhos de fora!... — E D. Juliana? — Oh! nada, nada de falar em senhoras casadas... — Não era preciso que mo dissessem; eu não falaria nela, que além de casada é minha parenta... porém uma senhora casada não deve namorar... — Ora com efeito! é certo o rifão — que o falador quando não tem de que falar, fala dos parentes! — André, não será a única casada que namore: que dizeis, heim? — Oh! bagatelas... uma ligeira distração. Esta imoral cena durou até o cair da noite, tempo em que esta luzida mocidade foi convidada para uma sala, onde por muito tempo dançou-se, cantou-se, etc.! Notemos, porém, que só as senhoras tinham cantado, quando alguém pediu a Florindo que cantasse uma modinha. O nosso presumido gamenho esquivou-se com estudada cortesia, até que rogado fosse por alguma senhora; ele o foi, e o namorador profissional, juntando uma débil voz, bem que entoada, ao som de uma viola, cantou a seguinte MODINHA Se quando ainda eras livre Eu te visse, ó linda flor, Ou tu serias só minha, Ou eu morrera de dor; Mas se quebrares Teus duros laços, Gentil pastora, Vem a meus braços-
Reparte ainda comigo Metade do teu amor; Um teu sorriso é bastante Pra terminar minha dor; Mas se quebrares Teus duros laços, Gentil pastora, Vem a meus braços. Muitos bravos, muitos vivas, muitas palmas soaram por toda a sala; ao depois alguém perguntou a Florindo quem era o autor da bela poesia que acabara de cantar? — Eu mesmo, minha senhora, disse o gabola. Nada, porém, mais falso, pois que o impostor apenas tinha feito nos versos algumas alterações talvez com seus fins... A modinha, pois, era deste modo: Como permitiu meu fado Que eu te visse, ó linda flor, Ou sê minha eternamente, Ou eu morrerei de dor. Comigo tece Ditosos laços, Gentil pastora, Vem a meus braços. O primeiro verso da segunda quadra era: Reparte, meu bem, comigo. Tudo o mais do modo como que se vê acima. Uma senhora honrou também a companhia com sua
agradável voz, acompanhada por seu saltério. O divertimento durou até tarde. É isto o que se chama em nossos dias bailes; convém saber, uma sala de inocentes divertimentos, onde uns dançam, outros tocam, alguns cantam, estes comem, aqueles bebem; de um lado jogam, de outro conversam, os moços namoram, os velhos murmuram, e entre os convidados há uns que vêem e ouvem muito, assim como outros surdos e cegos inteiramente. O divertimento durou quase toda a noite; dormiu-se até tarde, e no outro dia depois do almoço desfez-se a companhia. Florindo antes de retirar-se depôs nas mãos de Laura um papel escrito: e o que era ele? os versos da modinha que cantara e que ela lhos havia pedido. maior parte dos meus leitores tendo acabado a leitura deste capítulo, dirá: “Certo que era bem escusado í este episódioeliminado ele deste romance nenhumaj falta pode causar”. Ê em verdade eu próprio já o disse a mim mesmo; porém considerai-o como um fundo escuro do meu painel, e entretanto mais salientes serão os traços coloridos de minha pintura. Lembrai-vos ainda, que é à custa de alguns sacrifícios que se descobre a verdade. Lembrai-vos da minha epígrafe neste capítulo. Há muita gente, e gente de juízo, que diz que não tem tratos familiares, nem em sua casa banqueteia senão a gente séria e bem educada. Perguntai-lhe se tem razão? Depois da leitura deste capítulo, ou antes no princípio do subseqüente, figurai-vos que mais de trezentos e setenta dias se têm passado depois destas núpcias, e que o pai de Augusto, o velho pescador, já não vive.
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