Universo da obra
Universo da obra
É UM HOMEM QUE VINHA FALAR COMIGO As relações sociais variam sempre, segundo os estados, tempos e circunstâncias: o que em um tempo, em um estado, em uma circunstância pode ser crime, noutros pode ser virtude. Quando eu vos disser uma verdade, que não devia ser ouvida, vós tendes direito de chamar-me inconsiderado; mas quando vós me dizeis uma mentira necessária, eu vos chamarei prudente: dizer, pois, que uma mentira é sempre um crime, é caluniar a humanidade! Tudo está mudado! Passageiro que, há pouco, passeavas por esta praia, tu alegravas teus olhos numa bela casa elegantemente construída sobre aquela colina, cuja pitoresca vista dominava alegremente por estes lindos e encantados contornos!... Agora, pára ante essas medonhas ruínas; cruza teus braços no meio desse montão de cinzas; interroga esses
dispersos restos, pergunta-lhes se foi a mão de Deus, ou a mão do homem quem os dispersou arruinados no meio de crepitantes e convulsivas chamas? Mas eles não te saberão responder!... Pergunta a essas ondas que com incessante furor vêm expirar, despedaçando-se de encontro a mole areia desta praia, pergunta-lhes; mas debalde serão teus ecos e sua resposta será um rouco gemido, que tu não sabes interpretar! Pergunta aos campos; eles não sabem! pergunta à brisa; ela sussurra e foge!. .. E então que vês? as ruínas de um belo edifício os despojos das chamas! e a dolorosa lembrança de tantos estragos e de tantos prejuízos! Essas antigas montanhas, venerandos monumentos da primitiva natureza, terão também um dia de horror, uma hora de flagelo, um instante de incêndio! Esses velhos rochedos, timbres seculares da infância do mundo, terão também um dia medonho, uma hora de ruínas, um momento de incêndio! Oh! que então soará um golpe desconhecido para a humanidade, e ao som dele será o último existir desses milagres da natureza! mas tu não conhecerás a mão que lavra o incêndio, tu não verás o gigante que arrebata os penedos! E tudo passará! Há poucos dias uma bela passeava pelas alegres ruas de delicioso jardim, como nos pinta a Antiguidade as gentis ninfas campestres passeando pelos floridos prados! Brincões meninos corriam por estas ruas de flores, entre estes canteiros de agradáveis arbustos, ou se escondiam brincando por baixo destas risonhas ondas de verduras, ou se penduravam travessos nos curvos ramos das viçosas árvores! E hoje?... Como está tudo deserto! Era aqui que todos os domingos reuniam-se em uma risonha sociedade uns poucos de mancebos, dados a toda sorte de divertimentos, de danças, de cantos, de banquetes, de jogos, etc. E hoje?.. . Como está tudo
mudado! Apenas uma meia duzia de artistas são, durante o dia, os únicos habitadores dessas ruínas; e, durante a noite, a imobilidade de uma cidade desabitada, assolada pelos horrores de um terremoto, a_solidão do mais inconversível ermo, e finalmente o silêncio dos sepulcros! Como está tudo mudado! Aqui, pois, precedido de um turbilhão de fogo acabou de passar o gênio das ruínas! Como está tudo deserto! Passageiro, procuras uma família, que, há pouco tempo, habitava aqui, onde então havia uma bela casa? ela aqui não está.. . Queres vê-la? vai à cidade. Augusto, tendo deixado sua mulher conversando com seu amigo, na sala, retirou-se para seu quarto: tranqüilo em sua cama dormia o doce sono da paz, quando o incêndio principiou com seus horríveis estragos: sua mulher e seu amigo fugiram talvez no meio deste horror! Quem sabe se eles supunham que Augusto já se tinha posto a salvo? Como quer que fosse, Augusto tinha o sono sobremodo pesado, e acordandose quase no meio de chamas e de fumo, perdeu os sentidos no momento em que uma salvadora mão tratava dele, para, desejosa de o salvar, baldar à morte a vítima do fogo! Augusto, pois, está salvo; nós o tínhamos deixado, perdidos os sentidos, no meio do terreiro, mas os cuidados dos caridosos vizinhos o restabeleceram. Senhor de todas as suas faculdades, ele contempla o incêndio, observa tantos estragos com a indiferença de Zenon, e após solta o desprezador sorriso de Diógenes! Augusto fez seus escravos recolherem na casa de um seu vizinho os poucos bens salvos às chamas, e aí também se aboletou com sua família. Seu amigo Florindo teve o cuidado de pôr à sua disposição, na cidade, a sua casa, ou antes de seu pai, ao que Augusto urbanamente recusou-se, não querendo ofender o melindre do amigo, cuja casa era a em que se achava.
No seguinte dia ele escreveu para a cidade a um de seus inquilinos, para que logo e logo despejasse as suas casas, atentas as circunstâncias em que então se achava. Oito dias depois do incêndio, Augusto e sua família estavam na cidade. Sabemos que há mais de ano Augusto está casado; também_Jsab£mo& que ele, ama. extremosamente a süa mulher; mas o que não sabemos é se ele é porventura do mesmo modo amado. E como sabê-lo? por exteriores provas? Oh! não. Respeitemos o coração humano em todos os seus mistérios! Só os Levitas de Israel podem tocar na Arca Santa do Senhor! e ai daquele que ousar de tocá-la com impura mão! O coração humano é a arca santa de amor, e só os amantes a podem tocar! Oh! não profanemos a arca santa de amor! O amor, tem sempre seus os arcanos em todos os corações, o coração de uma mulher é um labirinto incompreensível, cujos rodeios não podem ser percebidos nem pelos gênios os mais vastos e lidadores! não entremos: pois nesse labirinto, onde devorarnos pode o Minotauro do orgulho, sem que valer-nos possa o prestante fio da humildade!... Se Augusto não é amado por sua mulher, quem melhor nos poderá dizer do que o tempo? Ele tudo sabe... Augusto era extremosamente amante de Laura, e ela extremosamente formosa, e mais extremosamente orgulhosa de seus encantos! Os desejos dessa mulher eram para ele leis imperiosas, às quais se sacrificariam as mais absolutas necessidades! Prever os desejos de sua mulher, satisfazê-los incontinenti, era para este bom dos bons maridos a maior felicidade da terra! Laura, por sua parte, de um gênio nimiamente ríspido, caprichosa, mal-educada, além de atrevida; pagava dignamente a seu marido as
(lue sore seu coração, ou para melhor dizer, sobre Sua gratidão contraía todos os dias um tão estrem eci amor! A princípio o seu bom marido reputava os ati'evimentos de sua mulher por belas vivacidades Ulíia senhora de talento!... Sendo ela sobremaneira orgulhosa de seus encantos, parecendo até não amar a seu marido, era sobremodo ousada em seus desabridos ciumçsj célebre contradição! primeiras audácias de sua mulher, Augusto resPonia com beijos repudiados! Com abraços não corresPoncUdos, e enfim com rejeitadas carícias!.. . Foi muito tarde que Augusto reconheceu a sua falsa PoslÇlo de marido; foi muito tarde que quis ostentar a SUÍl autoridade ou supremacia conjugal! Muito tarde, P°r% e a talentosa Laura respondendo-lhe com uma S . feira risada, ofereceu-lhe galantemente as suas saias em justa troca de seus calções! é m disso, Laura era a mulher dos extremos, por<lue sempre estava ou muito distraída, ou muito preoc P M a, e muito mal iam os negócios domésticos. Hpre acrescentar que ao mais leve aviso que seu ™arMo lhe fazia, e ainda com carinhos, ela tornava-se >go. Já vedes, era uma moça de talento! delícias deste consórcio só foram nos três, ou cluatro primeiros meses, e os oito que se seguiram a completar-se um ano, foi um consórcio de tormentos razao dita. Quantas vezes Augusto não teria dito: ——=1, meu pai!” Ü * "" ---k__ _*s senão quando, repentinamente, e contra a espectaÇo de todos, Laura começou a fazer uma mudança considerável, de modo que os meses, que se seguiram eP>is do primeiro ano, foram dias de tanta quanta entura pode gozar-se na terra entre os amantes braços e m a amável consorte! Augusto, pois, se julgava bem feliz! Sim, que sua mulher havia perdido todos os seus maus costumes,
ameigando inteiramente o seu gênio; e pode ainda dizer-se que de todos os seus defeitos só um lhe ficara, o ciúme, porém este, que parecia haver refinado em intensidade, tinha inteiramente afracado em seus furores! Sim, que esse ciúme agora só parecia um afeto brando, filho de um amor extremoso, ou antes de um terno afeto mais do que delicadamente sentido, que era esse amor agora tão suavíssimo! Vós direis sem dúvida: “Laura ama a seu marido!” Pois bem. Não vos dizia eu que respeitássemos o coração humano em todos os seus mistérios! Augusto, pois, se julgava bem feliz, e nem indagar queria o motivo da mudança de sua mulher!... I CçHrux é misterioso o «oraçã©--d©—homeai) Sofremos um dano, sabemos que ele nos vem de uma certa mão, . que não conhecemos, esta idéia de não conhecermos o autor de nossos males os faz avultar em extremo! A lembrança de que há um mortal, que causou nossas desgraças é para nós uma idéia terrível! Quiséramos conhecê-lo para vingar-nos, ou ao menos odiá-lo com um ódio do inferno! E, se já não vivesse, para, se mais não pudéssemos, amaldiçoar seu nome, detestar sua memória e aborrecer seus descendentes! Este desejo de vingança, este sentimento de ódio são os nossos pensamentos do dia, e os nossos sonhos da noite! O dano desaparece, tornamos à felicidade, e todavia resta em nossa alma um sentimento de rancor, e em nosso coração um ressentimento de ódio! Recebemos, porém, um benefício, e por ele gozamos a felicidade; seu autor é desconhecido; no momento do entusiasmo de uma gratidão momentânea desejamos ardentes conhecer o nosso benfeitor, malogra-se o nosso desejo, e pouco tempo depois nem nos lembramos que há, ou houve uma caridosa mão que benéfica nos felicitara! Outras vezes conhecemos o nosso benfeitor, e tratamos com ele quase sempre... Todo homem tem suas
imperfeições, e o homem benfeitor pode ter a respeito do seu beneficiado alguma imprudência, e isto é de sobra para que passemos a esponja da ingratidão na longa pedra em que estão inscritos tantos benefícios! Vós me perguntareis se a ingratidão é em nós um instinto, e se o agradecimento nada é mais do que o produto de um estudo? Esta idéia, cuja tese se poderia sustentar, e talvez com sucesso, permiti que eu não desenvolva; mas vós vedes que os brutos por natural instinto, apenas desnecessitam dos socorros maternais, deixam para sempre os autores de seus dias: é o instinto da própria conservação que liga os meninos àqueles que os pensam, sem a menor idéia de gratidão; e todavia o menino que pende do seio, ergue uma trêmula mão para tocar naquela que o amamenta, e algumas vezes, com ainda fracos dentes, morde o seio que o alimenta! Ainda assim, se o agradecimento é um dos mais belos filhos da educação social, nós somos bem felizes!. . Sim, detestamos os ingratos, que empestam a sociedade! não é preciso que sobre sua testa estampemos ardente o negro ferrete da infâmia, é muito que lhe digamos: “Tu és ingrato: “Tu és ingrato! Tu és um bruto que, debaixo de uma forma humana, vives na sociedade dos homens. T u és ingrato... esta palavra de condenação e de opróbrio revela toda a perversidade de teus costumes! Tu és ingrato... opróbrio sobre ti! maldição, maldição!” Já sabemos que a casa que em Copacabana fora incendiada se acha reedificando; cumpré agora que vos diga que Augusto ali vai quase todos os dias a ver suas obras. / Durante três meses em que ele costumava a ir todas as manhãs, só cinco vezes lá tinha ficado, por se não expor às injúrias de horrível tempestade; e sua mulher já estava assaz prevenida para que não o esperasse em noites de grande!? tormentas.
Uma tarde, era no mês de janeiro, seriam três horas, mais ou menos, quando se começa de ouvir os roucos estrondos de amiudados trovões; um frio vento do sul principia a soprar com inusitado desmandamento; o céu imediatamente se cobre de procelosas nuvens; copiosa chuva açoita as asas dos ventos; farpados relâmpagos abrasam os ares, enquanto crepitantes raios despedaçam o seio das nuvens! Parecia que a natureza tinha cansado de existir, e que, como o derradeiro lam pejo de chama que expira, por último empenho, punha em jogo todos os seus horrores, a fim de lacerada por toda parte, tombar para sempre no tenebroso abismo do primitivo caos! Diríeis que era um drama de demò nios, que se representava no inferno! Pouco antes das onze horas da noite a borrasca havia cessado. Tudo era tranqüilo e belo, como uma noite serena de mágica primavera! Laura em seu quarto dormia ou velava; nós o não sabemos, nem nos é lícito penetrar no respeitável santuário dos casados: dormia ou velava... Tudo estava em sossego... — T rá s... trás... trás... — São três golpes que soaram sobre a porta da casa de Augusto... Laura os ouviu . . Silêncio... tudo é silêncio... Talvez que Laura não esteja ainda bem acordada... — T rá s... trás... trás... — Agora foram mais fortes! Laura estremece... e por quê? Mistério!.. Ela ergue meio corpo, c com sonolenta voz fala: — Q u... em ... ba... te? — Manda abrir, Laura. — Augusto!!!... Ela murmurou. Certo o não esperava. Pouco tempo depois a porta foi aberta e Augusto entrou. — Como! com tal tormenta?... — Ah, vim antes do meio-dia, por causa de negócios. A tempestade apanhou-me já na cidade, em casa do Tomás, e agora, depois que serenou, é que pude vir.
Este pequeno diálogo, entre o marido e a mulher, terminou aqui. Augusto, talvez a pedir água para lavar-se, encaminhou-se à cozinha: ao chegar à sala de jantar, um vulto embuçado em seu capote saltando por sobre o muro do fundo, que dividia a sua casa da do vizinho, vingava-o para o lado oposto... — Quem vai aí? quem vai aí?... Era tarde; o noturno já se tinha posto a salvo. A cozinheira, escrava preta, era a única que na cozinha então velava: é logo presa por seu senhor, e interrogada sobre o fugitivo aventureiro... Laura aparece ao mesmo tempo, e quer saber o que vai... A escrava é ameaçada para que confesse a verdade; ela treme, balbucia e fala: — Perdão, meu senhor... perdão... É um homem que vinha falar comigo... A escrava era uma crioula moça e bonita. ..
Leia gratuitamente O Filho do Pescador, de Antônio Gonçalves Teixeira e Sousa, romance brasileiro original de 1843 e marco fundador do romance no Brasil. Texto integral em domínio público preparado em HTML para leitura online no Literunico, com fonte UFSC/BLPL validada, capítulos completos, capa nova no padrão Literunico, busca, redes sociais e pesquisa por IA.
Ainda não há resenhas para esta obra. A primeira leitura comentada pode começar aqui.
Uma seleção criada para acompanhar a atmosfera, os personagens e os caminhos desta obra.
Escolha a arte, confira a disponibilidade e adicione o produto ao carrinho sem sair da experiência.
Adquira Relíquias da Obra e deixe sua marca registrada, criando valor ao item!
Capítulos disponíveis para continuar a leitura.
Nenhuma Relíquia desta obra foi adquirida ainda. Seja o primeiro a eternizar seu nome no acervo oficial!
Conhecer as 100 RelíquiasAinda não há resenhas para esta obra. A primeira leitura comentada pode começar aqui.
Nenhuma posse foi registrada publicamente para esta edição.
Durante a leitura, abra Menu para ajustar a experiência sem sair do capítulo. As preferências de aparência ficam salvas neste aparelho.
Recursos identificados como “em preparo” aparecem para antecipar a evolução do leitor, mas ainda não executam uma ação.
Posso mostrar leituras em destaque, clássicos e Relíquias disponíveis agora no Literúnico.
Escolha um caminho
Dúvidas desta página
As explicações do Aurélio são respostas cadastradas pelo Literúnico.