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O Filho do Pescador

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O Filho do Pescador

Capítulo 17 · O Filho do Pescador

Capítulo XVI — Amanhã!

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CAPÍTULO XVI

AMANHÃ!... A religião tem ministros, que podem muito por meio da palavra: outros por meio de seus exemplos muito mais. Os que podem por meio dos cruéis efeitos que produzem são os remorsos! Eles podem quanto não podem a palavra e os exemplos. Muitas vezes a ruína de um malvado é o remorso de outro. Venha o arrependimento; embora tarde, ele será sempre bem hospedado por nossa alma. — Pega, pega... Pega ladrão, pega ladrão. — É aquele, que ali vai fugindo... é ele, é ele. .. Pega, pega... Tais eram os gritos, que no largo do palácio de todas as partes se alevantavam, enquanto no ponto, donde partia correndo o fugitivo, se apinhava uma numerosa multidão de pessoas de todas as idades (que vagam pelas ruas), sexos, e cores; e enquanto um homem, que parecia escravo, com tanta velocidade fugia, que em sua rápida carreira parecia nem tocar as pedras, que ladrilha vam a rua Direita. O fugitivo, iludindo os seus perseguidores, e os empenhos da polícia, alcança a ladeira do mosteiro de S. Bento, e nem mais vestígios. Um homem tinha acabado de desembocar da rua de S. José, e dirigindo-se para o largo do palácio, quase ao voltar o canto do mesmo, ao sair ao largo, abalroou-se com um rapaz, destes a quem chamamos vulgarmente capoeiras: o encontro foi forte; o homem irrita-se, e desanda uma forte bofetada no crioulo, que o atira à terra; este, um tempo foi erguer-se do chão cheio de fúrias, e de um salto de onça, voar sobre o nosso homem, e tras-

passar-lhe o coração com uma faca... ele cai, estrebucha e morre! Suponde que nesse lugar vedes um grande ajuntamento de pessoas, que formam um grande círculo em redor de um corpo exangue, sem vida, e caído sobre um grande lago do seu próprio sangue. Entre os espectadores, que o cercam, notai um preto de trinta e oito a quarenta anos de idade, que contempla o morto com um gesto misterioso! Estudai no semblante desse preto; vós encontrareis nele um pensamento, que, por sobre seu rosto podeis todavia ler em sua alma: compreendei bem esse pensamento, e vós o traduzireis nestas palavras: “Quem com ferro fere, com ferro é ferido!” Esse preto é o fiel João; o morto, o malvado Marcos! A sua vez tinha chegado! É Marcos, pois, o morto! Há de menos um malvado sobre a terra, mas há também um criminoso de mais! Marcos encontrou a morte nas mãos daquele a quem ofendera pela primeira vez! Pela primeira vez, é verdade, mas com uma das mais graves ofensas, que na terra dos homens sociais pode-se encontrar! Também num escravo se podem deparar com estímulos dignos do mais honrado homem livre! Não é um escravo o matador do malvado, é um homem cruelmente ofendido, justamente irritado, e que tinha direito a uma vingança no próprio lugar em que fora indignamente afrontado! Notemos que quando eu vos digo — um rapaz capoeira — não vos quero dar a entender um matador por ofício, mas um rapaz tão ágil; tão ligeiro nos manejos de seu corpo, que inerme, pode defenderse de um homem armado. É, pois, Marcos o morto, e morre quando preparava uma vingança! As terríveis palavras do fantasma do jardim acabavam de verificar-se neste momento de horror, e talvez de eterna justiça!

“Ah, malvados da terra! a vossa vida é um milagre, e o milagre é sempre uma abstração da ordem natural... mas a natureza volta aos seus domínios, o milagre desaparece, e a vossa vida, esmagada debaixo do peso de vossos crimes, tomba no abismo dos flagelos, da desesperação e da morte!... ” E não é isto o que acabamos de ver? A vida de Marcos era um milagre, e o milagre havia cessado! Marcos tinha caído debaixo de seu próprio peso, e a carga enorme de seus crimes o havia para sempre esmagado! O fiel João contemplou este corpo sem vida com um interesse misterioso! Se acreditarmos as palavras deste honrado negro, temos que notar alguma coisa entre este corpo e o de Florindo. Marcos, ferido no lado do coração, caiu sobre ele, no meio de um mar de seu próprio sangue, e com a mão direita sobre o peito esquerdo parecia apertar a ferida por onde há pouco lhe fugira, envolta em negros borbotões de empestado sangue, uma alma desesperada, e tão criminosa! Tal era a postura de Florindo quando expirou, tal a sua ferida! A só diferença era que Florindo disse algumas palavras quando caiu, e ouviu alguém dizer-lhe: “Deus te perdoe.” Marcos, porém, nada ouviu, nada disse além de um horrendo ai de morte. Adoremos a justiça divina. O preto volta à sua senhora, e fiel narrou-lhe tudo quanto visto tinha, empregando quase as mesmas cores lutuosas de cenas tão deploráveis! Laura tremia a ouvilo! Foi esta a primeira vez que ela entrou em si própria! Foi então que uma séria reflexão teve lugar em sua alma! Laura passa pela imaginação o terrível drama do assassinato de seu marido, obra sua, e do funesto Florindo! e então ela própria desenrola em seu pensamento esse longo novelo de continuados horrores! Depois, Florindo morto às mãos de Marcos por sua mesma ordem! Quem

sabe se isto seria a justa punição de seus crimes?! Depois, o perigo em que se vira no jardim às mãos do facínora! Ah! será isto um aviso do céu?! Enfim, a morte de Marcos!... E de fato, todos estes acontecimentos eram lições donde a moral tinha não pouco que colher! Mas Laura havia visto malvados, que viviam contentes... como ela se enganava! Além disto, diria ela consigo própria: “E Augusto não acabou mal? e que havia ele feito?” Laura era ainda tão moça que não podia maduramente pensar sobre estas enfiadas conseqüências! Era impossível até em tanta mocidade, em tanta formosura, e em algumas riquezas, uma repentina mudança de vida, a menos que naquele coração não houvesse um golpe, cujo remédio fosse a pronta emenda de vida tão abominável. Laura tinha consciência do muito poder de seus encantos, o que obstava a mudança de seu coração! Mas quem sabe? ela é moça: amará ela ainda com um verdadeiro amor? O amor produz seus milagres, e talvez ela então possa sofrer uma emenda! E que momento! Ela pensa sobre seus crimes! Sim, ela m edita.. . Alguém bate; Laura aproxima-se da porta... Ah! é o idolatrado escolhido do seu coração! É ele, e nunca tão a propósito, pois vem arrancá-la de seus amargurados pensamentos. A alma de Laura, que nesse momento vagava pelo negro espaço do amplo painel de seus crimes, veio estremecidamente ao doce apelo da ternura, percorrendo a fogosa órbita de amor, para aí entranharse gostosa na suave contemplação dos quase celestes encantos do melindroso caçador! Laura, desenhando o céu em um encantador sorriso, dirigindo-se ao seu amado, graciosamente disse: — Tardastes muito... — Muito? — Muito. Já estava saudosa de vós. — Muito vos devo.

— Como? Pois vós não me tendes amor, como eu vos tenho? — E o duvidais? — Então nada devemos um ao outro. — Não obstante amar-vos, eu sempre vos devo muito. — E por quê? — Porque grande diferença existe entre nossas posições sociais. — E quais? — A mais notável é a vossa riqueza, e o meu pobre estado.. . — Vós sois pobre? — Pois já vos esquecestes que vos disse que sou órfão de pai e mãe, e que vivo como por esmola em casa de um meu padrinho; e que não tenho de meu talvez nem o ar que respiro?... Ao falar assim, duas formosas lágrimas se deslizaram de seus lindos olhos ao longo dessas belas faces angélicas, que foram saudadas por outras duas não menos formosas, que os (também lindos) olhos de Laura igualmente ao longo de suas belas faces, escoar-se deixaram, como por uma terna simpatia! E ela disse: — Pois bem, sois pobre? tanto melhor, tanto mais amada serei por vós, tanto mais eu vos amarei. Serei eu digna de vós? Se como tal me julgais, eu repartirei convosco a minha liberdade. Os meus bens sobrarão para nós ambos; vós sereis o senhor deles, como o sois de meu coração... Laura disse, e estremeceu. Parecia contente do que acabava de dizer, e parecia arrependida! O caçador arrebatado num êxtase de prazer e de amor, numa deleitosa efusão de alma, atirou-se aos pés de Laura, exclamando: — Ó alma generosa, como sois amável! Vós me quereis fazer feliz, e eu vos amo tanto, que ofenderia o meu próprio coração sempre que vos desgostasse! Eu pecaria

contra mim próprio sempre que vos desobedecesse! Vós sais de vós própria, desceis até mim para ao depois me elevardes até a misteriosa altura do vosso sensível coração! O meu amor, a minha gratidão para convosco só acharão uma única barreira, a sepultura! Mas se alémtúmulo, no mundo dos puros espíritos, duram as memórias da terra, e existem as mesmas sensações, lá mesmo vós sereis minha, ó minha doce amada! Eu parto, eu vou lançar-me aos pés de meu padrinho, suplicar sua licença, ele ma dará... e ao depois, vossos braços, amor, e a felicidade! Assim falou o mancebo. Esta bela cena de entusiasmo cedeu seu lugar a cenas de ternura, e de protestos: era bem natural. Findo tudo isto, o mancebo saiu, e buscou a casa de seu padrinho na Cidade. Apenas aí chegado, procurou seu padrinho, o Dr. Sinvala; contou-lhe o conhecimento, que tomara com a viúva da Copacabana, contou-lhe com as mais vivas, e esquisitas cores a beleza desta mulher, fez-lhe saber que era rica, descreveu-lhe, do modo o mais apaixonado, o seu amor para com ela, e as disposições dela a seu respeito, notou-lhe as vantagens, que ele podia obter por esta união, e acabou por pedir-lhe licença para desposá-la. — Como se chama ela? — Laura... — Amanhã a iremos ver. — Amanhã?! — Amanhã... O caçador estremeceu!... Seria de susto ou de terror? Que mistério! Era noite: um personagem, que acabava de ouvir as últimas palavras, tendo o rosto envolto em um lenço atado por debaixo da barba, o chapéu assaz enterrado na cabeça, embrulhado num grande capote, entra, e apertando a mão do Dr., disse com interesse: — Amanhã!... — E desapareceu.

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Sinopse

Leia gratuitamente O Filho do Pescador, de Antônio Gonçalves Teixeira e Sousa, romance brasileiro original de 1843 e marco fundador do romance no Brasil. Texto integral em domínio público preparado em HTML para leitura online no Literunico, com fonte UFSC/BLPL validada, capítulos completos, capa nova no padrão Literunico, busca, redes sociais e pesquisa por IA.

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