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O Filho do Pescador

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O Filho do Pescador

Capítulo 20 · O Filho do Pescador

Capítulo XIX — Olha, meu filho!

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CAPÍTULO XIX

OLHA, MEU FILH O !... Nada há mais fácil do que o arrependimento; nada mais difícil do que a emenda da vida. Todavia pode-se, nos milagres da natureza, encontrar efeitos que jamais produziriam os deveres, e direitos da moral; todo o rigor das leis, ou outros quaisquer respeitos humanos; e nesse caso uma única palavra, uma gesticulação é tudo, quando um belo discurso é nada. Se Augusto tinha em sua imaginação o intento de fazer punir severamente a Laura de seus crimes, certo que assaz imprudente andou em uma tal declaração. A natureza tem seus milagres, como seus mistérios: descrer aqueles e desacatar estes, não é tão fácil para uma alma bem formada. A humanidade nos apresenta cenas, que para não estalarmos de dor à vista delas, cumpre não termos sido afe-

tados de um só desses gerais, ternos e imutáveis sentimentos da natureza. Nós podemos facilmente resistir a certas comoções, ainda até dolorosas, opondo-lhes um pouco dessa filosofia estóica de que blasonavam homens de passadas eras; são essas comoções, que, ainda que fortes, todavia não têm, nem tampouco abalaram em seu favor a íntima, e mais terna simpatia de nossa alma! Mas há em nosso coração uma fibra de tal maneira dorida, que, uma vez tocada, faz estremecer de um modo desagradável, e contrair-se dolorosamente a nossa sensação tão altamente movida por uma dor moral, tão ativa, e sobremodo veemente, que obriga a que nossa alma gema oprimida debaixo de seu sensível e mortal pesadume! E, se há corações em que essa fibra não exercite essas nobres funções, não é que ali não exista; existe, não em seu modo primitivo, como a plasmara o primeiro Autor, mas sob outra modificação, isto é, petrificada pelo crime! Nós aborrecemos sempre um homem insensível; e até nem simpatizamos com o que não chora no meio de uma grande cena de dor, embora ignorando as qualidades de sua alma! Nossa alma é sempre grata ao juiz, que sentencia o crime, e chora a humanidade! Admiramos a constância de Bruto sentenciando e condenando seus filhos à morte; mas quando chamamos sublime esse esforço da humanidade, não o louvamos, nem invejamos um sentimento ante o qual estaca a natureza horrorizada! A natureza e a humanidade são duas irmãs, ligadas pelas mais íntimas e continuadas relações; mas há da parte da humanidade pontos, que podem ser invadidos pela natureza, assim como da parte da natureza leis, que a humanidade jamais pode aquebrantar: Deus equilibra estas justas relações: tudo está bem como ele fez. Mas dissemos que aborrecíamos sempre o homem insensível; que nossa alma é sempre grata ao juiz que

sentencia o crime, e chora a humanidade; que admiramos a constância de Bruto, sem todavia o louvarmos, nem tampouco invejarmos um sentimento tão contrário às leis da natureza: e por quê? Por que razão simpatizamos nós com as almas sensíveis, e temos até prazer em chorar quando sofremos moralmente impressões dolorosas? Dor e prazer são dois afetos inteiramente opostos: é um a antítese do outro. Mas poderão eles casarem-se em nossa alma no mesmo instante, na mesma ocasião, e efeitos da mesmíssima coisa? Como é que em certas comoções mistura-se em nossa alma um sentimento de dor com um sentimento, que tem uma parte de prazer, ou um sentimento de prazer, que tem uma parte de dor? Porventura tão benéfico, e ao mesmo tempo magnífico será o sublime maquinismo da natureza humana que em todas a afecções sociais haja uma tal e qual porção de prazer? E parece ser isto uma verdade! Parece que a compaixão ou é um dos nossos mais agradáveis instintos, ou que a tal ponto nos ilude, que dessa doce ilusão nasce esta mesma suposição! Parece que há nela não sei que de insuperável atrativo, a que jamais é permitido resistir. É impossível negar por um só momento; é uma verdade de primeira intuição, e universalmente reconhecida, que a compaixão por um efeito de simpatia para com a desgraça é sempre uma dolorosa impressão: a simpatia nos faz tomar parte pelo seu objeto, e então já em sua essência não deixa de haver um tanto, ou quanto de amor e de amizade: a compaixão é sempre um sentimento benéfico; e da mistura da compaixão com essa certa amizade, ou com esse certo amor, resulta um novo sentimento agradável, o prazer! Não nos esqueçamos, porém de que a base primordial de todos esses afetos em nossa alma é o amor dos outros, a filantropia. Em conseqüência, pois, do amor da humanidade tomam vulto todos esses afetos. Parece então que esse pra-

zer, a que atingem essas comoções brandas e suaves, senão excede, ao menos equilibra-se com a dor de um modo tão pronunciado e tão veemente que nossa alma, como por um feliz milagre, produzido pela reunião de todos esses sentimentos, vem finalmente a achar-se em um, como brando êxtase de satisfação! Cumpre confessar ainda que este prazer doloroso é por si mesmo tão delicado, que sentir toda a sua mágica força não fica ao alcance de qualquer sensibilidade: ele perde-se na dor de um modo tão sutil, que se torna quase imperceptível à sensibilidade, como as fugitivas nuanças (*) do íris à vista. Todavia este prazer, filho de nossos belos sentimentos morais, parece em virtude deles crescer sempre na razão de nossas dores, para eficazmente contrabalançá-las; e este crescimento prodigioso achando propícias todas as nossas faculdades, encontra em seu favor esse íntimo e desejado beneplácito de nossa própria vontade. Um coração, pois, bem formado se julga muito feliz quando prova impressões de amor e de amizade; e além de se não julgar descontente, sempre que nos males alheios é abalado por sensações de compaixão e de piedade; dá os parabéns a si própria, como que satisfeito de tomar alguma parte nos males dos outros, compartilhando-os moralmente! Suponde que além da honra e da virtude eu tenho retratado as qualidades morais de Augusto pelo que respeito à sensibilidade. E de fato, Augusto tinha um coração bem formado; ele era honrado e.virtuoso; teria, pois, ânimo para resistir a todas essas impressões dolorosas entre a criminosa Laura e seu inocente filho? É uma luta de dor, em que jogam quase todos os afetos suaves do coração humano; (*) Leitor benigno, senti comigo a necessidade de bem exprimir-me neste lugar, e eu vos asseguro que não só me perdoareis o termo francês que usei — nuanças — como aceitareis talvez com gosto.

e não isenta de alguns afetos funestos! É, pois, uma luta de amor, de amizade, de ódio, de vingança, de compaixão e de piedade; uma luta enfim da humanidade, e da natureza contra a justiça, em que a mesma religião não deixa de ter parte! Agora vós não tendes perdido de vista a mãe e nem o filho. — Minha m ãe... — Meu filho... — Foram as últimas palavras desses dois entes desgraçados; e caíram nos braços um do outro. Pouco tempo ao depois, Emiliano, desligando-se dos braços de sua mãe, corre para Augusto, exclamando na mais viva e na mais acerba dor: — Perdão, senhor, perdão para minha mãe. .. — Mancebo (tornou-lhe Augusto) não merece que implores seu perdão uma mulher tão criminosa... — Mas se a criminosa é minha m ãe.. . Ah! não foi a voz de Emiliano a que acabastes de ouvir neste momento... não; que está despedaçado pela mais aguda dor! Foi a natureza que em seus lábios arrebentou essas palavras, cujo enorme peso era bem capaz de esmagar debaixo de si todo o poder da mais bem premeditada vingança! — A criminosa é minha mãe. .. Ah! palavras doces em si próprias, e agora amargas no fundo de tanta aflição, que amontoavam a mais extrema dor sobre tudo quanto há de mais doloroso! E com efeito, Emiliano não só as pronunciou no mais aflitivo e patético acento, como no acerbo delírio de sua angústia atirou-se aos pés de Augusto, exclamando em sentido pranto: — Ah, senhor! a criminosa é minha mãe! Meu pai... tenho jus a este nome, sois o marido de minha m ãe... meu pai, meu bom pai, perdão... perdão para minha mãe... Ah! é minha mãe!...

Que cena de dor! Que luta de sentimentos! Que quadro! — É minha mãe!... Eram as palavras que Emiliano repetia sempre soluçando e abraçado com os pés de Augusto. — É minha mãe!... Sinval pranteava como talvez nunca. Augusto, arrependido de sua revelação, tapava o rosto com as mãos, sufocado em pranto, Laura, caída de joelhos insensivelmente parecia gelada no meio de tantos sentimentos de dor. E Emiliano repetia sempre entre soluços — É minha mãe!.. . Que linguagem tão enérgica! Podereis vós nesse grande código da natureza traduzir essas palavras? — É minha mãe!. .. Mancebo, não te calarás?! Até quando queres despedaçar nossos corações? Mas não: dize, dize outra vez: outra; muitas vezes; dize sempre: — É minha mãe!.. . — Pranteia, pede, roga... Uma mãe, ainda perversa, é sempre cara ao coração de um bom filho! Implora o seu perdão, ainda que te custe lágrimas de sangue! Eis, outra vez, dize sempre: — A criminosa é minha mãe! — Dize, completa o teu triunfo; lança por terra derribado o tremendo altar da justiça; e sobre as suas ruínas coloca a vitoriosa natureza perfumada pelos incensos da humanidade! Laura no meio desta cena de angústias caída de joelhos com as mãos erguidas ao céu exclamava, como em um delírio de dor: — Ó meu Deus, por que a morte me não livra do peso dos meus crimes? Emiliano, correndo para ela, exclama na maior comoção de sentimento: — Minha mãe, minha mãe, não desespereis... Deus é grande, e sua misericórdia infinita! Ele não quer a morte do pecador criminoso, porque ama as lágrimas do seu arrependimento!...

— Deus é grande! Sim, meu filho, Deus é grande!... Ó meu Deus, dá-me um arrependimento forte para morrer digna de meu filho... Oh milagre! Oh triunfo da natureza num coração criminoso! Ela fala em arrependimento. .. Oh amor maternal! Oh natureza! Neste momento Emiliano estava também caído de joelhos junto de sua mãe, e erguendo as mãos ao céu, exclamava: — Ó meu Deus, lança sobre minha mãe teus olhos cheios de misericórdia! Traze ao teu rebanho, Senhor, esta ovelha dele desgarrada... Depois erguendo-se, vem para Augusto, chega-se a ele, pega-lhe na mão direita, beija-lha; e sem pronunciar palavra, com uma gesticulação, que revelava toda a intensidade da dor de seu coração, e todo o fogo do amor filial, estendendo o dedo índice, lhe mostrava sua mãe! Nunca a dor, nunca o remorso, nunca o arrependimento, se mostraram tão sublimes, nem jamais apresentaram um tão interessante painel! Laura na postura, que vos descrevi, parecia implorar as misericórdias do Senhor! Seus olhos embebidos no céu nem pestanejavam. Duas fontes de lágrimas se deslizando deles, vinham alagar o assoalho em frente de seus joelhos! Era um santo êxtase da natureza, e da religião, isto é, do amor maternal, e do arrependimento! Sua cabeça era um grande e tormentoso lago de dolorosas reminiscências, em que havia um único porto de salvação — o arrependimento! Diríeis que era uma virgem cristã espontaneamente votada a Deus, que orava ante o altar, e que se achava num desses instantes puramente psicológicos, em que a alma embebida em divinas idéias teófilas, se deleita nesse suave remanso de santas contemplações! Era, pois, uma nova Madalena, que meditando no amor do Cristo, chorava os erros e os crimes de sua pas-

sada vida de pecados! Seu rosto se mudava de cores, e quando pareceu mais calma, ela disse, como em suave alucinação: — É meu filho! é meu filho!... A minha alma estava na escuridão do crime, e a luz do arrependimento brilhou em minha alma! Um anjo desceu do céu até mim... É meu filho! é meu filho! — Ó meu pai (disse então Emiliano), que momento! Aproveitemo-lo: seja ele um momento de triunfo para a natureza, e de prazer para a humanidade, coroado pelas flores da religião! Ela está arrependida. Ó meu pai, perdoai-lhe; e seja este instante de felicidade para nós todos. A morte, ou o eterno degredo de minha mãe de nada vos poderá servir; e o seu arrependimento, e o vosso perdão serão os mais belos episódios da história da nossa vida. Ah, meu pai! nunca o nosso amor próprio se enche tanto de si mesmo, e tanto se lisonjeia e orgulha, do que quando perdoamos uma grave afronta; e é por meio do perdão unicamente que o homem se assemelha a Deus. Ah, senhor, se tendes sabido sofrer como um filósofo até hoje, sabei também perdoar como um Deus! Minha mãe conspirou contra vós, é bem verdade; ela vos assassinou, mas Jesus Cristo do alto da cruz bradava: “Ó meu Pai, perdão para os meus algozes.” Ah, senhor, imitai-o; mostrai que vosso coração possui esse, o mais belo sentimento da religião cristã! É grande o sacrifício, é bem verdade, mas tanto maior será também a vossa glória! Nada tenho sobre a terra; perdi meu pai na infância, não tenho parentes... ai de mim! no momento em que o crime me restitui minha mãe, fazei que a vossa virtude me conserve seus dias! Já ninguém podia suportar esta cena, quando Augusto chegando-se a Laura, e pousando-lhe levemente a mão 14S

direita sobre um ombro, com voz um tanto comovida disse: — Laura, estás verdadeiramente arrependida dos teus crimes? — Olha meu filho!. .. — Laura, tens forças bastantes para chorar uma vida tão cheia de horrores? — Olha meu filho chorando! — Laura, queres a vida? — Para chorar lágrimas de sangue, dignas de meu filho; e para à custa delas alcançar de Deus o perdão dos meus delitos.. . — Laura, queres um convento? — Para a dor, para a contrição, para as lágrimas e para uma morte cristã. — Oh, amor maternal, oh, natureza! como sois belos até mesmo num coração criminoso! Laura, eu te perdôo .. . — Minha mãe!. ..

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Sinopse

Leia gratuitamente O Filho do Pescador, de Antônio Gonçalves Teixeira e Sousa, romance brasileiro original de 1843 e marco fundador do romance no Brasil. Texto integral em domínio público preparado em HTML para leitura online no Literunico, com fonte UFSC/BLPL validada, capítulos completos, capa nova no padrão Literunico, busca, redes sociais e pesquisa por IA.

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