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O Filho do Pescador

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O Filho do Pescador

Capítulo 10 · O Filho do Pescador

Capítulo IX — Deus te perdoe

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CAPÍTULO IX

DEUS TE PERDOE No meio dos mais horrorosos crimes há sempre um lado de moralidade: conhecê-la está em estudá-los. Estudemos, pois, os crimes, não em si próprios, mas em seus resultados e em sua origem; então um véu rasgar-se-á diante de nossos olhos, e esse cubo apresentará ao nosso exame uma face bem diversa daquela que antes observávamos. No fim de tudo, notemos que os prêmios e castigos andam sempre de envolta com os bens e com os males. Temos direito àquilo que se nos promete. Eu, pois, vos prometi, bela Emília, dar-vos uma história moral; é bem: sendo assim, é justo que faça algumas reflexões sobre este desastroso passado que acabastes de ouvir. À vista do quanto fica dito difícil coisa sem dúvida é o determinar qual destas duas criaturas, infinitamente criminosas, a mais criminosa era. Quanto a mim, as circunstâncias, que agravam seus crimes, estão em um tão perfeito equilíbrio, que am-

bas são a nossos olhos horrivelmente criminosas: sem que em nenhuma das partes haja a menor qualidade atenuante, que minore a intensidade de um tal delito! Em ambos estes dois funestos amantes havia, além do crime de incêndio, do de adultério e do da morte de Augusto, o detestável crime da ingratidão! Parece que injusto seria que na sociedade dos homens os crimes julgados fossem em si mesmos e não pelas suas conseqüências. Há crimes bem horrorosos, mas que todavia a sua influência não passa além do ato do crime; são crimes, cuja perpetração constituem o seu princípio e a sua consumação. Ao contrário, outros há, que parecendo pequenos em si, a sua ação se vai empregar em uma ou mais pessoas diversas, e às vezes depois de alguns anos. Nós já vimos em que crimes incursos estão os nossos personagens, e que além dos três primeiros grandes crimes, há o da ingratidão. Este, que entre algumas nações não é olhado senão como um erro em si mesmo, talvez porque não poucas vezes carece de conseqüências funestas, com efeito, povos tem havido que o tem considerado como um horrendo delito, e como tal o tem sujeitado ao rigor das mais severas leis. Entre nós mesmos pessoas há que não duvidariam votar graves penas em punição do pai da maior parte dos crimes! Geralmente falando parece que os mais funestos de quase todos os crimes são a morte e o adultério, por irremediáveis em suas conseqüências; pois que se naquele há a morte física de um indivíduo, neste não deixa de haver uma espécie de morte moral a alguns respeitos disto a que o mundo chama honra e que (confessar-nos cumpre) é indispensável na sociedade! O indivíduo morto não pode tornar à vida; eis a mais horrível conseqüência do homicídio, e é que o mal feito está eternamente feito! No adultério há quase o mesmo, além de envolver, quando menos, dois cri-

mes, o perjúrio, em menoscabo da fé dada em face dos altares, e a infâmia lançada sobre um indivíduo, ou sobre uma família inteira. Além de que, este crime pode, mais tarde, implicar um furto, isto é, o filho de um estranho herdando de um homem, que não é seu pai, e a quem seu verdadeiro pai fez grave afronta: isto no adultério da parte da cônjuge; mas como esta possibilidade nem sempre se realiza, não a contaremos, como uma das conseqüências deste crime; nem tão falto de conseqüências funestas é ele, que precise meras possibilidades. Sempre que se vê o marido de uma adúltera, esta infâmia é recordada; sempre que se vêem seus filhos, esta afronta vem a pêlo! e o parce sepultis * não serve de barreira a uma tão funesta memória! Trazei agora à vossa imaginação as desordens, a imoralidade levadas ao centro de uma família, o mau exemplo para os filhos, e a imoralidade para com a sociedade, e vede se este crime carece de alguma conseqüência que não esteja desde logo no domínio das realidades? Podemos pois concluir que os crimes mais horrorosos em suas conseqüências, por irremediáveis, são o homicídio, e o adultério! Entretanto parece que nações existem que o tem considerado como uma passageira galanteria de moços facetos, e de senhoras (a quem hoje chamamos do grande tom). Todavia, o homicídio pode algumas vezes ser justificado pela defesa da própria vida, da honra, da fazenda, etc. O adultério porém nunca será justificável; não obstante alguém haverá tão indulgente que queira minorar sua intensidade por causa de alguns maus tratos, abusos de alguns maridos, faltas de certos necessários, etc., porém bem miseráveis são semelhantes desculpas, mas demo-las de barato.

Quanto à ingratidão, parece que nada, e nada absolutamente a pode, nem levemente desculpar. Perguntai ao ingrato: — Por que depois que enriquecestes espalhastes espinhos no amigo terreno, que durante vossa miséria vos dava o precisado pão? — Que responder? Neste outro crime pois haviam incorrido os dois adúlteros: um contra o seu benfeitor, e outro contra o seu bom amigo! Demais, conquanto seja indesculpável o abandono em que o amante deixava a Laura, ela tinha dado uma triste idéia de si, e de todos os seus costumes, quando disse-lhe que com um amante havia fugido da casa paterna. A fuga de uma donzela da casa de seus pais para a de um amante, é sempre um mui feio crime. Com efeito, o jus que cada um tem à sua felicidade parece desculpar a donzela, que, ouvindo da boca de seu pai, ou tutor, estas terríveis palavras: — Ou te casarás com F ........ , ou te encerrarei num convento, ou cárcere privado, — sai da casa paterna para a de um bom parente, ou de um honrado depositário, até o dia de suas núpcias com o objeto do amor de seu coração, pois que se não pode resolver a dar a mão de esposa àquele a quem não ama, e que supõe incapaz de a felicitar; por isso que, preciso é confessar, ninguém pode formar a dita de outrem a seu bel-prazer. Dissemos que o abandono em que o amante deixava a Laura era para ele uma falta indesculpável, porque tendo essa mulher empedernida sido arrastada a toda sorte de crimes por esse malvado, justo era que dali em diante mutuassem suas sortes, e todas as conseqüências de seus crimes. Além de que, quando um criminoso convicto sofre a flagelante idéia de seus crimes, o remorso o mais cruel, e que mais horrivelmente mastiga a sua consciência é a compaixão dos que ignoram seus crimes; porque ele sabe, e sabe muito que essa compaixão é a ingênua filha de uma alma boa, que vive na ignorância desses hórridos feitos, e que essa pessoa compadecida, sabendo os seus delitos, bem que não retiras-

se a sua compaixão, ou antes piedade do criminoso, que sofre, diria contudo em sua alma: — Sofre a pena de seus delitos... Deus é justo! — Deste modo só a compaixão de seu amante, verdadeira compaixão, era a única a que Laura devia ter direito e ele à dela, sem a mazela das cruentas fúrias do remorso: mas a sorte dos malvados é tão desgraçada, que ligando-se, e amando-se todos os semelhantes, estes se ligam, e jamais se amam, e antes quase sempre se aborrecem interiormente! E na verdade, se uma mulher casada, se uma mulher que ama pensasse cinco minutos antes, uma de adulterar e outra de trair, certo não haveria adúlteras, nem tampouco pérfidas; porque o pensamento que deve logo assaltar é espontâneo em ambos os culpados: da parte do homem que aconselha ao crime, este: — Ela trairme-á algum dia, como hoje ao seu marido ou ao seu amante. E da parte dela: — É um homem que me aconselha ao crime, que destrói a minha reputação, logo é um infame. Demais, ou ele ama-me, ou não; se me ama deve amar a minha reputação, o meu sossego, meu bem-estar e a minha honra; mas ele que me aconselha a desonra, logo me não ama, e então buscame guiado tão-somente por um sórdido deleite. Enfim, quando o meu crime for descoberto ele pôr-se-á a salvo, e a mim ficará a afronta, a vergonha, o horror dos meus crimes e quem sabe se a morte! Nem se oponha a esta razão o poder do segredo; e podemos estar certos que muito mal vai quem muito se fia de um segredo: além de que não há segredo em negócio algum sobre a terra, quando esse negócio é sabido por duas pessoas. Quanto ao dizer o amante que acreditava conspirar unicamente contra um marido não amado por sua mulher, e não contra seu benfeitor, miserável desculpa era, fosse ou não amado dela: e que lhe importava? ele havia sempre conspirado contra o seu amigo!

O que é verdade é que, passados os primeiros momentos de entusiasmo de amor, os crimes cometidos durante essa terrível crise de ilusões, assoberbam aos olhos dos que já pensam a sangue frio, com horrorosas cores, e debaixo de hediondas formas; e uma vez aparecendo a reflexão sobre esses crimes, o amor então já é muito difícil! Eu bem sei que alguém haverá de uma alma tão bem formada que negue uma possível credibilidade nos crimes desta mulher; mas cumpre o não conhecer o de quanto é capaz o coração humano para negá-la. Observemos de passagem que, quando uma mulher chega a ser perversa, não há crime por horroroso que seja ante que recue o seu empeçonhado coração: isto é raro, é bem verdade, mas tem acontecido. Indubitavelmente o número dos homens- maus é sobremodo maior do que o das mulheres, ninguém o poderá íTegar; mas ninguém poderá igualmente negar a asserção que avancei antes, sobre a perversidade de uma mulher, endurecida e já muito familiarizada com o crime. Laura era, pois, uma mulher cruel (talvez porque tinha aprendido a sê-lo)... tinha até um gênio infernal, e era vingativa. Deixaria ela impune o seu falso amante, o cúmplice de seus crimes, o homem que a abandonava? Ficariam sem vingança a dor e o ultraje que acabava de sofrer! Por sua vontade, não. E que fará ela? Meia hora depois da retirada do amante, um viajor noturno devora caminho, a longos passos, da Copacabana para a cidade: ao entrar em uma pequena mata, ouve-se o estrondo de um tiro, e o viajante tomba ferido e moribundo... O assassino foge, segundo depois se soube, e o assassinado exclama com voz fraca: — Eu morro . . Deus é justo... Ao mesmo tempo um rebuçado, coberto com um grande chapéu, chega-se ao moribundo, e com voz medonha lhe fala: — Florindo, dissestes bem: Deus é justo,

Florindo, Deus te perdoe!... E fazendo brilhar a luz de uma lanterna furta-fogos, acrescentou em sua voz natural: — Conheces-me? O moribundo encara-o, solta um grito de horror e de espanto, e expira...

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Sinopse

Leia gratuitamente O Filho do Pescador, de Antônio Gonçalves Teixeira e Sousa, romance brasileiro original de 1843 e marco fundador do romance no Brasil. Texto integral em domínio público preparado em HTML para leitura online no Literunico, com fonte UFSC/BLPL validada, capítulos completos, capa nova no padrão Literunico, busca, redes sociais e pesquisa por IA.

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