Universo da obra
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CONTO CONVOSCO A incerteza da existência da pessoa, que amamos é o tormento, que mais pode oprimir nossa alma e esmagar nosso coração. A saudade desse objeto é um círculo de ferro, que cerca a nossa imaginação: a incerteza aperta esse círculo com tanta força que sentimos estalarem-se nossas idéias de um modo doloroso, de encontro ao rochedo da ausência. Mas a inesperada vista desse bem é tão venturosa que por si só é capaz de fazer-nos esquecer nossos desastres passados, adoçar nossos males presentes, ou até abrilhantar nosso lutuoso porvir. Se, pois, existe sobre a terra a suprema felicidade, é a que entrega em nossos braços o bem que perdido chorávamos. Amar!... compreendeis vós o sentido oculto desta palavra de mistério? Amar!. .. Quanto é doce amar! Ah! Houve um tempo em que a luz de vossos olhos estava noutros olhos? Um tempo em que nenhum som abalava o tímpano de vossos ouvidos senão uns sons mais suaves do que o suave suspirar da brisa; uns sons mais ternos do que o terno gemer da maviosa rola? Um tempo, em que nenhum cheiro feria gostosamente o vosso olfato senão um cheiro mais precioso do que o do divino nardo! Um tempo em que o vosso sabor existia noutros lábios? Um tempo, em que o vosso tato ressentia-se apenas ao leve tocar de um estranho corpo, mas onde palpitava o vosso coração, e onde cogitava a vossa alma? Houve um tempo, em que vós não sentíeis em vós próprio, porque outra pessoa possuía os vossos sentidos? Um tempo, em que não vivíeis em vós mesmo, porque outra pessoa em vós vivia, como vós nela? Tivestes alguém, cujo olhar vos assustava, cujo falar vos fazia tremer, e cujo tocar vos abatia? Tivestes
alguém, cujo rosto vos desenhava um serafim e cujo sorriso desdobrava ante o vosso coração todos os encantos do céu? E que nome dáveis a esse alguém? — Vós lhe chamáveis — Minha amada! — Pois bem; mas isso era nos momentos de vossa calma: e nos momentos de vossos êxtases? Um anjo! — Bem: e nos vossos delírios — um Deus! — Sim, um Deus; e ela o é quando verdadeiramente ama, porque Deus está em seu coração, o céu no seu rosto, e os anjos em seus sorrisos! Amar! Adormecestes alguma noite amando? Dormistes já um sono de amante? Tendes vós alguma vez vos acordado em uma madrugada de amor? Oh! como é tudo isto encantador! Amar! Quanto é doce amar! E houve algum tempo em que amando, e sendo amado, longe existia a vossa querida? Provastes algum dia as dolorosas ternuras de um melancólico afeto a que chamamos saudade? Compreendeis todo o amplo sentido da palavra saudade? Experimentastes uma vez os efeitos dessa dor de nossa alma, durante a ausência da eleita do nosso coração? Saudade... doloroso sentimento da sensibilidade penalizada nos males do presente! suave efusão da inteligência deleitada nos bens do passado! consoladora esperança da vontade na incerteza do futuro! Saudade... composto maravilhoso de múltiplos sentimentos de que resulta para nossa alma a suprema faculdade de atingir a todas as sublimidades do Amor! Uni agora à saudade a incerteza da existência do bemamado, e vós ter eis, não um sentimento terno e melancólico, mas um sentimento cruel e desesperado! Aqui tendes o estado em que se achava a alma de Laura. Amava e amava muito; seu bem estava longe dela, e desde o dia que terminado fora pela terrível cena do jardim, que não tinha do seu belo caçador nem a mais leve notícia. A inesperada aparição de Marcos no lugar da entrevista, a declaração do escravo, que asseve-
rava ter ele interceptado a sua, e a carta do caçador, eram mortais angústias para sua alma! Esse jovem a quem ela ama, desde que tal amor tivera princípio, não tinha deixado passar quatro dias sem vê-la, e todavia sete já são decorridos desde esse fatal dia, e ele não aparece! Marcos sabe de tudo, e Marcos de tudo é capaz. Ela tremia, pois, pelo seu belo caçador, porque o ama, e o ama tão estremecidamente, que dar não duvidaria pela vida dele a sua vida, se morto ele estivesse, e por esse tão caro preço resgatar pudesse uma vida, que era a alma de sua vida. A estas idéias lúgubres unindo-se outras não menos dolorosas, vinham contristar sua alma, e funestar dias, que ela quisera guardar desvelada para sacrificá-los, como oblação de um apaixonado amor, ao formoso mais amado de seu coração, ao belo mais doce de sua alma, o lindo caçador enfim! Tais eram as idéias, que turbilhonavam na escandescida cabeça da apaixonada Laura, como um turbilhão de chamas, entre massas combustíveis no abrasado bojo de troador vulcão, quando ouviu bater à porta'. . chega à janela... — ah!... — foi um suspiro de amor arrojado por um repentino prazer! — Formosa Laura!... — Meu lindo caçador!.. . — Vós deve is estar muito enfadada comigo, não é assim?... nem eu aqui venho senão a pedir-vos perdão; e estou certo que ao depois que me ouvirdes me perdoareis... — Mas de quê? de quê? — Por não ter comparecido no lugar aprazado para a entrevista, que tive a liberdade de pedir-vos... — A h... nem disso já me alembrava... — Como! Pois não vos alembráveis? — Sim; o prazer de ver-vos é tal, que já me tinha
feito esquecer todo esse passado. Mas, vamos, por que não viestes? — Vedes esta ferida? — Oh, meu Deus! ferido! — Não vos assusteis; é coisa mui pequena. — E como a recebestes, como? — Eu vos conto. Depois que daqui saí, no dia, em que vos dirigi a minha carta, diverti-me algum tempo na caçada; já um tanto cansado, parei à sombra de uma árvore para tomar alento; carreguei a minha espingarda, e distraído a deixei armada... — Oh, meu Deus! Que fizestes.. . — Foi uma distração. Depois, pondo a mão sobre a boca... oh! eu tinha todo o meu pensamento embebido em vós, e de nada mais me alembrava! Absorto em meus pensamentos, puxo a arma para adiante; um cipó, talvez, embaraçou-se no gatilho, a arma disparou... — Ai!... — Não tenhais susto; nada foi; feri-me apenas nesta mão, aqui neste lugar, que chamam bordo interno; bem vedes que não houve perigo, pois que o lugar não é para isso. Todavia o susto arrancou-me um grito involuntário; meus companheiros, ouvindo o eco do tiro, e o do grito, acudiram-me, e vendo-me ferido, propuseram-me o voltarmos para a cidade. Foi debalde que lhes resisti, fazendo-lhes ver que a ferida era de nenhum cuidado; não me atenderam, e quase à força fizeramme ir. Eis aqui a razão porque não compareci, como devia, no lugar da entrevista. Laura tendo ouvido esta narração, olhou para o mancebo em um, como êxtase, e exclamou: — Vós sois um anjo, e Deus vos protege. O vosso tiro foi um benefício do céu... — Talvez... mas eu não vos entendo.
Laura contou então a caçador que tivera um vizinho, que por vezes solicitara o seu amor, mas debalde, pois que ela o aborrecia; que este vizinho desconfiado de o ver em sua casa (ao caçador) a rondava de contínuo... etc. Isto é, Laura contou tudo acerca da interceptação das cartas, e a importuna aparição de Marcos no jardim, terminando desta maneira: — já vedes que se fosseis a esse lugar serieis vítima desse malvado. — E vós fostes? — Sem dúvida. .. — E ele? — Intentou contra a minha vida.. . — Que malvado!... e ao depois? — Um meu escravo, correndo em meu socorro, livroume dele... — Que monstro! É por isso que ele pretendia vingarse de vós... — Vingar-se de mim! como? pois sabeis alguma coisa a tal respeito? — Sim, sei. Laura corou estremecendo. O caçador notou o seu sobressalto, e interpretando, como efeito do susto, acrescentou de um modo afetuoso: — Tranqüilizai-vos. Eu vos conto em curtas palavras o quanto sei. Ele contou-lhe então o quanto o preso revelara a respeito de Marcos, e da premeditada vingança contra ela; e acabou, dizendo: — Felizmente ele não poderá escapar às garras da polícia, que por toda a parte o busca. Deus protege os seus anjos. Os dois amantes depois de largo conversarem sobre seus amores, Laura disse:
— Vós me havíeis pedido uma entrevista, e eu tive a imprudência de vo-la conceder... — Como, senhora? Imprudência por quê? Acaso me julgaríeis capaz... — De nada. Não vos antecipeis. Digo imprudência por causa do lugar, pois que sendo eu livre, aqui mesmo vos posso arreceber e escutar tantas, quantas vezes quiserdes falar-me. — Perdoai-me; bem sei que sois viúva, segundo me houvestes dito; sei que sois senhora de vossas ações... mas a vossa família. .. — E o que tem a minha família? A nossa entrevista não passaria de um inocente entretenimento. O caçador corou; Laura sorriu-se, e ele timidamente disse: — Nem eu mesmo exijo mais... A isto seguiu-se um breve silêncio, que bem podia revelar a timidez, de que estavam possuídos aqueles dois corações neste momento. Direis que é um mancebo terno, amante e vergonhoso (este o era) que pela vez primeira se vê à face do terno objeto que ama: e que é uma donzela tímida, que ama, e receia; e que por fortuito acontecimento se acha em presença, só por só, do mortal por quem seu coração palpita ansioso cheio de amor, e como ameaçado pela força da paixão a estalar-se. Finalmente o mancebo falou. — Perdoai-me, é um pouco tarde; haveis de permitir que me retire. — Pois já? — Vou à minha caçada. — Esperar-vos-ei quando a acabardes? — Se o determinais.. . — Não; porém vos rogo. — Como o quereis, eu vos obedecerei. — Conto convosco. — Até à volta.
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