Universo da obra
Universo da obra
TÃO TARDE, TÃO TARDE, MEU LINDO CAÇADOR!. .. A nossa sensibilidade se contrai dolorosamente sempre que é ferida por idéias horrorosas; e nossa alma se fatiga em uma cena de continuidades lutuosas: demos, pois, uma espécie de trégua ao nosso espírito a respeito de horríveis acontecimentos. A nossa sensibilidade quer alguma expansão por meio de quadros agradáveis. Eu vos convido agora a sentirdes comigo a idéia de um objeto belo. Ora pois, o passado passado. Tão nu de acontecimentos não é o presente que nos ocupemos de coisas que já lá foram. Não está Laura tranqüila? Ao menos o parece: tanto melhor. E Marcos? Sem algum receio otimamente. Confessemos sempre que no ânimo de Marcos parece haver alguma coisa de desconfiança; e nem por menos: essa desconfiança é sempre a necessária conseqüência de um amor, cujos gozos custaram crimes e que se assinalaram pela morte de um primeiro amante: mas que há nisso? Tudo passará. Em uma dessas belas manhãs, bem semelhante àquela, cujos sedutores encantos descrevemos em o nosso primeiro capítulo; quando já os primeiros raios do sol deslizando furtivos beijos nas flores do vale, esmaltavam de frouxo dourado as grimpas das árvores dos picos das serras, uma linda mulher passeava pelo seu belo jardim em uma rua dele, que ficava contígua à vizinha estrada: ela parecia submergida em um profundo pélago de meditações, quando o doce modular de uma
maviosa, e mais que sonora voz humana, veio suavemente quebrar o fio de suas reflexões, e tirá-la gostosamente do abismo delas! Era um jovem e lindo caçador, que, deitado na estrada, meio recostado sobre o tronco de uma árvore, e descansando talvez da fadiga de seu longo caminhar, cantava docemente este romance, cujo assunto é assaz conhecido em nossa história. ROMANCE — Oh! que amor meu peito encerra, Amor, que por ti se seva! Ou não te vás desta terra, Ou se te fores me leva.. . — Amor, que teu peito encerra Só pra mim hás de guardar... Ou me não vou desta terra Ou se for hei-te levar. — Minha pátria largarei, O que nela possuir, Os parentes deixarei Somente por te seguir. — Se a pátria queres deixar, E dela o teu possuir, Faço gosto em te levar Se fazes em me seguir. — Se arreceias meu amor, Arreceios vão findar; Porque sinto em meu ardor Um amor que sabe amar.
— Eu de amor não arreceio Para arreceios formar, Porque tu tens no teu peito Um amor que sabe amar. — Não será tua esquivança Motivo para meu mal; Nem será tua mudança O prazer de um rival. — Não será minha esquivança Motivo para teu mal, Nem de mim uma mudança O prazer de um rival. — Se por minha formosura Mal te cabem vis falsias, Não mal andei se em ternura Te dei o que merecias. — Se por tua formosura Mal me cabe uma falsia, Bem andaste se em ternura Me deste o que eu merecia. Oh! que galé será aquela Que rasga as ondas do mar? Oh! que galé, vai tão bela Prestes a terra deixar! Velejando empavesada Sobre os mares se embalança, Em a sua popa alçada Brinca a bandeira da França.
Mar em fora a velejar Se parte a galé francesa; Ondas do salgado mar Lá corta com ligeireza. Traz ela se vê nadante Linda turba de mulheres... — Navio, por instante Eu te suplico que esperes. — Tu levas Caramuru A vida do meu viver!... Ou deixa Paraguaçu, Ou pára, e me vê morrer. — Se me não tinhas de feito, Qual eu tinha, igual ardor: Porque acendeste em meu peito Incêndio do meu amor? — Não tens dó do meu amor, Nem dó do meu triste fim? Matas minh’alma de dor, E me abandonas assim?! — Oh! que ingrata criatura! Que falsia tão estranha! Oh! que tamanha tristura! Oh! que esquivança tamanha! — Como escrava ia servir Servindo Caramuru... Te seguira a não seguir A infame Paraguaçu!
— Pois que não posso contigo Já viver vida de amor, Fico sem ti, e comigo Vou morrer morte de horror! — Vou-me pra morte me andando, É minha hora chegada . . Mas por que morra te amando, Vou da morte enamorada... Disse, e já pálida e fria Se escorrega, e cai do leme; E da morte na agonia Estrebucha, morre e geme. Nisto as outras nadadoras Em vão valê-la quiseram Porém não eram já horas, Que valê-la não puderam. Ele não pôde valê-la, Nem dar vida a tanto amor; Sem chorar não pôde vê-la, Nem vê-la morrer sem dor! Quebrai-vos rochas de dores, Chore o mar, a praia gema... Campos, murchai, secai, flores, Porque é morta Moema. Parece que o jovem caçador cantou somente as estrofes de que se lembrou naquela ocasião, pois conforme nos parece algumas ainda faltaram. Pouco tempo depois ele levantou-se, e deu a andar para a casa de Laura, e aí bateu. A linda mulher, que com tanto interesse havia escutado o romance acima era a mesma Laura; e foi ela quem veio abrir a porta ao
formoso desconhecido. Nem Laura, nem o jovem caçador puderam encobrir sua surpresa um ao outro. E em verdade, ver Laura sem sentir-se abalado por tanta formosura, mal caberia à alma de gelo de um Xenofonte ou de um estóico, cujas sensações estivessem inteiramente embotadas, e incapazes de se impressionarem dos prazeres, ainda os mais inocentes da natureza! Quanto ao caçador, de dezessete a dezoito anos de idade, era de estatura regular, bem-feito, e sobremaneira airoso. Seus negros cabelos, um tanto crescidos, formavam engraçados anéis sobre seu pescoço, dando a sua linda cabeça uma forma assaz elegante. Debaixo de duas proporcionadas sobrancelhas, lhe brilhavam dois grandes olhos negros, que saltitando inquietos pareciam brincar com inocentes amores; e enquanto duas pudicas rosas contrastavam a brancura de seu rosto, no meio de suas faces, uma pequenina boca abrindo dois lindos e rubicundos lábios, deixavam ver duas belas ordens de cândidos e pequenos dentes, excessivamente bem dispostos, deixando o seu encantador sorriso duas ligeiras sombras, presas em duas graciosas covas, feitas em suas faces, como duas ligeiras nuvens, pouco densas, esmaltam um céu da aurora; ao mesmo passo que a bem-feita barba, ainda mal assombrada (como por sobre o lábio superior) pelos primeiros guias da puberdade, se repartia feiticeiramente em duas. Juntai a tudo isto um timbre de voz agradável e tocante; maneiras engraçadas, fórmulas assaz polidas, uma gesticulação honesta, e vós me perguntareis: — É um anjo? Laura e o belo caçador se encararam; soltaram simultaneamente um sorriso, e um rubor mais esquisito espalhou-se por seus lindos rostos. Oh! esse mágico e tão belo sorriso dos lábios do mancebo, essa vergonha com que os olhos de uma bela esmaltam seu rosto, quanto seriam encantadores nos lábios e no rosto de Laura, se ela fosse inocente! Ah! eram dois sorrisos de amor, branda e docemente deslizados sobre essa misteriosa cor
com que no milagroso instante do primeiro estremecimento do coração, com que no primeiro momento do enlevo de alma o amor se costuma ataviar! O mágico, o doce sorriso do caçador era o puro sorrir de um anjo, porque ele era inocente, como a pomba! Laura, Laura, o teu feiticeiro e gentil sorrir seria o sorriso de um anjo, se tu foras tão inocente, como o lindo caçador! Laura tinha tanta consciência de sua beleza, que bem via que a surpresa do caçador era por ela produzida; o caçador por seu turno não se desconhecia de modo que não sentisse o mesmo. Ele pediu água; Laura lha deu com sua própria mão, e pouco depois, passada uma breve conversação, o caçador despediu-se. O belo mancebo repetiu as suas caçadas nos bosques da Copacabana, e por conseguinte se lhe repetia sempre a sede, que ia saciar no belo copo de água apresentado pelas lindas mãos da formosa Laura. O caçador já amava a Laura: e como vê-la sem amá-la? mas seu amor era um amor respeitoso! Ele sentia que esse respeito não era filho de medo, mas ignorava de onde provinha! Ele a amava, mas tremia com a idéia de amála! Amava e supunha impossível dizer-lhe: — Eu vos amo... — Ele sentia que a sua sensibilidade tinha sido agradavelmente abalada pela presença dos encantos de Laura! Sentia que todas as suas faculdades intelectuais estavam ocupadas pelas graças e pelo amor desta gentil mulher! mas todavia, não só se não atrevia a falar-lhe coisa alguma, como tê-la por sua amante! E ele com efeito desejava estar sempre com ela e viver sempre com ela! É, pois, um amor, mas sem a ardente cobiça do am or... então não é amor! Será amizade? é mais do que amizade! Será amor de irmão? é mais do que amor de irmão! É amor de filho? é menos do que amor de filho! Mas enfim é um amor, um amor que tem um mistério! Laura também já amava o caçador, mas com um amor, que, bem imitando o do seu lindo amado, ela própria
não sabia compreender esse amor e muito menos explicar. Ela sentia pelo caçador quanto este sentia por ela; e todos os seus sentimentos a respeito dele eram em tudo, e por tudo, iguais aos do seu amante. Durante os primeiros dias algumas cartas foram trocadas entre os dois novos amadores; e em uma só delas nada se pedia; e em todas tudo se concedia: engrandecimentos de amor, finezas, protestos, etc., e não passavam disto. Por fim foi o moço caçador o primeiro mais ousado, rompendo em pedir a sua bela uma entrevista. Houve uma resposta; que em seu devido lugar comparecerá ante nós: por agora basta dizer que em uma bela manhã em que o caçador saiu de estar com Laura, e seguiu para sua caçada, Marcos veio ter com ela e lhe disse que tendo de ir à cidade aquele dia não voltaria senão no seguinte. Foi ao depois da saída de Marcos que Laura respondeu a carta, em que o caçador lhe pedia a entrevista, para a qual queria aproveitar a ausência de Marcos na cidade. Era noite: os objetos já se não distinguiam, quando Laura dirigiu-se ao lugar pactuado. Longo foi o esperar, e o caçador não aparecia: ela volta a sua casa, aí pouco se demora, e segunda vez torna ao lugar para onde seu coração a atraía com irresistível força: ainda o caçador aí não está. A noite vai adiantada, e nem o menor indício. Um amante faltar a uma entrevista pedida a sua dama, e a uma primeira entrevista?! Oh! será possível uma tal infâmia! Laura espera, e espera com ansiedade. Que idéias de cólera e de horríveis desconfianças não turbilhonam naquela vulcânica cabeça, como acapeladas ondas no meio de um mar tempestuoso! Não é mister descrevê-las... alguém, que tenha amado, pendente de uma entrevista, pode claro ajuizar dos furores, que agitam o coração nesse momento! Já se resolvia a voltar para sua casa a atrabiliária moça, bem enfadada contra o seu belo caçador; e de ânimo
quase firme a não voltar, quando um vulto trajado, como o seu belo caçador, para ela se dirige... Laura apenas o vê, corre ao seu encontro, dizendo: — Tão tarde, tão tarde, meu lindo caçador.. . — Conquanto não seja o mesmo. .. — Ah!... Laura solta um grito de surpresa, de susto, e de horror!... quer fugir, mas é tarde! é tarde, que uma dura mão de ferro a prende por um braço! Oh que não era essa mão de ferro que se esperava, era uma doce mão carinhosa! Não era a mão de um demônio, era a mão de um anjo... e o anjo não veio!...
Leia gratuitamente O Filho do Pescador, de Antônio Gonçalves Teixeira e Sousa, romance brasileiro original de 1843 e marco fundador do romance no Brasil. Texto integral em domínio público preparado em HTML para leitura online no Literunico, com fonte UFSC/BLPL validada, capítulos completos, capa nova no padrão Literunico, busca, redes sociais e pesquisa por IA.
Ainda não há resenhas para esta obra. A primeira leitura comentada pode começar aqui.
Uma seleção criada para acompanhar a atmosfera, os personagens e os caminhos desta obra.
Escolha a arte, confira a disponibilidade e adicione o produto ao carrinho sem sair da experiência.
Adquira Relíquias da Obra e deixe sua marca registrada, criando valor ao item!
Capítulos disponíveis para continuar a leitura.
Nenhuma Relíquia desta obra foi adquirida ainda. Seja o primeiro a eternizar seu nome no acervo oficial!
Conhecer as 100 RelíquiasAinda não há resenhas para esta obra. A primeira leitura comentada pode começar aqui.
Nenhuma posse foi registrada publicamente para esta edição.
Durante a leitura, abra Menu para ajustar a experiência sem sair do capítulo. As preferências de aparência ficam salvas neste aparelho.
Recursos identificados como “em preparo” aparecem para antecipar a evolução do leitor, mas ainda não executam uma ação.
Posso mostrar leituras em destaque, clássicos e Relíquias disponíveis agora no Literúnico.
Escolha um caminho
Dúvidas desta página
As explicações do Aurélio são respostas cadastradas pelo Literúnico.