Universo da obra
Universo da obra
EU TE HEI DE AGRADECER No meio de todas as cenas de medonho horror, o homem meditabundo depara sempre com o poderoso dedo da Providência! O malvado vive tão-somente enquanto Deus faz dele o instrumento de sua incompreensível Justiça; e por seu turno acha outro malvado, que igualmente o puna. Deus é justo. Visto termos tanto falado em Marcos, digamos a seu respeito alguma coisa. Era ele um cavaleiro de indústrias de boa presença, que passara os seus belos anos, desde os vinte aos trinta e dois, em uma companhia de ladrões, a qual comandava como chefe. Era esta célebre quadrilha o terror das estradas de Minas Gerais, e de São Paulo! Nessa vida de sangue, e de crimes, acostumado a ver prantos, e horrores entre sorrisos infernais, e a ver mortes no meio de uma orgia de sangrentos furores, e com uma frieza glacial; que vinha a ser para ele uma, ou duas vidas?! Agora vejamos por que Marcos compareceu no lugar onde Laura julgava encontrar o seu belo caçador. Em uma das vezes das ternas sedes deste jovem, foi ele encontrado por Marcos, quando ia a casa de Laura saciá-la; Marcos perguntou a Laura quem ele era, e ela lhe disse, que um moço caçador, que pedira água, mas que o não conhecia; não obstante, Marcos era tão desconfiado, e o caçador formoso, que Marcos deveria ver
nele um rival feliz; e desde então espreitava tanto o jovem, como Laura. Lembrados estaremos que houve uma manhã, em que o caçador foi, como sempre, pedir água a Laura, e que nessa manhã Marcos lhe dissera que ia à Cidade: pois bem; saibamos agora que Marcos tinha visto o caçador sair da casa de Laura, que tal viagem era fingida, e que tudo era cilada. O escravo, portador das cartas contarnos-á o resto. Agora voltemos a Laura. Quem há aí, que vendo Laura correr para sua casa, fugindo dentre as mãos de Marcos, não a suponha cheia de susto, cortada de medo, e estremecendo ao mais leve rumor de uma palha? Vós vos afigurais que a vedes encerrada em seu quarto sempre, e sempre; se sai até a vizinha sala é sempre espreitando tudo, e de tudo receiosa. A voz de Marcos, desse terrível vizinho, cujo nome só é assaz para seus terrores, lhe brada incessante em seus ouvidos: — Tu morrerás. — Por outro lado, a respeito desse generoso desconhecido, julgareis que ela pouco não tem em que cuidar. Certo não era o seu lindo caçador! E quem no seu jardim naquele momento, e a tais desoras? Como soube Marcos que ela, e o caçador deviam ter uma entrevista, e naquele lugar? Vós supondes que estes são os pensamentos, que ruminam na cabeça de Laura; e todavia, estes eram. Naquela mesma noite Laura faz chamar o preto, portador das cartas, e o inquire sobre elas; e o escravo balbucia, Laura se irrita, Laura quer saber, e o escravo conta que trazendo a carta do caçador, Marcos lha tomara, abrira e lera, e ao depois fechando-a lhe disse que a entregasse a sua senhora, e que a resposta, que ela desse lhe levasse naquele mesmo lugar onde ele, Marcos, o esperaria, e que se alguma coisa a tal respeito dissesse a sua senhora o mataria; e por esta razão ele dera a Marcos a carta, que Laura mandava ao caçador, a qual lida por ele, como a primeira, mandara o escravo levá-la ao seu destino.
Laura fez retirar o escravo, talvez para que o caso não soasse mais, pois ela desejava que ninguém dele soubesse. Por este lado estava satisfeita, pois sabia já o motivo da súbita aparição de Marcos tão intempestiva, e em uma hora tão importuna: mas o desconhecido?... Os tremores, que Marcos lhe causava?... Eis aqui um tormento de morte! Visto que ante nossos olhos compareceu a carta do caçador a Laura, justo é que a desta àquele igualmente venha à nossa revista: eis aqui o que Marcos leu: “Formoso Caçador, homem a quem amo, e a quem receio, mortal a quem adoro, e a quem temo! tu és para mim tão incompreensível, como as tuas palavras! O amor, que sinto por ti é para mim um enigma, como a tua carta! e com efeito eu te amo! T u és tão formoso, como as rosas do meu jardim, e és tão espinhoso para o meu coração, como elas são espinhosas! Eu te amo não é porque és formoso; mas eu te amo! Serás tu um demônio tentador, ou um anjo de salvação? Eu não sei o que tu és, mas sei que te amo. Eu tinha tantas coisas para dizer-te... mas tudo me esqueceu!... Que queres tu de mim? Eu quisera dar-te a minha vida, mas não o meu coração! Quisera dar-te toda a minha alma, mas não o meu amor! Amo-te, mas não quero amar-te! Quero que sejas meu, mas não meu só; quero que sejas meu, mas eu não quero ser tua! Eu queria declarar-me contigo, e não sei o que te quero dizer. T u não me podes entender, e nem eu explicar-me contigo! Enfim amo-te, como não se costuma amar; mas não é amor de amante, e todavia é amor! Queres uma entrevista? se julgas que eu possa voltar dela tão pura a teu respeito, tão pura como a ela for, eu ta concedo... Depois de anoitecer, debaixo da mangueira grande, no fundo do jardim. Adeus...” Alguns dos meus leitores mais sôfregos, tendo acabado a leitura desta carta, e comparando-a com a do
caçador, dirão meio agoniados: — O autor desta história estará se divertindo à nossa custa? Assim disse eu a quem me contou esta história, e ele me tornou muito sossegado: — Tenha paciência, e vá ouvindo. Assim, pois, digo eu aos meus leitores: — Tenham paciência e vão ouvindo. Também nos há de parecer muito bem escrita esta carta para aquela Laura, que disse a Florindo que má tinha sido a sua educação; mas devemos notar que esta rmulher, bastante viva, depois de casada com Augusto, / tinha-se dado à leitura de algumas perigosas novelas, e (estudava até os meios de mais se desembaraçar. No quinto dia, depois da célebre cena do jardim, recebeu Laura uma carta; a letra era de Marcos; ela estremece, abre, e lê tremendo o seguinte: “Forçado por minhas circunstâncias a abandonar para sempre o Rio de Janeiro, quero que a meu respeito fiqueis completamente tranqüila: esqueçamo-nos de tudo quanto entre nós houve; e este esquecimento seja um esquecimento eterno. Amanhã, pelas sete horas da tarde, devo embarcar-me no largo de Palácio, e no seguinte dia sairei para sempre desta terra. “Aproveito esta ocasião para ser justo antes de minha partida. A pessoa que no fundo do vosso jardim apareceu em vosso socorro, e a quem deveis a vida, era o vosso escravo João. Adeus, sede feliz. M arcos.” Laura respirou ao ler esta carta. Marcos prometeu ao seu vencedor quanto este quis por medo da morte; cumpriu quanto prometeu por medo da justiça. A carta porém de Marcos não era assaz suficiente para tranqüilizar Laura, era mister verificar-se quanto Marcos nela dizia. É verdade que os escravos de Laura haviam antes assegurado que um homem da cidade tinha ido ver a chácara de Marcos para comprá-la, o que em parte confirmava a carta do mesmo; porém isto era pouco,
queria-se uma prova evidente, isto é, exigia-se ver Marcos embarcar e deixar o porto. Laura não era uma dessas almas inocentes, que ignoram até onde chega o poder de um malvado, e Marcos que era um homem que não deixava impune uma afronta, era tão perigoso para Laura, que a sua presença deveria ser sempre temida. Se acreditarmos nas confissões feitas por um homem que foi preso na praia de Botafogo, veremos claramente as intenções de Marcos, e admiraremos o seu talento para uma vingança. Este homem, preso por ter dado uma facada por causa de jogo, foi conhecido na cadeia por alguns de seus antigos comparsas, convém saber, ladrões da célebre companhia de Marcos. Passando-se-lhe revista em tudo quanto trazia, achou-se-lhe uma carta que havia recebido na véspera de sua prisão, a qual fora no dia em que Marcos devia embarcar: esta carta dizia o seguinte: “Amigo, eu vou até Ilha Grande, pois no curto espaço que tenho não achei embarcação para um porto mais perto. Apenas ali chegue, voltarei no primeiro navio que para aqui voltar; e então uma boa fortuna nos espera. Alembra-te. — Marcos.” Ora, o sigilo das cartas não tem tão amplo círculo, que abranja nele os extensos braços da obesa Polícia; e essa velha matrona pouco escrupulosa em regredos, e curiosa importuna a ponto de indagar, e tudo querer saber, não é lá muito amiga das fórmulas polidas, nem de cerimônias sociais para com aqueles a quem toma debaixo de seu imediato cuidado. Este homem preso, perguntado e reperguntado, sob algumas promessas, confessou que Marcos, que adotara este suposto nome, se chamava Pedro, e que fora capitão de uma quadrilha de ladrões, de que ele fora um, como tenente; este Pedro conquanto já mais rico ainda não tinha perdido o caridoso amor de guardar aquilo, que seus donos guardavam íii
mal; que Pedro ameaçado por alguém, de quem jurara vingar-se, se esse alguém fosse vivente, ia deixar o Rio de Janeiro sem a menor demora; mas com firme propósito de voltar logo; e que então deveria estar oculto em sua casa, até ir arrecadar os bens de uma rica viúva, moradora na Copacabana, a cuja vida Pedro dizia ter incontestável direito, por causa de algumas razões de queixas, que contra ela tinha, de quando foi seu vizinho. A estas declarações seguiram-se outras que não dizem respeito à nossa história. A Polícia, que por seu gosto não teria hóspedes, mas que quando os tem não se incomoda com eles, resolveu que a morada, e comestíveis do suposto Marcos deveriam, dali em diante, correr por sua conta: Marcos, porém, de sua parte, como homem franco, e gastador, de mui boa vontade lhe dispensava o incômodo, agradecendo-o sem aceitar, não lhe pesando jamais pagar as casas em que vivesse, e comendo nelas à sua custa: parece isto um ponto de soberba, mas ele lá tinha com a Polícia razões de queixas, e tão positivas, que até lhe haviam feito mudar de nome! Os fatos, que temos enfiado até este momento, não nos deram lugar de falarmos mais em certo personagem, que em um dos capítulos desta história apareceu por um instante para representar um mui difícil papel, e desaparecer logo: é o fiel João! O silêncio que sobre ele guardado temos teria feito desconfiar a muita gente desconfiada que ele já não existisse; e estou que alguém haveria que por ele algum interesse tomasse. Ora, pois, João tornou a si do desmaio, que sofreu por causa da pancada que levou na cabeça, quando salvava seu senhor, como temos visto. Se ainda hoje João fosse vivo, agradeceria muito a quem por ele algum interesse tomasse.
Deixemos ainda Marcos por alguns instantes e vejamos o que se passa entre Laura e João depois da carta deste. — João, viste alguma coisa no jardim, no domingo à noite? — Vi o Sr. Marcos escondido debaixo de uma árvore, e eu estive vigiando a ele debaixo de outra árvore. — E ao depois? — Ele quis matar a minha senhora. — E depois? — Eu saí, briguei com ele, e eu pude mais do que ele... — E depois? João repetiu a Laura o quanto sabemos que aconteceu entre Marcos, e o seu vencedor. Depois Laura disse: — E tu por que vigiaste ao Sr. Marcos? desconfiavas dele alguma coisa? — Eu. .. — Fala. — Eu desconfiava, sim, senhora. — E por quê? — Porque o moço, que anda caçando. .. o moleque me disse que o Sr. Marcos tinha tomado as cartas dele, e tinha lido... e aquele homem tem cara de m au... — Está bom, João, eu te hei de agradecer. No dia em que Marcos dizia na carta ser o de seu embarque, Laura mandou o preto João para assegurarse disto. Sigamo-lo até o largo do Palácio dos vice-reis. João está no jneio do dito largo e dirige seus passos, em frente do Palácio, para alcançar o ponto em que a rua da Misericórdia ali desemboca. Pouco antes de chegar ao ponto, onde hoje se vêem os três arcos, que comunicam o Palácio ao que foi outrora convento dos frades do Carmo, hoje também Palácio, ouve-se uma grande gritaria. Muita gente corre para o mesmo lugar; João corre também; aí, um homem banhado no seu sangue acaba de expirar.
Leia gratuitamente O Filho do Pescador, de Antônio Gonçalves Teixeira e Sousa, romance brasileiro original de 1843 e marco fundador do romance no Brasil. Texto integral em domínio público preparado em HTML para leitura online no Literunico, com fonte UFSC/BLPL validada, capítulos completos, capa nova no padrão Literunico, busca, redes sociais e pesquisa por IA.
Ainda não há resenhas para esta obra. A primeira leitura comentada pode começar aqui.
Uma seleção criada para acompanhar a atmosfera, os personagens e os caminhos desta obra.
Escolha a arte, confira a disponibilidade e adicione o produto ao carrinho sem sair da experiência.
Adquira Relíquias da Obra e deixe sua marca registrada, criando valor ao item!
Capítulos disponíveis para continuar a leitura.
Nenhuma Relíquia desta obra foi adquirida ainda. Seja o primeiro a eternizar seu nome no acervo oficial!
Conhecer as 100 RelíquiasAinda não há resenhas para esta obra. A primeira leitura comentada pode começar aqui.
Nenhuma posse foi registrada publicamente para esta edição.
Durante a leitura, abra Menu para ajustar a experiência sem sair do capítulo. As preferências de aparência ficam salvas neste aparelho.
Recursos identificados como “em preparo” aparecem para antecipar a evolução do leitor, mas ainda não executam uma ação.
Posso mostrar leituras em destaque, clássicos e Relíquias disponíveis agora no Literúnico.
Escolha um caminho
Dúvidas desta página
As explicações do Aurélio são respostas cadastradas pelo Literúnico.