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O Filho do Pescador

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O Filho do Pescador

Capítulo 14 · O Filho do Pescador

Capítulo XIII — Um fantasma!

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CAPÍTULO XIII

UM FANTASM A!... Quando a segurança individual depende de um segredo, ela deve ser muito precária, quando alguém está igualmente de posse dele; e então essa segurança está à discrição do que compartilha esse segredo: é, pois, a morte do ente, que sabe da nossa vida quem nos assegura o bem-estar dela: mas quem sabe se a morte mesma será suficientemente capaz de guardar um importante segredo? “Oh! felizmente chegou! É ele, é o caçador que vem salvar sua amada das implacáveis mãos do terrível e furioso Marcos! É ele, é ele. .. felizmente chegou, e ainda a tempo. Graças a Deus! ele não será increpado de esquecido, nem se lhe lançará em rosto a feia culpa de motivador do assassinato intentado por Marcos contra Laura... ” “Mas será ele?” “E quem senão ele? oh! sem dúvida alguma, é e le .. .” “Mas se é ele, onde esteve até agora? porque tardou tanto?” “E quem, se não ele, podia vir a este lugar de entrevista?” “Mas que fará? Bater-se-á com Marcos? Oh, meu Deus, ele é tão lindo, é tão bom!... tão jovem, como baterse com um malvado, destemido, robusto, e que parece tão m au... Que fará ele?... ” Eis, pouco mais ou menos, as questões que sinto ferirem-me os ouvidos neste momento. Porém perguntovos agora eu: Ansiavas que o caçador viesse em socorro de sua bela? creio que sim: receavas pela sua vida, quan-

do a viste nas mãos de Marcos próxima a perder a vida? creio que sim: e por quê? simpatizastes vós com ela? creio que sim: e por quê? pois por uma criminosa? Oh! e vós tendes razão, e conquanto na simpatia nenhuma razão haja, com efeito a vossa simpatia é bem justificável! É tal a porção de bondade, que existe em nossa alma que nos leva, ainda a despeito nosso, a simpatizarmos com o fraco, seja quem for. Se víssemos Laura lutando com uma mulher de iguais forças, certo que não só não simpatizaríamos com ela, como até desejaríamos que sucumbisse; mas são dois criminosos: um forte e armado, e outro fraco e inerme! e, pois, é justa a vossa simpatia. Agora tenho que dizer-vos que o novo personagem, que em socorro vem de Laura, não é o caçador; embalde o temos chamado; embalde, porque não virá!... Sim, bem a meu «pesar devo dizer-vos que ele, ferido de um tiro, geme no leito de dores, na cidade, em casa do Dr. Sinval, seu padrinho, e pai adotivo! “Foi Marcos, foi Marcos o seu assassino...” / “Ah, malvado!... ” “Maldição... sobre ele!... ” “Ah! coitadinho! Tão moço, tão belo, tão cheio de bondade!... ” “Marcos, malvado Marcos, assim acabes, monstro, assim acabes!... ” Ainda me parece ouvir estas palavras de alguns de meus leitores. E que me importa que neste momento descarregueis toda a fúria do vosso ódio contra o perverso Marcos? Como ele é um malvado, lá se avenha. Quanto ao interesse, que tomais pelo belo caçador, posso assegurar-vos que é digno dele; e eu desde já vo-lo agradeço. Triste coisa é sem dúvida o escrever uma história, que, bem que ligada em todas as suas partes integrantes, é todavia cortada de muitos incidentes. A curiosidade ergue-se de todas as partes, querendo com boca de baleia,

tudo devorar de um só bocado! Ainda bem umas coisas não estão desenvolvidas, quer-se saber outras; a um só tempo se pede um nome, exige-se uma explicação, demandam-se certos pormenores; e a nossa pobre cabeça, martelada por tantas impertinências, perde-se nesse vasto oceano de interrogações! E, se ou vos disser que vos não posso dar o nome que me pedis, porque ainda o não sei? É o nome do desconhecido, que vem em socorro de Laura? Bem o dizia eu!... Voltemos, porém, sobre o jardim. — E u... troou a voz do desconhecido que ali acabou de aparecer. Marcos não foi senhor nem da mais leve ação; porque esse incógnito, ao tempo que proferiu o seu terrível — E u... — lançando-lhe mão da mão em que tinha a espada, não o deixou já ser senhor de si! Havia no jardim uma grande mangueira, cujo tronco era rodeado de alguns arbustos, que formavam uma pequena moita, porém espessa: era junto dela que Laura estava, quando foi agarrada por Marcos, e foi dessa moita que se ergueu o desconhecido: de modo que o aparecer, o proferir o — E u... e travar da mão de Marcos, foi um só tempo! foi o brilhar do lampejo, o troar do trovão, e o ferir do raio! Ao mesmo tempo que Marcos ouviu a voz do desconhecido, sentiu o peso enorme de uma pesada mão de ferro, que com força hercúlea lhe apertava a mão em que sustentava a facinorosa espada sobre o peito de Laura; e o incógnito, ao mesmo tempo que lhe apertava a destra, como em um estreito círculo de ferro, com uma espada, que brandia com a outra mão, lhe apresentava combate. Marcos estremeceu ao ouvir o tremendo — E u... — e afrouxando a mão que prendia a sua vítima, deixou escapar-se a tímida Laura, que medrosa se foi encerrar no fundo de sua alcova. Os dois ficaram a sós, e à discrição dos seus furores!

Peleja-se no fundo do jardim? sim, peleja-se e é peleja de morte! Pouco tempo depois da fugida de Laura ouvia-se, e via-se de longe o retinir das espadas, e o seu terrível faiscar! É no fundo do jardim de Laura que se peleja! Lá, dois homens se matam desapiedadamente, e nenhum vivo ousa se intrometer na briga! Diríeis que era uma dessas cenas de sangue da meiaidade, em que dois cavaleiros cheios de ciúme pleiteavam, ambos combatendo pela mesma dama, pelejando uma peleja de morte, até um deles arrancar com a ponta de sua espada, do fundo do coração de seu rival, um nome, uma imagem e um amor! Um nome só para suas trovas, e seus encômios; uma imagem só para o seu coração, e para os olhos de sua alma; um amor só para o seu ressentimento e seu ódio! Isto é, o nome, a imagem e o amor dessa dama, objetos gravados no coração desses dois rivais! Quebrou-se uma espada, o desarmado não se dá por vencido; e o armado, tão generoso como valente, larga a sua. Uma nova luta braço a braço então começa: são dois atletas, que amam ganhar bem cara uma coroa, ou vender por um preço enorme a vergonha do vencimento! Findo um quarto de hora, a contar do princípio do duelo, um homem coberto de pó, ferido, com os vestidos rasgados, de joelhos aos pés do outro, quase do mesmo modo, pede a vida por misericórdia!... este homem é o intolerável Marcos! Seu vencedor tomando a espada que largara, e tendo-a na destra, e um pequeno volume, que tirara da moita donde saíra, segura-o com a esquerda, e intima-lhe que o siga: Marcos obedece: eles caminham silenciosos; param em um certo lugar, e aí o vencedor fala: — Sabes que terra tens tu embaixo de teus pés? — Eu ignoro... — Antes finges ignorar.. .

— Ignoro inteiramente... — Marcos, eu sei bem o que tu tens feito. .. não sabes que terra tens tu embaixo de teus pés? pois eu te digo: tens a sepultura de um homem!... — Oh!... — Sim, a sepultura de um homem!... — A sepultura de um homem?! — De Florindo!... — Qual Florindo?! — Que tu assassinaste!... — Que eu assassinei?! — Na mata vizinha, no caminho, que leva à cidade. — Eu?! — E que ao depois apareceu encostado à janela do quarto de Laura. .. — Não há tal... — E que tu, e ela sepultastes neste lugar. — Não há tal, não há tal... — Se o tornas a dizer, mato-te.. . Eu não quero manchar-me no teu sangue, que a querê-lo já o tinha feito. Vê bem que estamos a sós; e loucura fora negar-me o que sei melhor do que tu... — E quem to disse? — A alma dos mortos! Oh! o mundo dos mortais não é tão independente do mundo invisível, que as almas do outro mundo não saibam dos crimes dos vivos, e os não possam revelar à terra! Em toda parte há olhos, e em toda parte ouvidos; e a terra dos vivos não é tão vasta que se percam em seu seio os vestígios do crime! Ah! malvados do mundo, pensais que os vossos dias serão sempre dias de uma amena primavera? Pensais que a sepultura é tão profunda, que guarde eternamente o funesto segredo de um horroroso crime! Ah! malvados da terra, a vossa vida é um milagre, e um milagre é sempre uma abstração da ordem natural... mas a natureza volta aos seus domínios, o milagre desaparece, e a vossa

vida esmagada debaixo do peso de vossos crimes, tomba no abismo dos flagelos, dos remorsos, da desesperação e da morte! Marco, tu estavas bem certo de que só tu, só tu, e a tua amada éreis os senhores deste fatal segredo? ... Tu, e ela o havíeis depositado nas mãos da morte; e a mesma morte, de quem contáveis um silêncio eterno, abrindo uma de suas urnas é quem vem revelá-lo ao mundo! Marcos, conheces-me? — Não. O desconhecido tira debaixo do seu capote uma lanterna furta-fogos, cuja luz fazendo repentinamente brilhar junto a seu rosto disse: — Olha. — Um fantasma! — Adivinhaste: é pois com um fantasma que lutaste, e um fantasma é quem te fala... Agora vê se sei ou não de todos os teus crimes?... — Mas... — Silêncio. Queres a vida? — Para me arrepender. — Tu não és suscetível desses sentimentos, mas não importa: a Deus pertence julgar-te. Todavia eu te dou a vida com três condições: queres? — Quero. — Muito pode o medo da morte numa alma fraca!... Pois bem: tu viverás com as condições seguintes: l.a que nada dirás a respeito desta aventura, mormente no Rio de Janeiro: aceitas? — Aceito. — 2.a Que dentro de oito dias deixarás esta cidade para a ela jamais voltares: aceitas? — Aceito. — S.a Que antes da tua partida escreverás a Laura uma carta, cujo conteúdo eu ditarei: aceitas? — Aceito.

— Olha que te enganas, se presumes enganar-me... Se dentro de oito dias não cumpres o que prometes, irei delatar teus crimes aos tribunais competentes, e então. .. Marcos... o cadafalso, e a morte!

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Sinopse

Leia gratuitamente O Filho do Pescador, de Antônio Gonçalves Teixeira e Sousa, romance brasileiro original de 1843 e marco fundador do romance no Brasil. Texto integral em domínio público preparado em HTML para leitura online no Literunico, com fonte UFSC/BLPL validada, capítulos completos, capa nova no padrão Literunico, busca, redes sociais e pesquisa por IA.

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