Universo da obra
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TALVEZ QUE ELE TIVESSE TANTO QUE FAZER AINDA SOBRE A TERRA. .. A derradeira desordem de uma vida é, em algumas ocasiões, a desordem de outras. É algumas vezes no reino da morte, e na profundidade do sepulcro, que vai assentar suas bases a felicidade de uma ou de mais vidas... Mas quem sabe se tão profundo é o sepulcro, que por longo tempo possa sustentar essa base... O sino do convento de S.t0 Antônio voltejando sobre si próprio, parecia dizer aos fiéis em lúgubres e lamentáveis sons: — Orai... orai... orai... orai... A areia equivalente à vida de um mortal, colocada na parte superior da ampulheta dos destinos, tinha aca-
bado de escoar-se, e o anjo da morte havia presidido atento ao deslizar extremo do final bago, cuja terrível conseqüência importava o último esvaecer do hálito vital do derradeiro luzir da centelha da vida de um mortal! Um tempo foi essa desastrosa queda, e a trêmula mão do anjo da vida abfir o vasto livro da natureza, e passar sobre um nome, ali inscrito, um traço que simbolizava a eternidade!... \ O anjo da morte havia gravado com seu férreo e inexorável estilo o nome de mais um mortal sobre uma sttegra página do tremendo livro do pecado!... Há pouco existia um mancebo que se julgava feliz, que era rico, forte, robusto e que vivia no centro do prazer! Pouco depois um moribundo, e agora um corpo sem vida! Oh! uma morte súbita! Como é doloroso! Que resta? Um corpo sem vida e uma família desolada! Em pouco mais de um ano, quantos acontecimentos! Umas núpcias, o natalício de um marido, o natalício de uma mulher, um incêndio e uma morte! E, pois... não são cinco festins? Certo são cinco banquetes: três dados por um amigo a seus amigos; um dado por uma desconhecida mão às chamas, e o último enfim dado pela morte aos vermes do sepulcro! E, pois... são cinco festins, cujo principal personagem aí tendes no seu ataúde! Cinco banquetes... e assaz de iguarias! . .. E o que resta? Uma família desolada, uma viúva em luto, a dor dos parentes e a saudade dos amigos! Oh! tudo passará, como o respirar saudoso de fugitiva brisa ao través dos ramos da floresta! Tudo passará, como o rápido lampejar do raio! Tudo passará como o primeiro sorrir de uma virgem, que pudibunda foge ao gentil mancebo por quem seu coração já sofre um amiudado latejar de amor!
Oh! tudo... e tudo passará! só a lousa do sepulcro é eterna! Só o dormir de morte não passa! O ferrenho esquecimento alargará daqui a pouco o vasto círculo de sua imensa órbita, e esse cadáver e esse túmulo entrarão também por seu turno em seu duro e sempiterno dom ínio... Oh! tudo passará! Um fúnebre préstito, tendo galgado a ladeira de S.to Antônio, acabava de entrar na capela dos terceiros da penitência; o negro altar dos defuntos recebeu um féretro, funéreo invólucro dos restos mortais de um mancebo. As abóbadas do templo retumbaram ao som triste dos melancólicos salmos dos mortos, entoados pelos sacerdotes do Senhor. O incenso dos finados volveu em torno da arca funeral; ouviu-se o tremendo — Dies iree * — e finalmente pôs termo à dolorosa cerimônia do enterramento o amargurado — Requiescat in pace #*. É noite. O templo está deserto e os altares em trevas; apenas solitária lâmpada lançava de amortecida luz um pálido clarão, como o da única chama da luz da agonia: era essa lâmpada a que só ardia contra o altarmór, em frente do sacrossanto sacrário. Que solidão! As portas da igreja estavam fechadas; ermo todo o espaço do templo... Silêncio, tudo era silêncio... Nenhum vivo perturbava a tranqüilidade dos túmulos, nenhum interrompia o misterioso divagar das sombras . . nenhum... oh, não... não; que a despeito do horror que no alto da noite inspiram os lugares sagrados, todavia um vulto embrulhado em seu capote permanecia silencioso e pensativamente recostado sobre um altar.
Quem será ele? Algum ladrão porventura, que apadrinhado pelas sombras da noite, se deixou ficar na igreja, para mais tarde despojá-la de suas mais preciosas alfaias? Mas o sacristão o viu e com ele praticou; sua prática foi familiar... quem será ele? Oh! encaminhase para as catacumbas!... Ali não há riquezas; apenas o desengano das grandezas do mundo? Ah! é talvez algum amigo do morto, que na solidão do templo, no silêncio da noite, vem contemplar pela derradeira vez a sua face pálida, e derramar sobre ela os enternecidos suspiros de sua intensa dor, molhados pelas dolorosas lágrimas da saudade! Ah! tu vens chorar! entra, pois. Como é louvável esse teu sentimento! Chora, sim, chora... feliz quem pode fazê-lo! feliz quem tem um coração terno, um coração compadecido, um coração que j tem lágrimas para as mandar aos olhos: O pranto algumas vezes é tão terno!... tão doce! e sempre um alívio tão suave para nossa alma!... Ah! feliz, feliz quem chora! Vem, entra o arraial dos mortos; passeia por estas solitárias ruas, presididas pelo silêncio dos. defuntos; olha para esses acanhados gabinetes, onde por seu turno habita, por espaço de um ano pouco mais ou menos, uma porção de carne corrompida e a ossada de um humano! Lê essas inscrições, que te revelam no seu triste — Aqui jaz — a grande idéia da Eternidade e a pequenez da vida; entra depois em ti próprio, e contempla quantas gerações aqui se sucederam, e repousaram em sono eterno sobre colchões de pedra, cobertas com a cal da sepultura! Oh! certo não pode haver lugar mais próprio para a meditação, do que o asilo da morte, o extremo abrigo da humanidade! mas tu não vens filosofar aqui, vens chorar. Pois bem debalde será teu pranto; debalde, que ele não poderá amolgar a pedra do sepulcro! Tuas lágrimas cairão inutilmente sobre
ela, e deslizadas dali, irão secar-se confundidas no pó dos mortos, que foi noutro tempo seres humanos! Teus ais se perderão baldados nos fúnebres ares das silenciosas ruas da morte! Pranteia embora, suspira... pranteia pranto de sangue, suspira suspiros de fogo, nada poderá remir a infausta vítima da morte, guardada in eternum * em seus medonhos e inexpugnáveis domínios! Primeiro teu pranto de sangue poderá assoberbar as nuvens; primeiro teus suspiros de fogo poderão escalar os céus, do que a Morte entre contigo na mais composição a respeito de sua presa! Poderás tu ressuscitá-la? Poderás com teu pranto de amigo?.. . Feliz se o fizeres, entra. Ele não estava aborrecido de viver e amará a sua ressurreição! Quem sabe? talvez que tivesse tanto que fazer ainda sobre a terra... De feito, o homem do capote dirigiu seus passos para as catacumbas e entre elas buscou a que acabava de ser hospedada por um novo morador do país dos finados. O sacristão da igreja procurou o nosso desconhecido, e pouco tempo depois eles já não se achavam nas catacumbas. Nada podemos saber do que fizeram nesta região fúnebre; nem ainda a que foi ao templo o vulto do capote. Nós o seguimos até à sepultura do recente finado, e até aí acompanhamos o sacristão da igreja. Uma série de notáveis acontecimentos os arrancou a nossas vistas. Era meia-noite: a tais desoras trêvultos se escoavam pela ladeira do convento de S.t0 Antôniõ; vejamos se os conhecemos: mas como? eles parecem pôr peito a que ninguém os conheça; embora: e que temos nós com eles?. .. mas sigamo-los. Entram em uma casa.. . sua porta fechou-se sobre nossas vistas.
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