Leia agora
O Filho do Pescador

Universo da obra

O Filho do Pescador

Capítulo 9 · O Filho do Pescador

Capítulo VIII — E tu me argúis?... Tu!

9 de 21 ≈ 9 min de leitura

CAPÍTULO VIII

E TU ME ARGÜIS?... TU!... O criminoso pode esconder seus crimes aos olhos de todo o mundo; nunca, porém, aos olhos de Deus, nem aos seus próprios: estes serão um dia a mais encarniçada parte contra ele, e aquele um juiz que infalivelmente o julgará! Uma hora de meditação para o criminoso, é um século de infernal suplício para sua alma; mas há criminosQ£_±ãQ_felizes que muito custam a ter essa hora de reflexão! todavia, ela virá. Desde que comecei esta história até este ponto, não curei de mover pró ou contra algum dos meus personagens, ou antes personagens dela, a amizade ou o ódio. Todavia, se alguma alma nimiamente compadecida se tem interessado por algum dos personagens da minha história, desde já lhe agradeço; mas sempre lhe peço !j que se não engane. Quanto ao ódio, contra ninguém i j desejo movê-lo em- pessoa alguma, pois é paixão que sempre incomoda a quem a sente. Além disto, supondo que não havendo motivos para ele, podemos bem tranqüilizar-nos; mas desde já peço vênia para dizer-vos que aqueles braços que há poucos receberam, e com tão amorosa ternura um amante noturno, eram os de uma r~viúva... — Que (me dizeis vós)! Laura!... Eu vo-lo não tinha dito; mas como vos antecipastes, não vos poI derei negar... e, pois, é Laura. Bem sei que achareis horrível o ouvir que uma mulher, há pouco tempo viúva, receba as visitas de um amante; também eu não acho isso muito bonito: mas como negar-vo-lo? Sabeis vós a terrível tarefa de um historiador? sabeis: então tende paciência em ouvir-me, que também a tenho em narrar-vos. Portanto vamos adiante.

Em face de tudo quanto até aqui se tem dito, e do que (segundo creio) não estais esquecidos, seria não só inútil, mas até impertinente qualquer reflexão que a respeito deste sucesso se quiséssemos fazer. Estas entrevistas eram repetidas quase sempre, com a pequena interrupção de dois ou três dias, quando muito; e acontecia não poucas vezes que o desconhecido dos amores secretos ficava encerrado um ou mais dias no quarto de Laura, e deste modo oculto aos olhos da família. Já dois meses se haviam passado sobre a viuvez de Laura; ela e seu amante viam-se tantas, quantas vezes queriam, sem emprego do menor artifício, e sem o mais leve receio. O entusiasmo primitivo deste criminoso amor havia minorado seu tanto, ou ao menos a libidinosa chama, que abrasava estes dois corações tão impuros, tinha abaixado muito de sua intensidade original, conseqüência quase sempre infalível de um amor criminoso, de um comércio ilícito, que de clandestino e medroso que antes fora, passara a ser isento de receios e, portanto, livre. Em uma noite dessas entrevistas o amante, como para distrair-se à custa de sua bela, pediu-lhe a narrativa da sua história. — Ora, é tão simples.. . — Embora; conta-na. — Não há nela algum acontecimento, que mereça atenção... — É o mesmo; sempre terá alguma coisa de notável. Ora anda... não vês que eu te peço?... — Pois bem. Escuta. Nasci numa pequena vila pouco distante do Rio de Janeiro; meus pais tinham com que passar sofrivelmente a vida, mas não cuidaram de minha educação; apenas mandaram-me ensinar a ler, e isto bem mal. Meu pai morreu quando eu contava doze anos e meio de minha idade, e eu fiquei em com-

panhia de minha mãe. Pouco tempo depois, um lindo moço, meu patrício, enamorado de mim, pediu-me à minha mãe em casamento, e acontecendo dela opor-se ao que era da nossa vontade, eu saí com meu amante da casa de minha mãe, para casar-me com o meu amado. Em casa dele vivi algum tempo oculta, porém contente; mas não sei porque mau fado minha mãe soube do lugar em que eu me achava, e talvez por conselho de outros me quis perseguir ou antes a nós ambos; mas o meu amante (que neste tempo estava para casar-se comigo) sabendo disto embarcou-se para o Rio de Janeiro, trazendo-me consigo. Já muito perto da barra desta cidade uma grande tormenta nos fez naufragar nesta praia. Não sei se morreram todos os que vinham na embarcação ou se escaparam alguns; só sei que o meu futuro marido morreu, porque eu mesma o vi quando uma grande vaga de mar o levou de cima do convés, e o sumiu para sempre no meio dos mares. Eu fui salva, e pouco depois me casei com Augusto. — Mas Augusto dizia que eras viúva!... — É verdade; eu assim lho havia dito. E de que modo foste salva, minha Laura? — A tormenta tinha principiado à boca da noite, e era uma hora quando o navio bateu na praia. O mar já tinha levado a lancha de cima do convés, e os marinheiros botando-se ao mar procuraram salvar-se a nado. O meu homem estava junto de mim, e na ocasião em que ia buscar um cabo para com ele amarrar-me a um mastro, para que o mar não me levasse, escorregou no convés e caiu; ao mesmo tempo o mar que entrava na embarcação o carregou! Eu fiquei só, abraçada com um mastro, até quase de manhã, e gritando sempre por alguém que me acudisse. Sobre a madrugada então vi chegar à embarcação uma canoa com dois vultos; um subiu, pegou em mim, que tremia quase morta de frio, e pôs-me na canoa... — E quem eram esses dois vultos?

— Era Augusto e um seu escravo... O amante ao ouvir estas palavras, fez em seu rosto uma contorção de espanto e precipitadamente disse: — Acaba, Laura, acaba. — Já perto da praia a canoa virou-se; o preto esteve quase morto, embaraçado numa corda da canoa, e nem podia valer-me, nem a seu senhor; mas este agarrando em mim, nadou comigo para a praia, onde cheguei salva... Pouco tempo ao depois casei-me com Augusto, como tu bem sabes... — Que horror!... exclamou o amante. E em verdade o sangue-frio com que esta mulher terrível acabava de proferir a última parte de seu discurso, era para horrorizar a quem estivesse senhor dos segredos de sua alma, uma vez que não fosse cúmplice de seu crime; mas seu próprio amante tão criminoso como ela, também se mostrou possuído de horror, se bem que o não creio muito. — Laura... que temos nós feito! acrescentou o amante com doloroso acento. Laura, tu acabaste com a vida do homem, que se arriscou à morte para salvar tua vida em um naufrágio!... Tu acabaste com o teu benfeitor, com aquele que te arrancou das garras das ruínas e da miséria, para elevar-te ao grau de sua esposa!... Que horror!... Laura, Laura... que temos nós feito!... — Continua, eu te escuto e te escuto tranqüila; fala, fala mais. — Que negro, que horrendo crime!... — Fala mais, eu quero ainda ouvir-te... — Ah! deixa-me. — Mais nada? Sim, tu tens razão: eu sou um monstro de crimes, e o maior de todos é o te haver amado! Eu conspirei contra a vida de meu marido e benfeitor: e tu? tu não conspiraste contra a vida de teu amigo? — Oh! cala-te... cala-te... — Impostor. Quem é que me desencaminhou com

um amor criminoso e louco, não foste tu? Quem me aconselhou para largar fogo à minha casa e fechar antes a porta do quarto em que dormia meu marido, fiado em que ele não se acordaria por causa de seu sono duro, e assim vê-lo morrer queimado: não foste tu? Quando o preto João salvou Augusto das chamas, quem foi que do telhado atirou-lhe um pedaço de caibro para o matar, e que errando feriu o preto, não foste tu? Depois que te escapaste de Augusto, fugindo pelo muro de minha casa da cidade, e que eu te disse que meu marido não tinha acreditado na declaração da preta, e que desconfiava de mim: quem foi que me resolveu a envenená-lo, não foste tu? Quem me deu o veneno, com que dei fim à vida de Augusto, não foste tu? Laura, muito sufocada em cólera, suspendeu aqui o seu horroroso discurso, ou antes medonho apontuado de nefandos crimes seus e de seu amante. Este ainda lhe disse: — Oh! tudo isso é verdade, verdade horrível! Mas quando convim contigo nesses crimes, eu supunha que tu conspiravas somente contra um marido a quem não amavas; mas não contra o homem a quem devias a vida, contra um benfeitor, contra um... — Um amigo teu, não é assim? Eu conspirei contra o homem a quem devo a vida, contra o meu benfeitor, e por teus conselhos; mas conspirei contra um marido a quem não amava; e tu dirigiste os meus passos contra aquele homem a quem devias dinheiro, amizade e proteção; contra aquele em cuja casa tu tinhas tanta liberdade, como na tua mesma casa! Eu assassinei a meu marido, e tu ao teu melhor amigo!... — E ambos nós não somos mais do que dois criminosos, e bem perversos! Nós nos devemos detestar com um ódio do inferno, e aborrecer um ao outro!... Laura, se já não é tempo de remediar nossos crimes, seja ao menos tempo de lastimar-nos. Separemo-nos, pois, e seja a nossa separação uma separação de morte!...

— Tu zombas de mim? — Não, Laura. Vai encerrar-te no fundo de um .convento, e ali ante os altares, chora de contínuo os teus horrendos crimes. .. Ao menos... — Bem; irei ser freira. E tu vais ser frade, não é assim? — Irei... irei... não sei para onde... Laura, adeus, e adeus para sempre. E sem mais nada escutar, avança para a janela, abre-a com estrondo, e saltando para fora encaminha-se para a cidade. CjEstas criminosas declarações vos revelam todo o sentimento da epígrafe do capítulo IV. Tornai a lê-la.

O Filho do Pescador

Sinopse

Leia gratuitamente O Filho do Pescador, de Antônio Gonçalves Teixeira e Sousa, romance brasileiro original de 1843 e marco fundador do romance no Brasil. Texto integral em domínio público preparado em HTML para leitura online no Literunico, com fonte UFSC/BLPL validada, capítulos completos, capa nova no padrão Literunico, busca, redes sociais e pesquisa por IA.

O Filho do Pescador

Resenhas do livro

0 publicadas

Ainda não há resenhas para esta obra. A primeira leitura comentada pode começar aqui.

O Filho do Pescador

Trilha sonora oficial

Uma seleção criada para acompanhar a atmosfera, os personagens e os caminhos desta obra.

Abrir no Spotify
Ir para o carrinho
Mercado de O Filho do Pescador

Leve um fragmento deste universo

Escolha a arte, confira a disponibilidade e adicione o produto ao carrinho sem sair da experiência.

Nenhum livro físico está disponível neste universo.
Relíquias da Obra

Adquira Relíquias da Obra e deixe sua marca registrada, criando valor ao item!

Aguardando Aprovação do Autor
Aguardando grupo autoral O Filho do Pescador Escolha uma Relíquia e envie uma proposta de aquisição, mesmo antes da ativação.
100Relíquias
0Titulares
0 Passagens
Central de RelíquiasDescubra coleções de outros universos e obras.
ver todas
Capítulo 9 carregado no app · 1 livro conectado 1/1
Abrir leitor completo

Capítulos disponíveis para continuar a leitura.

Capítulos de O Filho do Pescador

Capa de O Filho do Pescador
Continue a leitura Capítulo VIII — E tu me argúis?... Tu! Capítulo 9 · 9 de 21 · ≈ 9 min
Todos os capítulos 21 disponíveis

Donos de Relíquias

0 titulares

Nenhuma Relíquia desta obra foi adquirida ainda. Seja o primeiro a eternizar seu nome no acervo oficial!

Conhecer as 100 Relíquias

Resenhas do livro

0 publicadas

Ainda não há resenhas para esta obra. A primeira leitura comentada pode começar aqui.

Entrar para resenhar

Posses do livro

0 Leitores com posse
0 Unidades registradas

Nenhuma posse foi registrada publicamente para esta edição.

Adicionais do Universo

Visual ClássicoAbra a leitura editorial, no estilo de uma página de livro
ler
Visual AuroraApresentação imersiva do universo da obra
abrir