Universo da obra
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MAS MEU PAI, EU AMO! Quando amamos, nada é tão mortificante para nossa alma do que ouvir raciocínios contra o nosso amor. Nesse delírio, 'as mais absurdas mentiras, que lisonjeiem a nossa paixão, têm em nossa inteligência o critério da verdade. Então sonhamos acordados com a suprema felicidade, cuja existência é só em nossa escaldada imaginação; mas o letargo de amor é tão doce, que quando nos dizem que despertar dele seria um benefício para nossa alma, temos por venenoso um tal benefício, e pedimos aos nossos amigos que não anulem o nosso amoroso dormir. Entre os poucos moradores da Copacabana, naquela época, havia um velho pescador, mais célebre pela sua vida honrada, e ainda por alguma tal e qual instrução, em harmonia com as escassas luzes da mísera colônia, do que pelas suas riquezas, que poucas não eram. Viúvo de uma mulher, a quem havia ternamente amado, desvelou-se sempre na educação de um único filho a quem estremecidamente amava; e ele era digno de tão grande amor! Pouco nos devemos importar com o nome desse bom velho, porque além de nos não ser mister, ele era co-
nhecido por todos pelo — Pescador da Copacabana; — seu filho era geralmente o — Filho do Pescador — chamado por todos. Uma mulher escapada a um naufrágio era hóspede desta boa família. Há pouco vós vistes um mancebo aos pés de uma linda dama declarando-lhe um terno amor. Vós adivinhareis que o mancebo é o Filho do Pescador, assim como sabeis que a bela senhora é ’a náufraga. Poucos minutos depois dessa cena, um diálogo era energicamente sustentado entre um mancebo e um venerando ancião; este dizia: — E pensaste bem, meu filho, no que queres fazer? — Sim, meu pai. — E conheces tu essa mulher a quem te queres ligar e ligar para sempre? Sabes qual seja a spa pátria, seu estado e enfim seus costumes? — E o que há de comum entre essas coisas e o nosso amor? — Todavia, eu se me quisesse casar levaria tudo isso muito em conta. — Vós vistes que, salva do naufrágio, chorava a morte de seu marido morto no mesmo... — E quem te pode afiançar que fosse seu marido? podia ser seu am ante... — Ah! meu pai, não façais tal injúria a tanta beleza? — Por isso mesmo: as belezas estão mais sujeitas aos caprichos do mundo. Supondo, porém, que seja ela uma viúva; qual é a felicidade que julgas encontrar desposando-a tu?. .. — A de restaurar o meu sossego perdido por sua causa, e a de viver sempre e para sempre com a eleita do meu coração, para glória do meu am or... — E o que é amor? Ah meu filho! eu já fui moço
como tu és; também já por mim passou esse delicioso tempo em que indômita a insólita liberdade, toda ufana de si, gosta de brincar com ferros, achando não sei que de belo em ouvir os seus pavorosos estrondos! Também já cursei aulas como tu, e os estudos adquiridos durante a minha mocidade me não serviram para regular a vida. T a rd e ... foi bem ta rd e ... foi ao depois que em mim se arrefeceram as intensas chamas do fogo da mocidade, que eu pude conhecer todas essas ilusões que tanto embelezam a vida adolescente! Murcharam-se as flores da minha primavera, corromperam-se os frutos do meu outono e seguiu-se-me o inverno dos anos. Foi nessa estação da idade que eu, frio e calmo, cheguei a conhecer os desvarios dos meus primeiros anos! E aquele que entre os filhos das ciências podia talvez ter um nome, em conseqüência de suas extravagâncias se viu reduzido a um simples pescador! Neste lugar duas lágrimas geladas, forçando os olhos do velho, vagarosamente se escoaram ao longo de suas faces! Ele arrancou um suspiro de dor e continuou: O que é amor? um afeto que principia por um prazer dos olhos, uma dor do coração e uma aflição de alma! Um momento de entusiasmo produz tudo isto, e um momento de calma destrói! Nesses instantes de delírio, que chamamos amor, não há considerações, não há respeitos; aniquila-se o passado, pulveriza-se o futuro: o vício é nada, a virtude ilusão, e um único pensamento constitui o universo do amor — Quero! Deveres e direitos do homem, as leis divinas, a pátria, os mais sólidos princípios de eterna justiça, os foros da razão, as mais santas e antigas afeições, tudo se sacrifica ao amor, tudo cai destruído, e sobre suas ruínas, que formam um detestando sólio, é colocado este imperioso — Quero!
Pois bem, goza-se o objeto amado, o tempo foge e o ruim fado, ou a inexorável morte, nos priva dele: agora deixa que corram sobre esta tão sensível perda quatro, ou cinco, ou seis anos, um espontâneo esquecimento ou novos prazeres da vida, ou um novo objeto vem fazer-nos esquecer os nossos primeiros amores! E agora? Onde, pois, estão os delírios desse primeiro momento de um louco amor ou dessa paixão invencível? Tudo desapareceu! Por outra, gozamos o objeto dos cultos do nosso coração; ao cabo de poucos anos passamos uma revista em nossa alma, procuramos nela esse antigo amor que tanto produziu de prodígios; o que achamos? apenas uma estima... derradeiro milagre de uma prodigiosa constância! Demais, serás tu sempre senhor absoluto das tuas afeições? Tens em tuas mãos, sujeitos sempre em tudo e por tudo, os afetos de tua alma? Estás tu seguro que esse objeto, ídolo hoje do teu coração, nunca incorrerá no teu desagrado? Tens certo amá-lo, amá-lo sempre? Quem to assegura? Supõe agora que vives no meio da pobreza: qual consolação acharás, qual distração nos teus enojos e agonias? Mancebo, julgas que seja sempre imutável o teu ânimo? Acredita-me que não! A mudança é o primeiro e principal timbre da humanidade: hoje tu não és o homem de homem: cada uma hora que o tempo escoa é para o homem uma mudança, que se faz sentir no fim de mais tempo. Não para muito tarde vêm todos os fastios de que é suscetível uma vida monótona; o coração arfa ambicionando uma desordem, cuja conseqüência seja uma nova vida por uma nova ordem de acontecimentos, para pasto do coração. Os laços, então já formados e indissolúveis, tornam-se de um peso insuportável: sofrê-los, é fastio; desatá-los, é desonra!
As distrações, esse mágico instrumento, de onde o coração ama tirar continuamente agradáveis e variados sons, parece agora que afinadas todas as suas cordas pela liberdade ansiosa, se oferecem ao coração, para que sejam por ele tocadas. .. resistir-lhes é impossível; não resistir-lhes, importa o ser um não bom marido! Vós outros mancebos, entusiastas de amor, que mal conheceis a vida; vós blasonais de amor e de um amor virtuoso... que quimera! E isso existe? Acredita-me, meu filho, esse amor muito raro pode existir. Amor é uma fera faminta de gozos que se não tranqüiliza a respeito do seu objeto, sem que o tenha completamente devorado! Se a virtude do amor está em sacrificar-se tudo ao bem que se ama, deve seguir-se, que para sermos virtuosos amantes, é mister calcarmos tudo quanto se opõe à posse desse bem que cobiçamos, embora nesse tudo entrem as mais sagradas leis. .. obedecer-lhes sem combatê-las, importa sermos fracos e indignos amantes. Agora dize-me tu que amas uma mulher, porque é bela e só porque é bela; quando o tempo arrebatar consigo esses fugitivos encantos, o que amarás? Julgas que uma mulher linda seja uma estátua, sobre cujos traços se vão deslizando pouco a pouco desapercebidos séculos?... — Mas, senhor. .. — Ouve-me ainda, tem paciência; eu te ouvirei por meu turno. Essa mulher a quem hoje amas, moça como a aurora, linda como a primavera, será, como todas as outras, vítima dos estragos do tempo e dos desgostos, pois para não senti-los fora mister não viver! As lidas da consorte, os incômodos da família, os trabalhos que dão os filhos, etc., dando mais vigor à força da idade, apagarão bem depressa os seus sedutores encantos... E que mudança! Oh! tu acharás um maço de derrotados e brancos cabelos, onde flutuavam os longos cachos
de dourados e graciosos fios! Uma face rugosa e pálida em lugar do maravilhoso composto de cândidos jasmins e de pudicas rosas! Duas escalavradas gengivas, que outrora sustinham duas ordens belas de alvos e bem ordenados dentes! Dois olhos encovados e amortecidos, onde brilhavam dois lindos pedaços de um sereno céu! E finalmente as ruínas, os despojos do tempo amontoados sobre carunchosas e desusadas aras de amor, no que outrora fora santuário da beleza! A alguns destes sofismas que de envolta com sólidos argumentos iam, o hábil velho pescador juntou mais alguns outros; e tendo acabado, seu filho lhe disse: — E se ela fosse rica, meu pai? — Nem assim te aconselhava que casasses, ainda que fosses muito pobre; porque cá para mim julgo que o casamento em nenhum caso é felicidade. — Então, meu pai, grassando a vossa doutrina ninguém se casará... — E que tenho eu que os outros se casem ou não? eu só aconselho meu filho; a natureza deu-me este direito. Eu te asseguro que nunca me ouvirão dizer a pessoa alguma que o faça ou não. — Então, visto as vossas considerações que devemos fazer? — Não casar. Meu filho, nas mesmas delícias do consórcio há dolorosos pesares! A primeira delícia dos casados é os filhos... mas as dores maternais, os sustos, os trabalhos da educação dos filhos, seu estado, seu futuro... e custa tanto a ser-se um pai feliz... — Mas, meu pai, eu am o... — Em verdade esse é o argumento o mais enérgico e o mais eloqüente de um moço amante. E se eu não levar a bem um tal casamento? — Meu pai... disse o mancebo, beijando ardentemente a mão do velho.
— Oh! nada de violências; faz o que quiseres e Deus abençoe os teus destinos. Peço-te, porém, uma coisa, e é que, se algum dia a experiência justificar-me, exclames no meio do teu arrependimento: Oh! meu pai!...
Leia gratuitamente O Filho do Pescador, de Antônio Gonçalves Teixeira e Sousa, romance brasileiro original de 1843 e marco fundador do romance no Brasil. Texto integral em domínio público preparado em HTML para leitura online no Literunico, com fonte UFSC/BLPL validada, capítulos completos, capa nova no padrão Literunico, busca, redes sociais e pesquisa por IA.
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