Universo da obra
Universo da obra
DEUS É GRANDE! O decurso de alguns anos não é a melhor prova de amizade, e nem tampouco uma liberdade familiar; isto pode todavia provar uma tal, ou qual confiança, mas não uma dedicação augusta, capaz dessas extremas virtudes, que tanto embelezam a amizade e enobrecem seus fins; capaz desses sublimes sacrifícios, que elevam o coração humano até a bem-aventurada órbita da suprema ventura de uma santa amizade! Uma experiência a tempo é talvez o melhor toque para esse ouro tantas vezes falsificado. Uma amizade que não tem em seu favor senão o tempo, será um afeto, mas tão-somente em potência (permiti-me a expressão), uma amizade que tem em seu favor a experiência é um afeto em ação! Às vezes um ente bem desprezível, pelo seu estado, nos é mais favorável que um, a quem chamamos amigo, e a quem respeitamos! — Fogo. .. fogo... fogo... — Era este o grito que partia de todas as bocas dos vizinhos de Augusto! O sino da igreja de N. S. de Copacabana parecia estalar-se ao som de repetidas picadas. A gente corria, como louca, e como sem destino: — Onde é o fogo? — Era esta a geral pergunta, que mutuamente se faziam. A princípio: — Não sabemos — era a resposta, e pouco ao depois: — Em casa de Augusto. — Todos começaram de afluir para aquele ponto. Em meados de um quarto de hora já ninguém ignorava aonde era o incêndio, e passados mais alguns minutos a casa de Augusto estava rodeada quase por todos os lados de pessoas e de chamas! Era horrível de ver! Lastimoso, e terrível espetáculo! Diríeis que as chamas tinham sido lançadas de pro-
pósito, pois que principiando quase a um tempo pelos ângulos do edifício, e lavrando por todas as faces dele, já se desesperava de o salvar: tão adiantadas estavam por toda parte! As chamas tinham já envolvido toda a casa; a viração do este soprava um tanto rija, circunstância que muito favorecia ao fogo, que já com impetuosa veemência rompia pelo telhado em azuladas labaredas, que em grossos turbilhões enroladas em rolos de fumo negro lambiam os ares quase chamuscando as nuvens! Ouvia-se o retinir da ardente caliça, que despedaçada estivava a terra com fumegantes estilhaços! Uma grossa trave, cujo centro era consumido pelas chamas, acabava de arrebentar-se com horríssono fracasso; e ao mesmo tempo que ela se dividia em duas, e as pontas queimadas vinham topar em terra, a crepitante labareda também se repartia em duas, correndo cada uma para os extremos superiores dos dois pedaços da rota viga, que acabava há pouco de ser uma única. E, a esta horrível laceração, uma grossa parede, que acabava de desabar-se, unia o pavoroso retroar de seu ruinoso tombo, cobrindo o chão de calhaus, de despedaçadas telhas, e de destroçado madeiramento! A noite ia adiantada, era medonha, e ameaçava próxima borrasca! Ajuntai a este quadro de desolações, e de horrores o importuno clarão das chamas, o verdepálido do mato, que simulava descorar medroso diante de tanto estrago, os confusos gritos dos circunstantes; e vós tereis uma verdadeira imagem do inferno! — Onde está Augusto? onde está Augusto? — esta pergunta estrondava por toda parte: e de fato Augusto não aparecia! No meio de sua família, uma mulher se havia escapado as chamas: ela se achava no mais completo desalinho; seus cabelos em desordem, seu rosto pálido, seus olhos espantados; tudo nela era confusão! Diríeis que
ali estava uma vítima de um doloroso remorso, ou de uma desesperada dor! Era Laura!... Algumas pessoas se dirigiam a ela, e lhe perguntavam por seu marido. Laura, como em um delírio, dizia tremendo, e cheia de uma horrível agitação: — Meu marido!... E depois de um silêncio inqualificável soltava, como em loucura, um grito desconcertado, exclamando — Meu marido!... Augusto não tinha saído de casa nem antes, nem durante o incêndio; e ele não aparecia, e ninguém dava notícia dele!... No meio desta confusão, viu-se um escravo preto correndo sobre uma parte do edifício, que o fogo havia até então respeitado; ele pára diante de uma janela, ergue um machado que trazia, descarrega-o sobre ela, e ao segundo golpe a janela foi escalada. O negro, ligeiro como um gato, salta por ela para dentro da casa abrasada e desaparece!... Havia algumas pessoas sobre o telhado dessa parte ainda intato, que buscavam, já cortando, já lançando grande quantidade de água, salvar ao menos esse lugar; entre elas era Florindo, o amigo de Augusto, que já conhecemos, e que em sua casa se achava nesta ocasião, o que mais se distinguia. A janela por onde saltou o escravo, colocada a um canto da casa, era unida à parede, de uma meia-água, que servia de cozinha. Infelizmente já o fogo tinha aí feito não pequenos estragos. Pouco tempo depois a cabeça de um negro foi claramente divisada dentro da casa, e junto à janela dita: era o escravo, que observava se as chamas lhe dariam passagem pela mesma janela que escalara. Por fatalidade a viga, que prendia a cozinha ao corpo da mais casa, único ponto que a sustentava, acabou de estalar-se em um lugar consumido pelas chamas. A
meia-água, já muito abalada pelo fogo, desmorona-se sobre a casa para o lado da janela, deixando-a sepultada embaixo de suas ruínas!... Ao estrondo deste baque seguiu-se o de aflitivos gritos: — João!... — era o nome do escravo; e os espectadores o julgaram abafado debaixo de tantos destroços! Dois, ou três minutos ao depois, João, trazendo sobre suas costas Augusto, que estava desmaiado, disputa com a morte tanto a sua vida, como a de seu senhor, abrindo caminho por entre chamas! Mais quatro passos, eles estar iam salvos: porém essa salvação parecia impossível! Era por uma porta que dava saída para o jardim, que João intentava a passagem, e por sobre um montão de ruínas, debaixo das quais as chamas lavravam abafadas; o negro tropeça sobre elas e sustenta-se; um pau escorrega sobre outro, este madeiro rola de sobre aquele, a pilha de ruínas desfaz-se, espalham-se os combustíveis; uma espessa coluna de fumo se ergue, e logo um dilúvio de fogo, que até então estava como sopitado, cujas horrorosas lingüetas ocuparam todo o vão da porta! Entre esta confusão apenas se ouviam os gritos de — Augusto. .. João... murmurados pelos espectadores desta aflitiva cena! O preto recua, ele parece perdido, sem remédio, mas não desanima. Para maior desgraça a parede mais vizinha deste doloroso quadro ameaça baquear sobre os dois... um único canto da sala era o só lugar ainda não invadido pelo fogo, João abrigou-se nele: a parede desaba enfim com ruidoso estrondo! e esta mesma parede, que parecia destinada pelo gênio das ruínas para perder a João, e a seu senhor, é a ,mesma de que uma poderosa mão se serve para conservar-lhes a vida! A parede pois caindo sobre as chamas as abafa por um momento! Será isto um feito milagroso, ou um feito natural? Será isto acaso, ou providência? Seria a mão
do homem quem ateou essas chamas, e derrubou essa parede, ou a mão de Deus? A mão do homem podia acender essas chamas, a mão do homem podia precipitar essa parede, mas um só dedo de Deus era de sobra para arrancar do meio do incêndio duas vítimas que em breve iam ser pasto do fogo! Deus é grande! Todavia, as chamas se abafam por um momento, e João, oprimido de sua querida carga, passa incólume por sobre uma ponte de ruínas, assentada sobre um oceano de fogo! O generoso escravo não tinha bem chegado ao meio do terreiro, quando um pedaço de um grosso caibro partido do telhado com enorme força, lança por terra os dois, que as chamas haviam respeitado!
Leia gratuitamente O Filho do Pescador, de Antônio Gonçalves Teixeira e Sousa, romance brasileiro original de 1843 e marco fundador do romance no Brasil. Texto integral em domínio público preparado em HTML para leitura online no Literunico, com fonte UFSC/BLPL validada, capítulos completos, capa nova no padrão Literunico, busca, redes sociais e pesquisa por IA.
Ainda não há resenhas para esta obra. A primeira leitura comentada pode começar aqui.
Uma seleção criada para acompanhar a atmosfera, os personagens e os caminhos desta obra.
Escolha a arte, confira a disponibilidade e adicione o produto ao carrinho sem sair da experiência.
Adquira Relíquias da Obra e deixe sua marca registrada, criando valor ao item!
Capítulos disponíveis para continuar a leitura.
Nenhuma Relíquia desta obra foi adquirida ainda. Seja o primeiro a eternizar seu nome no acervo oficial!
Conhecer as 100 RelíquiasAinda não há resenhas para esta obra. A primeira leitura comentada pode começar aqui.
Nenhuma posse foi registrada publicamente para esta edição.
Durante a leitura, abra Menu para ajustar a experiência sem sair do capítulo. As preferências de aparência ficam salvas neste aparelho.
Recursos identificados como “em preparo” aparecem para antecipar a evolução do leitor, mas ainda não executam uma ação.
Posso mostrar leituras em destaque, clássicos e Relíquias disponíveis agora no Literúnico.
Escolha um caminho
Dúvidas desta página
As explicações do Aurélio são respostas cadastradas pelo Literúnico.