Leia agora
O Filho do Pescador

Universo da obra

O Filho do Pescador

Capítulo 8 · O Filho do Pescador

Capítulo VII — E neste lugar? E nesta hora?

8 de 21 ≈ 5 min de leitura

CAPÍTULO VII

E NESTE LUGAR? E NESTA HORA Aquele que entra em casa alheia por meios ocultos, seja qual for o fim que para ali o leva, é sempre um ladrão; porque, ou vai roubar a fazenda, ou a honra, ou um segredo. A casa de família, que tem uma porta durante o dia e outra durante a noite, não poderá mui eficazmente sustentar sua honra quando a segunda porta a argüir. As obras da Copacabana se haviam concluído; a casa que outrora fora abrasada e que se reedificava, já se achava pronta; e a família a quem pertence esse edifício, tendo deixado a cidade, de novo ocupava a sua antiga vivenda. Os prazeres dos belos domingos se haviam restaurado com a presença dos habitadores desse lugar de delícias; as alegrias de outrora haviam renascido e tudo se animava, tudo vivia na bela casa da Copacabana, mais elegantemente reedificada. Os interessantes pomares de novo tinham um cuidadoso cultivador, o vergel um assídio jardineiro, e suas belas flores abriam seu odoroso e colorido seio para serem colhidas por uma bela mão cândida, como a acucena do prado, e formosa como o mais custoso lavor das delicadas mãos de uma donzela que ama, e que o destina para o mimoso querido de seu jovem coração, e para murcharem entre os louros e melindrosos cabelos de uma cabeça tão formosa, como o mais belo pensamento de instruído artista cobiçoso de glória! Agora, porém, me recordo que uma omissão da minha parte, unicamente filha do meu esquecimento, vos

dá direito a me pedirdes dois nomes, isto é, o do morto e o da viúva inconsolável. . Sem dúvida grande razão vos assiste em vossa exigência; quanto a mim, nada mais me resta do que o dever de satisfazer-vos. Parece-me que sendo o amor o mais vulgar de todos )j os afetos, é por isso que sentimos quase sempre, e às vezes a nosso pesar, o" nosso coração interessar-se pela sorte daqueles que amam; e mui principalmente quando vemos um amor generoso, e desinteressado de toda qualquer outra paixão humana. Eu não vos pintei, é verdade (ao menos até aqui), Augusto como um mancebo que movesse em seu favor as vossas simpatias; mas é tal a suscetibilidade de nossa alma em prol dos que amam, que, desde o momento em que o vistes amando tão apaixonado, tão sincero e de um modo tão generoso, vós, eu bem o sei, tomastes pelos seus destinos um tal e qual interesse. Oh, sem dúvida... Que (me dizeis vós)! pois o mancebo que acabou de uma morte súbita, o mancebo há pouco sepultado na Ordem Terceira de S. Francisco de Assis, é Ç Augusto?! Essa viúva inconsolável é Laura? Essa família \ desolada é a família de Augusto?... — Ainda bem que vós adivinhastes... eu não vô-lo queria dizer, ao me\ nos desejei por mais alguns momentos poupar essa pena ) ao vosso coração, mas vós penetrastes o que eu tanto, í e com tanto cuidado vos quis ocultar. Pois bem. Esse funesto acontecimento não podendo pôr termo à nossa história, o fio dela nos leva a Copacabana. Supondes que na casa de Augusto vedes as lágrimas de uma viúva? supondes que ouvis os suspiros de uma mulher inconsolável, que amava e extremosamente queria a seu marido? e que essa mulher é Laura? pois / é verdade, tudo isso é verdade!

Entretanto falemos de um acontecimento de certa noite. É tarde: Laura dorme talvez no fundo de seu aposento, e as pessoas de sua família dormem também ou para isso se aprestam. Um rebuçado, coberto com um grande chapéu, tendo o rosto envolvido em um lenço de cor escura, ora, sobre mansos passos volteja em roda da casa, ou aplica o ouvido sobre uma janela, como quem busca escutar o que se fala por detrás dela. O que quererá nesses lugares desertos e a tais desoras esse passeador noturno? Será porventura algum malfeitor? mas contra quèm? Aqui existe uma viúva em pranto, cujo marido ontem retribuiu à terra o que lhe havia tomado por empréstimo... e com ela seus escravos. Quem será? Algum ladrão? Certo que nenhum estado ou idade merece consideração para tal gente. E neste lugar? e nesta hora... Acaso será aquele rebuçado que outrora escapando-se às vistas de Augusto, em sua própria casa, transpôs o muro em sua fuga? isto é, o miserável amante de uma preta escrava, como ela própria havia declarado a seu senhor? Será o rebuçado das catacumbas? Enfim cumpre segui-lo. Todavia ele se aproxima à janela. A noite vai já em meio; todos dormem, nenhum rumor; silêncio, tudo é silêncio; é o sossego da morte, é a mudez dos sepulcros. A mesma aura da noite, que aliás até ali havia brandamente agitado as folhas das árvores, parecia encolher suas sussurrantes asas, como para espreitar os passos do noturno: ele chega à janela... escuta... e arranha sutilmente sobre ela... diríeis que era o arranhar de um gato... a janela abre-se repentinamente, o vulto com invejável presteza salta por ela e cai dentro. Ao mesmo tempo dois braços amorosos recebem estreitamente... a quem? ao malfeitor? não: e, pois, a quem? a um amante? Não sei. Depois de certificar-me eu vo-lo direi.

O Filho do Pescador

Sinopse

Leia gratuitamente O Filho do Pescador, de Antônio Gonçalves Teixeira e Sousa, romance brasileiro original de 1843 e marco fundador do romance no Brasil. Texto integral em domínio público preparado em HTML para leitura online no Literunico, com fonte UFSC/BLPL validada, capítulos completos, capa nova no padrão Literunico, busca, redes sociais e pesquisa por IA.

O Filho do Pescador

Resenhas do livro

0 publicadas

Ainda não há resenhas para esta obra. A primeira leitura comentada pode começar aqui.

O Filho do Pescador

Trilha sonora oficial

Uma seleção criada para acompanhar a atmosfera, os personagens e os caminhos desta obra.

Abrir no Spotify
Ir para o carrinho
Mercado de O Filho do Pescador

Leve um fragmento deste universo

Escolha a arte, confira a disponibilidade e adicione o produto ao carrinho sem sair da experiência.

Nenhum livro físico está disponível neste universo.
Relíquias da Obra

Adquira Relíquias da Obra e deixe sua marca registrada, criando valor ao item!

Aguardando Aprovação do Autor
Aguardando grupo autoral O Filho do Pescador Escolha uma Relíquia e envie uma proposta de aquisição, mesmo antes da ativação.
100Relíquias
0Titulares
0 Passagens
Central de RelíquiasDescubra coleções de outros universos e obras.
ver todas
Capítulo 8 carregado no app · 1 livro conectado 1/1
Abrir leitor completo

Capítulos disponíveis para continuar a leitura.

Capítulos de O Filho do Pescador

Capa de O Filho do Pescador
Continue a leitura Capítulo VII — E neste lugar? E nesta hora? Capítulo 8 · 8 de 21 · ≈ 5 min
Todos os capítulos 21 disponíveis

Donos de Relíquias

0 titulares

Nenhuma Relíquia desta obra foi adquirida ainda. Seja o primeiro a eternizar seu nome no acervo oficial!

Conhecer as 100 Relíquias

Resenhas do livro

0 publicadas

Ainda não há resenhas para esta obra. A primeira leitura comentada pode começar aqui.

Entrar para resenhar

Posses do livro

0 Leitores com posse
0 Unidades registradas

Nenhuma posse foi registrada publicamente para esta edição.

Adicionais do Universo

Visual ClássicoAbra a leitura editorial, no estilo de uma página de livro
ler
Visual AuroraApresentação imersiva do universo da obra
abrir