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O Filho do Pescador

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O Filho do Pescador

Capítulo 11 · O Filho do Pescador

Capítulo X — A minha pontaria foi mortal

11 de 21 ≈ 7 min de leitura

CAPÍTULO X

A MINHA PONTARIA FOI MORTAL Quando no fundo dos bosques julgamos que são as árvores os nossos únicos companheiros, nós somos, sem o saber, espreitados por olhos que vêem. Quando em nossa própria casa acreditamos estar a sós, ou com um fiel amigo, um ouvido inimigo nos escuta. Entre a escuridão da noite divagam fantasmas vigiadores, que revelam ao dia todos os mistérios da noite. Não há, pois, sobre a terra ocasião, nem tempo, nem lugar que seguros nos sejam. ' S'"’ í Ficamos ao fato de todos os acontecimentos passados; estamos senhores de todos os segredos de Laura; conhecemos o seu amante, e os crimes produzidos por esse nefando amor. Agora resta-nos saber quais novos sucessos levaram a morte e a punição ao muito culpado e assaz punido Florindo. Deixamos Laura na sua alcova cheia de furor, tendo visto fugir-lhe o seu refalsado amante, pois bem. Laura não divaga por muito tempo incerta sobre o partido que deve seguir; ela escreve uma pequena carta, e por um seu escravo a envia ao seu destino; era muito perto. O escravo voa, segundo as ordens de sua senhora: ele chega, entrega a carta a quem ela era remetida, e pouco depois um homem é introduzido à presença de Laura. — Apenas recebi a vossa carta, senhora Laura, em que me mandáveis chamar, e com pressa, vim satisfazer-vos.

— Obrigada, Sr. Marcos: os momentos fogem, e eu quisera aproveitá-los... — Então falai. — Haveis de estar lembrado que a todas as vossas amantes cartas a mim dirigidas sempre vos respondia, que motivos ocultos me impediam de arreceber os vossos obséquios? — Bem me alembro. E se hoje for mister um sacrifício para que sejam destruídos esses motivos? — Eu o farei. — Se houver um grande embaraço? — Saberei destruí-lo. — Se forem difíceis de vencer? — Não há dificuldades para amor. — Se for preciso um crime? — Os bons motivos justificam os maus meios. — Se a vida de um homem? — Todos têm o direito à sua felicidade, ainda à custa da existência de outros. — Pois bem, o motivo que me impede aceitar as vossas ofertas, senhor Marcos, é Florindo... — Florindo! e como? — Esse homem havia me prometido desposar-me, pouco depois que eu me enviuvei; e agora tendo-me comprometido, abandonou-me infamemente. — E o que é preciso fazer? — Que esse homem, a quem odeio, deixe de viver. — Hoje mesmo. Onde está ele? — Muito perto daqui; neste momento caminha para a cidade.. . Neste momento deixará de viver: e ao depois?... — O amor e minha gratidão. Eis aqui uma espingarda, pólvora e balas. Marcos recebeu este terrível presente, pegou a funesta arma com a morte! e saiu: pouco depois Florindo não vivia!

Marcos tendo cumprido a sua palavra, voltou aos braços de Laura, como um homem que acabava de descarregar-se de um enorme peso, e que vinha repousar tranqüilo nos braços de uma virtuosa esposa ou fiel amante. Ali não havia indícios de dor, nem do mais leve remorso! É para admirar a prontidão com que este homem horrível recebeu, e com gosto esta tão execranda comissão . Eu não vos quero dizer que neste momento dois nojentos amantes em uma casa, na Copacabana, trocam as mais baixas finezas, mutuam as mais infames carícias, reciprocando os mais escandolosos protestos do mais criminoso e do mais nefando amor! mas vós o prevedes; pois bem, é esse facinoroso Marcos, e essa abominável Laura! É um amor, cujo juramento, escrito com sangue, foi pronunciado sobre as aras da morte! É um amófi de réprobo, selado com sangue no hediondo livro da crime, e presidido por Satã, e protegido pelo inferno! Havia quase uma hora que durava essa escandalosa cena de envenenados carinhos quando os dois amantes ouviram bem distintamente um arranhar sobre a janela... Laura estremeceu e enfiou... Marcos a inquire sobre o susto, e sobre o arranhar, e este segunda vez dá-se a ouvir. Laura explica a Marcos que aquele arranhar era o sinal que Florindo lhe dava quando lhe vinha falar, e que só ele sabia aquela senha. Marcos era um homem tão resoluto que não fugia sem ver de que; imediatamente avança para janela, e enquanto Laura ocultando-se por trás dele observa receosa, Marcos abre-a e um e outro muito clara e distintamente viram Florindo recostado nela!... Eu deixo a cada um que pondere o susto que tal vista causar podia! era um horror! Laura solta um grito de espanto e

de pavor; Marcos recua espavorido, e fecha rapidamente a janela, enquanto sua amante se escondia em um canto da alcova! Ao tempo que tais coisas aconteciam dentro da casa, ouviu-se um tombo fora, como a queda de um corpo humano; e de feito era o corpo de Florindo que caía! Longos foram os pensamentos dos dois, e mais longos o discorrer sobre uma aventura tão nova quão estranha! Durante largo tempo indecisos e assustados não sabiam dar-se a conselho. Uma hora era quase passada, e nada de resolução. O primeiro momento do susto desapareceu enfim, e a reflexão pouco a pouco veio acoroçoar os dois assustados amantes, e talvez assustados pela primeira vez. Notemos que Marcos estava ciente, e consciente de que sua vítima não vivia; ele o tinha assegurado à sua amante: e com efeito ele tinha visto Florindo sobre a janela, como recostado e olhando para dentro, mas com todos os sinais de um homem morto. — Ninguém traria um defunto sobre suas costas para o vir recostar nesta janela... mas eu o vi, sem dúvida, eu o vi. Assim era que Marcos rosnava talvez consigo mesmo; porém este homem era valente, audaz: de onde, pois, vinha o seu medo? Marcos se quis deixar persuadir por um momento que o que vira sobre a janela era a alma de Florindo!!! Religião, santa Religião, é assim que tu mostras o teu divino império, ainda sobre o mais impuro coração, o mais revel, e o mais criminoso! É assim que ostentas os sagrados direitos da natureza profanada! É assim que tu libertas o amor da humanidade ultrajado! Religião, santa Religião, é assim que tu vingas os teus sacrossantos foros! Sejam do crime todos os instantes da vida do mal-

feitor, embora! mas um só instante de remorsos basta para esses teus implacáveis ministros desenvolverem amplamente toda a vastidão dos teus sagrados poderes! Foi Laura enfim que já nos momentos de reflexão teve a iniciativa no desatar este intrincadíssimo nó, falando assim: Marcos: ele ficou verdadeiramente morto? — Era impossível que vivesse mais cinco minutos depois que lhe atirei: a minha pontaria foi mortal. E a isto acrescentou um sorriso de fúrias, contorção diabólica de uma alma infernal!... — Mas afianças que ele ficasse morto? — Não afianço que ficasse morto; mas eu o vi cair. — Já entendo tudo... — Como assim? — Ele caiu, mas não morto; pôde ainda levantar-se e caminhar; e sentindo-se ferido buscou a casa. — Alembras-te bem. Se ainda aí estiver o corpo, é certo o que presumes. Eu vou vê-lo. Em um instante. Disse e saiu. Com efeito, o corpo aí se encontrou debaixo da janela, e este encontro confirmou na mente dos dois as suspeitas de Laura. — O dia não está longe, disse Marcos, e é mister despachar a este corpo. — Sem dúvida. O mesmo Marcos, ajudado de Laura, em um lugar menos freqüentado do jardim, cavou uma sepultura, onde foi enterrado o corpo daquele adúltero malfeitor. Alguns ramos secos e uma porção de terra solta, serviram de disfarce sobre uma terra recentemente revolvida, que acabava de guardar um segredo, que aqueles mesmos que lho entregavam supunham que ela jamais o revelaria! O sol desse mesmo dia foi o primeiro que alumiou a sepultura de Florindo! E justiça foi feita!...

O Filho do Pescador

Sinopse

Leia gratuitamente O Filho do Pescador, de Antônio Gonçalves Teixeira e Sousa, romance brasileiro original de 1843 e marco fundador do romance no Brasil. Texto integral em domínio público preparado em HTML para leitura online no Literunico, com fonte UFSC/BLPL validada, capítulos completos, capa nova no padrão Literunico, busca, redes sociais e pesquisa por IA.

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