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O Filho do Pescador

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O Filho do Pescador

Capítulo 13 · O Filho do Pescador

Capítulo XII — Eu...

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CAPÍTULO XII

EU... Tão precários são os nossos felizes acasos, que no lugar onde julgamos encontrar a ventura deparamos com a desgraça: o capítulo passado bem nos revelou esta verdade! Muitas vezes onde nos supomos a sós, e aptos para tudo quanto der a nossa imaginação, no momento, em que nos dispomos a executá-la, uma pesada mão de ferro nos suspende, e até nos castiga! Caçador, caçador, onde estás? Onde estás, que não vens valer a tua amada! Ela, por tua causa entre as horríveis mãos de um assassino, e próxima à morte! e la .. . e tu não vens valê-la? Como? e deixas indefesa a tua amada! Caçador, caçador, onde estás? mas embalde é a voz do que te chama! Mancebo amador, como? Faltar a uma entrevista à tua dama? A primeira entrevista, e pedida por ti próprio! Que omissão, que falta! Caçador, caçador aonde estás? Ah, que o teu crime é um crime de morte! Caçador, caçador, a tua dama morre, e tu ... tu a desamparas no momento de sua dor? tu !...

E com efeito, quem não se encherá de cólera contra um tal procedimento? Entretanto para não criminarmos o jovem sem ouvi-lo, vejamos qual foi a carta, que ele endereçou a sua bela, ei-la: “Beleza incompreensível, mulher que amo com um amor inexplicável e ininteligível; dogma impercebível do meu coração; livro místico de minha alma, onde há um amor todo de mistério! Serás tu um anjo? serás uma divindade? Eu não te compreendo! Serás tu um sonho ou uma realidade? Eu não sei o que tu sejas; mas, ou ilusão ou verdade, eu te amo! Sim, eu te amo, e não sei como! Quando te amo, quero fugir de ti! Quisera aborrecer-te, e te desejo sempre a meu lado! És o que eu não sei definir; e eu sou o homem que te ama, e que mais te respeita! No meio das minhas meditações, eu te encontro, como um anjo e no fundo dos meus sonhos apareces aos meus olhos, como um fantasma, que me assusta ou como um pesadelo, que me oprime!... mas eu me acordo, e outra vez te encontro pura, como a estrela da manhã; simples, como a rola do prado; engraçada, como a flor do vale; suave, como o luar da primavera; risonha, como a mais bela estação da natureza; formosa, como o primeiro pensamento de amor entre os terníssimos êxtases de inocente virgem enamorada; e finalmente bela, como um anjo! T u então és tão suave ao meu coração, como o amoroso suspirar de enamorada brisa, docemente gemendo entre o mimoso regaço das flores! Então és um nardo divino tão consolador à minha alma, como o é para as flores o derradeiro orvalho de uma suave noite da primavera! “Entretanto nas minhas reflexões escuto uma voz que me diz: “Consagra-lhe a tua existência, porém ela nunca será tua; vive para ela, porém ela não viverá para ti! E

todavia ela será tua, viverá por tua causa, e não te pertencerá! Quando quero estudar-te, caio num abismo de incompreensibilidades! Quando quero compreender-te, eu me perco em longos rodeios de um intrincado labirinto! E contudo, sinto que te amo. Se és desgraçada, então eu sou irrevogavelmente teu! mas se sou feliz, os nossos destinos são um arcano do futuro! E todavia sinto que te amo, como o bom irmão ama a sua querida irmã; e te respeito, como o filho obediente respeita a sua terna mãe! Tu não poderás compreender o meu amor, e nem eu explicá-lo! Entretanto, eu te asseguro os meus respeitos, e dá-me uma entrevista; eu te protesto a minha obediência, e marca-me uma hora; cumprirei as tuas ordens, e aponta-me um lugar.” “ O caçador Eis aqui a carta, que à formosa Laura endereçara o belo caçador. Vós a entendeis? nem eu. É uma carta, em que se pinta um amor verdadeiramente extremoso, mas também verdadeiramente incompreensível! É um amor cheio de receios, e são receios cheios de amor. É uma carta, que parece um parto de uma imaginação escaldada. Nós quiséramos daí arrancar algum ponto de realidade, ou de moral, mas como? por onde começar, finalizar onde? Notamos aí tantas coisas contraditórias, que é um nunca acabar; são palavras, que não parecem representar idéia alguma real, ou são idéias, que nada nos podem revelar: e, e aqui existe alguma coisa de verdade, ela é tão sublime, que não a podemos atingir! Nós não deparamos nesta carta senão com palavras habilmente coladas, formando um agradável estilo, em cuja forma há um pouco de eloqüência sentimental, que faz aparecer em nossa alma uma como suave melan-

colia, que nos obriga a simpatizar com o seu autor. Mas quem sabe se nessa melancólica eloqüência haverá uma cadeia de pressentimentos, produção de um desses divinos instantes, puramente psicológicos, em que parece que nossa alma desquitada da matéria, toda embebida na sublimidade de suas próprias perfeições, estende uma vista profética pela vasta amplidão de remotos futuros? Quem sabe quantas vezes teremos, sem o saber, vaticinado o nosso distante porvir? Oh! pode muito bem ser; tão poucos mistérios não tem a natureza em seu imenso seio! Nós já sabemos que em uma manhã o caçador havia estado com Laura, e nessa ocasião falecendo-lhe o ânimo de pessoalmente entregar-lhe a carta, que pronta já trazia, resolveu-se a mandá-la por um escravo de Laura, que o havia procurado depois da sua saída. Sempre estes entes miseráveis se prestam a este baixo ofício, não só mediante alguns vinténs, mas também para se insinuarem no ânimo dos senhores, ou daqueles a quem servem, por causa da possessão de seu segredo: este mesmo escravo era quem havia sido o portador das primeiras cartas; e foi quem levou a carta de Laura em resposta à que vimos, concedendo a pedida entrevista. Laura não faltou a ela; Laura lá se achou; e há pouco a deixamos entre as mãos de um desconhecido! Agora voltemos a Laura. Deixamo-la há pouco entre mãos de um malvado, o qual, depois de lançar-lhe em rosto a sua perfídia, o seu novo amor com o moço incógnito; depois de repetir-lhe a íntegra da carta deste e a da dela; depois de oprimi-la com os mais repugnantes insultos, acrescentou com uma voz infernal: — Agora apronta-te para morrer... — Para morrer?! — Sim, para morrer.. .

— Ah! tem piedade de mim... — Não há piedade para t i... — Pelo amor de Deus, não me mates!... — É impossível; tu morrerás, e morrerás neste mesmo instante. .. Laura, tu não tens mais que um momento de vida: põe-te bem com Deus, anda, é tempo; arrepende-te dos teus crimes, que tão poucos não são; anda, avia-te.. . — Ah! tem compaixão de mim!... Oh, meu Deus! e morrerei tão moça.. . — Bem moço morreu Florindo, e nenhuma dúvida nisso teve. Anda, avia-te. — Ah! espera um momento.. . ouve-me... — Qual ouvir, nem ouvir; não ouço nada. Anda, que eu tenho pressa. Desejo matar-te como quem deseja ter dinheiro. Oh! tu me não mandarás matar por esse caçador, como por mim mandaste matar a Florindo. .. Bem vês que nada mais faço do que antecipar-me. Vamos, vamos... — Marcos, pois eu que te amo tanto!... — Bem sei; quero, pois, premiar o teu grande amor, como ele merece, e como tu premiaste a Florindo; oh! eu aprendi contigo. Bem sabes o como sou terminante em minhas resoluções; escuso dizer-te outra vez que morrerás por força. O lugar é solitário, somos sós, e ninguém, absolutamente ninguém pode arrancar-te de minhas mãos. Aproveita, pois, estes momentos para tua alma. E desembainhando uma espada, e apontando sobre o peito de Laura, disse ainda: — É mais uma alma que vai hoje para o inferno... — Socorro . . quem me socorre?... — E u... Bradou com voz sepulcral um terceiro personagem, que acabava de entrar nesta terrível cena de horror!

O Filho do Pescador

Sinopse

Leia gratuitamente O Filho do Pescador, de Antônio Gonçalves Teixeira e Sousa, romance brasileiro original de 1843 e marco fundador do romance no Brasil. Texto integral em domínio público preparado em HTML para leitura online no Literunico, com fonte UFSC/BLPL validada, capítulos completos, capa nova no padrão Literunico, busca, redes sociais e pesquisa por IA.

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