Universo da obra
Universo da obra
QUE VEJO!.. . A nossa vida é um composto de desordens seguidas por uma nova ordem de eventualidades felizes, ou desgraçadas; não há, porém, uma eventualidade feliz, que possa ser o cúmulo da suprema felicidade mas pode haver uma eventualidade desgraçada, que possa ser o derradeiro abismo da extrema desgraça. Suponde que estamos na sala de Laura; ela graciosamente assentada no seu canapé tem de um lado o Dr. Sinval e doutro lado o belo caçador. A porta está apenas encostada. Um homem envolto em seu capote, coberto com o seu grande chapéu, e mui enterrado em sua cabeça, com o rosto quase sepultado em compridas barbas e longos cabelos, um grande parche, que lhe encobre quase toda uma face; demora à porta. Laura pergunta quem ele é? — É um doente, que me veio consultar; eu o despacharei. Foi a resposta do Dr. São quase onze horas da manhã. Os três personagens do canapé conversam com interesse, o homem que está de fora avizinha-se, e encostado a um portal da porta, nem está bem dentro, nem bem fora. Ele parece não perder palavra da conversação. Ouve-se a voz do Dr.: — Enfim, minha senhora, eu me oponho absolutamente a este casamento. — E por que, senhor doutor? — Porque não é de meu gosto... — Esse modo de falar indica ódio. .. — Antes compaixão.. . — Compaixão! e por quê?
— Perguntai a vós própria, e o sabereis. — Não vos compreendo; mas seja como for; se vosso afilhado e eu o quisermos? — Ele o não quererá; mas se o quisesse, eu o saberia impedir. — Confiais muito em vós; mas sabei que se sois rico, também eu tenho riquezas... — Vossas riquezas vos não podem servir para este negócio. — Pois veremos, senhor; eu tenho grandes meios à minha disposição. .. — Bem sei. Como tem sempre uma mulher adúltera quando quer desfazer-se de seu marido, como, por exemplo, um incêndio, um veneno... ou quer acabar com um amante criminoso, por meio de um malvado com um tiro, etc. O tom de convicção, e a frieza horrorosa com que o doutor pronunciou estas palavras, era para rasgar no coração de Laura a mais profunda e envenenada chaga; e mormente à vista do amante caçador, que não bem podendo interpretar, em sua imaginação, as palavras de seu padrinho, olhava todavia atônito para ele e para ela, como quem, por sobre seus semblantes, queria penetrar os arcanos de seus corações! Em verdade, nada de mais designativo para Laura, do que as palavras do doutor. Não obstante, a viva Laura, com afetada franqueza, e com a mais revoltante e incrível frieza, respondeu: — Não sei de quem falais... — Atendei-me: permiti que vos conte uma história.. . — Agora não é possível. — Mas há de ser agora mesmo. — Estou incomodada. — É pequena. — Embora. Permiti-me licença... — Não; haveis de ouvir-me. Assentai-vos. — Senhor...
— Bem sabeis que vos não temo. Quero que me ouçais, e o quero absolutamente.. . Haveis de ouvirme ... ou... Vós me compreendeis. — E que história é essa?... — Não vos diz respeito, é verdade; mas bom será que a saibais. Ouvi-me, pois: Entre as muitas pessoas, que eu conheci nesta cidade, havia um tal moço, recomendável pelos seus maus costumes nos seios das famílias, que freqüentava. Entre as diversas casas, que este visitava, era bem assim a de um honrado moço, há pouco tempo casado com uma bela moça: eu era amigo dele. Algumas vezes eu falei-lhe sobre a amizade deste moço, mas ele era tão demasiadamente bom que jamais desconfiava dos outros. Um dia, eram nove horas da manhã, pouco mais ou menos, eu estava na botica de um meu amigo, isto é, num quarto dela, para a parte de dentro, de modo que não podia ser visto de fora quando entrou ele, pois se dava muito, ou era até amigo do caixeiro, e lhe pediu um pouco de veneno para extinguir ratos. Ora, isto podia ser verdade; eu sou de um natural desconfiado, e a minha idade me tem feito aprender o quanto pode um moço louco, perdido de amor. O caixeiro hesitou, dizendo que um pouco de veneno não se dava assim. O moço prometeu então o mais inviolável segredo, e o mesmo exigiu do seu amigo caixeiro. Admirado eu desta instância, e deste religioso segredo, acompanhado de minha experiência, e natural desconfiança, acenei ao caixeiro para que se calasse, e viesse ter comigo. Todavia, o caixeiro pretextando certo serviço ligeiro, pediu licença ao pretendente e veio a mim. Então impondo-lhe segredo sobre mim, e sobre o que eu lhe mandava fazer, disse-lhe que desse a seu amigo um estupefaciente, cujo nome lhe indiquei, e disse-lhe que desse uma porção que produziria um torpor de algumas horas. O narcótico
que mandei dar é daqueles, que produzem um tão profundo letargo, que só um facultativo o pode discriminar da morte. Isto feito, certo que a dose que mandei dar nenhum mal faria a quem a tomasse: botei-me para uma chácara, nos subúrbios da cidade, de um amigo meu com quem fui jantar; de volta, soube com espanto que o moço, meu amigo, era morto. Perguntei a que horas tinha morrido, disseram-me que às onze horas, pouco mais ou menos. A pessoa que disto me noticiava, acrescentou, dizendo a igreja para onde naquele momento tinha seguido o acompanhamento fúnebre! Não foi a morte súbita que eu admirei, mas foi a pressa de sepultar-se o corpo do morto. Não pude resistir à minha admiração, e encaminhei prestes para a dita igreja. Chego, a cerimônia do enterramento está finda, e a igreja já quase solitária. Examino o corpo, e conheço que o que parecia sono de morte, não era mais do que um profundíssimo letargo, a que seguir-se-ia o da morte, se breve se não acudisse o paciente. Cumpre notar que isto era devido ao tal caixeiro, que deu mais do narcótico, do que eu lho determinara, como depois verifiquei. Conheci que o desgraçado podia ainda viver se porventura lhe acudissem. Por felicidade o sacristão dessa igreja não só era meu conhecido, como até me era assaz obrigado. Chamei-o, e exigindo dele um juramento sagrado, comuniquei-lhe o que havia, invocando o seu socorro em favor do suposto morto: tiramo-lo da catacumba, despimo-lo de seus hábitos sepulcrais, e com eles fingimos o defunto dentro do caixão da mesma catacumba, que devia fechar-se na seguinte manhã e alguns pedaços de pano velho, uma pouca de cal e vinagre acabaram de formar o fingido defunto. Findo isto, eu e o sacristão tomamos o nosso homem, e o levamos para um lugar mais apropriado, onde prestei-lhe quantos socorros a arte me aconselhou. Tornou
finalmente a si, e um pouco mais tranqüilo, por minhas diligências, soube por minha boca, que em conseqüência de um letargo fora julgado morto; nada mais lhe disse, nada mais, pois, convinha. Poucas horas depois o ressuscitado estava em minha casa. Quando se achou completamente restabelecido, contei-lhe toda a história e as razões em que me fundava para crer que fora envenenado por sua mulher, ou quando menos pelo seu amigo. O pobre homem tremia ao ouvir-me; queria não darme crédito; mas a compra do veneno, o narcótico levado, o seu longo torpor, a pressa de seu enterramento, eram provas quase evidentes. Como quer que fosse, ele resolveu-se a ficar oculto, e debaixo de hábitos e formas disfarçadas, espreitar os passo de sua mulher. Era, pois, em minha casa que ele estava oculto; mas passava quase todas as noites rondando a casa de sua mulher. Além de mim, o sacristão da igreja, só outra pessoa sabia destas coisas, era um escravo que o acompanhava todas as noites, e em cujo quarto, pegado à casa de sua suposta viúva, ele passava, muitas noites e até dias. Bem pouco tempo foi mister para verificar-se o crime. Deveis saber, senhora, que quando a suposta viúva se julgava a sós, entre os braços de seu criminoso amante, ela era ouvida pelo seu próprio marido; mas ainda não era tempo.. . (O doutor neste lugar fez uma parada, tirou a boceta, e tomou uma pitada. Laura fazia-se de mil cores ouvindo esta narração tão análoga à sua história; sua alma experimentava neste momento os mais terríveis tormentos do inferno! mas a necessidade a obrigava a escutar. O doutor continuou sua história): Houve uma noite, em que esta mulher, a pedido do seu amante, teve a bóndade de contar-lhe a sua história: já se vê, que durante tal narração, seu marido a ouvia.
O amante a ouviu, e ou fosse horror, ou fingimento, o certo é que ele resolveu-se a deixá-la entregue a si própria, e efetivamente o fez nessa mesma noite, em que lhe ouvido tinha a sua funesta história. Esta mulher de sangue determinou logo acabar com este amante: ela acha um malvado, que, pelo prêmio do seu amor, aceita esta mortal comissão, e poucos momentos depois que seu amante a abandonara, ferido de um tiro, deixa de viver uma vida de fogo, de sangue, de veneno, de mortes, de crimes, e de adultério enfim!... No momento porém em que este malfeitor cai expirante, um desconhecido lhe aperta a mão dizendo pouco mais ou menos: — Deus te perdoe. — Já se vê que este desconhecido era o suposto morto. Poucos minutos depois esta mulher e seu novo amante, contando ambos mais um crime, ouviram sobre a janela do quarto em que estavam, um como arranhar pelo lado de fora, sinal, que costumava dar o primeiro amante quando ia falar-lhe: ela é aberta, e com espanto dos dois criminosos, o homem, que há pouco fora assassinado se vê recostado à dita janela! Já se vê que foi o suposto marido morto, que arranhou sobre ela; e que o mesmo, ajudado de seu fiel escravo, foi quem trouxe o corpo do morto para recostá-lo à janela desse quarto de maldições! Sim, que ele estava bem certo que os dois criminosos o sepultariam, e seria sobre a sepultura desse adúltero execrando onde ele provaria à sua mulher todos os seus medonhos crimes! Parece que escrito estava que por causa desta mulher devia ainda correr mais sangue: e todavia, ela faz uma nova digressão, e um novo amante espera uma entrevista no fundo de seu jardim; ela não falta; e quando pensa correr aos braços do seu amado, acha-se entre as mãos mortíferas do matador do primeiro amante. A desgraçada grita, pede socorro, e um desconhecido aparece em seu favor. Já se vê também que foi o mesmo
suposto morto que aí apareceu em socorro de sua mulher, cuja vida estava a ponto de perder às mãos de seu ciumento amante. Já se vê enfim que foi o mesmo que obrigou a esse homem malvado a deixar o Rio de Janeiro, a escrever uma carta a sua mulher noticiando-lhe isto mesmo; e que foi ele quem ensaiou o escravo para que dissesse a sua senhora, que a pessoa, que a socorrera fora ele escravo!... O primeiro amante pois desta mulher carregada de crimes, era Florindo... — Ah! basta. .. — Ainda não. O segundo, Marcos, o escravo, João; e ela, Laura... Ah!... E o marido?... Exclamou o caçador como ferido de um raio! O doutor continuou friamente: — É aquele que ali está... Ao mesmo tempo o homem, que estava à porta, deixando cair o seu capote e chapéu, arrancando sua cabeleira, grisalhas barbas e parche da face, mostrou-se como quem era; Laura encara-o, e solta um grito: — Que vejo!... — O homem a quem duas vezes assassinaste; teu marido, o — Filho do Pescador!.. .
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