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O Filho do Pescador

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O Filho do Pescador

Capítulo 19 · O Filho do Pescador

Capítulo XVIII — A ele devo todos os meus males!

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CAPÍTULO XVIII

A ELE DEVO TODOS OS MEUS MALES! Uma inesperada desgraça no momento em que esperávamos uma grande ventura, forma uma dolorosa memória a respeito do nosso passado; uma angústia mortal em nosso presente, e um sentimento desesperado para o nosso futuro! A desgraça tem direito às nossas lágrimas, a miséria, à nossa compaixão; o crime, porém, a ambas, e o rigor das leis; todavia nunca ao nosso ódio.

Se o vosso coração arfou com o peso de demasiado horror, tendo ante os vossos olhos um ente tão criminoso, como a desventurada Laura, eu sinto ter-vos deste modo molestado; mas pondo debaixo de vossas vistas todos os seus crimes, o fio de minha história deveria levar-vos a essas conseqüências, que há muito devíeis ter infalivelmente aguardado. Se eu soubesse uma história de sangue, de mortes, de horrores, e enfim de toda sorte de crimes, onde a inocência sucumbisse ao peso dos alheios crimes, certo eu me guardaria bem de vo-la contar, amando mais tê-la sepultada em meu coração, do que saber que um malvado exultava lendo uma história em que se visse o triunfo do crime! É verdade que algumas vezes isto se tem visto: mas quem em seus desígnios poderá assoberbar a incompreensibilidade da divina Justiça! É dos maus que Deus lança mão para a sublime provação dos bons: os maus, pois, são o instrumento da Justiça Eterna sobre a terra! Laura merece a punição de seus crimes; e se quereis odiai-a; mas eu vos rogo que antes vos compadeçais dela! Durante quase as últimas palavras do doutor Sinval, Laura, gelada de terror e de surpresa, nem já o mais leve som articular podia. Vós estareis lembrados das últimas palavras de Augusto dando-se a conhecer a Laura, esse raio desfechado sobre o seu coração já tão abatido nessa mais terrível tempestade de sua vida!.. . Colocai-vos no meio dessa cena de horror, afigurai-vos espectador deste hórrido e angustiado drama, e senti pouco mais ou menos o que Laura provaria nesse momento horrível, nesse momento de aniquilação e de desordem! Se quiserdes pintar semelhante cena, não empregueis as cores do crime tomadas de empréstimo ao inferno; não descrevais uma cena de satânicos furores. .. não: é uma cena de dor, de desolação e de espanto!...

Laura havia misturado um grito de horror com as últimas palavras de seu marido; e, perdidos os sentidos, caiu desacordada. Augusto ficou imóvel, o caçador, apertando as mãos sobre seu coração, exclamou insensatamente: — Oh meu Deus!... O doutor correu em socorro de Laura. Bem como aos que a justiça da terra condena à morte, em satisfação às leis, se prodigalizam todos os desvelos já espirituais, já corporais, para que ao menos sua alma aproveite, perante Deus, o sacrifício do corpo; da mesma sorte o doutor empenhou em seu favor todos os meios conhecidos em sua arte. Laura ao cabo de algum tempo tornou a si. Oh! já não era essa Laura tão cheia de si mesma; já não era essa mulher, cuja majestade enfática impunha um não sei que de misterioso! Seus olhos pareciam aquebrantados pela força de seus desmanchos, e suas faces manchadas pela negridão deles! Seus louros cabelos, que à força de sua queda, em seu desmaio, se haviam desmontado, desatando-se, flutuavam incertos, parte sobre suas costas, e ombros, e parte sobre seu rosto, um tanto pálido neste momento! Ainda assim era interessante! Laura, com gesto equívoco, com trêmulos passos dirige-se a Augusto, e parando diante dele, sem todavia erguer seus olhos, fala deste modo: — Há crimes para os quais o perdão é um impossível; os meus são desta qualidade! Tu me obrigas, neste momento de horror, a amaldiçoar a morte, que tão pouco amou uma sua presa! Tu devias punir-me quando surgiste do sepulcro. O túmulo em que jazias não devia ficar vazio pela tua deserção, e eu estava obrigada a tomar entre os mortos esse lugar que tu havias desocupado! T u me poupaste para que eu tivesse tempo de perpetrar mais crimes, e depois deles me virdes cobrir de vergonha!... — Não; quis primeiro verificar teus crimes.

— E com efeito, hoje tu te horrorizas deles! E não te alembras, que se me tivesses então punido, eu morreria menos criminosa. Pois bem. Tenho direito de pedir-te uma graça, e tu deves conceder-ma; é a morte! A sua demora será o meu maior tormento. — Ainda não. O Dr. Sinval deu-se ao trabalho de narrar tua vida de crimes depois do nosso amaldiçoado casamento; eu, porém, tenho alguma coisa que alembrarte de tua vida de solteira... — Fala; que falas a um cadáver. — Laura, foste pouco exata quando contaste a tua vida a Florindo. Permite-me que lhe faça algumas correções... — Fala; que falas a um cadáver. — A tua educação foi péssima... — É verdade. — Perdeste teu pai na idade de dez anos. — É verdade. — Abandonaste a casa paterna na idade de treze anos, em companhia de teu amante, cujo casamento tua mãe desaprovava... — É verdade. — Foste mãe na idade de quatorze anos. — Também é verdade. — Pouco ao depois teu amante abandonou-te. — Injustamente... e a ele devo todos os meus males, meus desmanchos e meus crimes!... A ele... — Teu filho te foi roubado e até hoje... — Também é verdade. — Ficaste à mercê de um novo amante, e com este, a quem falsamente apelidavas marido, naufragaste sobre esta praia, onde ele morreu. — Antes fosse eu! Também é verdade. — Teu nome não é Laura. .. — Eu te disse que o meu nome era Maria Laura, mas que todos me tratavam por meu sobrenome; e eu já tão

afeita a isto estava que não acudia senão pelo nome de Laura. Eu te advirto que muitos são meus crimes para a minha acusação; não é preciso calúnias.. . — Teu primeiro amante, o pai de teu filho, que já não existe há muito... — Deus perdoe os seus pecados! — Chamava-se Sérgio... — Também é verdade. — Teu filho, que ainda vive, cujo primeiro nome fora Hilano, e mudado no crisma para Emiliano, aqui o tens... Isto mostrando-lhe o jovem caçador. — Meu filho!... — Minha mãe!...

O Filho do Pescador

Sinopse

Leia gratuitamente O Filho do Pescador, de Antônio Gonçalves Teixeira e Sousa, romance brasileiro original de 1843 e marco fundador do romance no Brasil. Texto integral em domínio público preparado em HTML para leitura online no Literunico, com fonte UFSC/BLPL validada, capítulos completos, capa nova no padrão Literunico, busca, redes sociais e pesquisa por IA.

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