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Contos Infantis em Verso e Prosa

Capítulo 10 · Contos Infantis em Verso e Prosa

X - História de um vintém

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História de um vintém contada por ele mesmo

É singular a minha vida.

Passo de mão em mão, sempre cobiçado e sempre cedido!

Realizo o moto contínuo, ando num círculo, não vejo o fim da minha carreira.

Onde irei eu? Não sei! De onde vim? Da soberba montanha onde nasci, onde me foram buscar os mineiros, que me trouxeram para uma grande fábrica! Passei pelos mais horrorosos transes; lavaram-me, abrasaram-me, fundiram-me, cunharam-me! Homens e máquinas torturaram-me sem piedade; e no fim de tão bárbaros processos, chamaram-me... vintém!

Só depois de muitas impertinências puseram-me ao ar livre.

Principiei o meu giro. Caí desastrosamente nas mãos de um usurário, que me fechou cheio de cautela na gaveta da sua secretária, repleta de moedas de ouro e de prata! Essas riram-se de mim num tilintar sonoro, chamando-me pobretão!

Um dia, porém, apertou a fome ao usurário e ele trocou-me por um pão duro e sem sabor. Fui desgostoso. Indignava-me aquilo. A avareza é revoltante.

O padeiro por sua vez trocou-me por uns confeitos duros como pedras; o confeiteiro por um cigarro seco; o cigarrista por um número, que saiu branco numa feira, e assim andei de mão em mão sempre humilhado, sempre a maldizer a minha vida, até que um dia no jogo do pão, caí por sorte a um menino, que me elevou no meu próprio conceito. Eu estava num cantinho da sua algibeira, quando uma velhinha, sentada à esquina, lhe disse:

— Meu filho: dê uma esmolinha para matar a fome a esta desgraçada!

Ouvindo essa débil voz, o menino meteu a mão no bolso e tirou-me de lá. Àquele contato estremeci numa comoção estranha. Ele abriu os dedos e deixou-me cair no regaço da velhinha. Foi o meu primeiro momento de prazer. Os lábios frios da mendiga beijaram-me, molharam-me as lágrimas dos seus olhos!

— Deus lhe pague! murmurou ela com a voz trêmula ao seu protetor.

Sim! Deus lhe pague, disse eu também; não só porque matou a fome a uma desgraçada, como porque me fez consciente do meu valor!

Estou de novo na gaveta do padeiro, onde a velhinha veio comprar pão. Desta vez, sinto-me tranquilo e à vontade. É que ao separar-me do usurário eu não me compreendia, e agora entendo a minha missão, e abençoo até os horrorosos transes porque passei!

Contos Infantis em Verso e Prosa

Sinopse

Coletânea infantil brasileira de 1886, em verso e prosa, de Adelina Lopes Vieira e Júlia Lopes de Almeida, restaurada em português brasileiro moderno a partir do fac-símile de domínio público.

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