Universo da obra
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O Berço
Tinha morrido uma criança em casa da velha Ana.
Logo que isto constou, disseram todos entre exclamações de tristeza:
— Pobre avó! É que todos sabiam que Joaninha era a última pessoa da família dessa mulher quase decrépita, que havia sentido resvalarem para a sepultura, dos seus ternos braços de esposa e de mãe, o marido, os seus amores; e as filhas, as suas esperanças.
A última que morrera deixara-lhe um legado precioso, que ela recebeu com o último suspiro; tesouro de sua alma, luz dos seus olhos, consolo de suas mágoas... que tudo isso era para ela, Joaninha, o raio de sol, que lhe aquecia o lar sombrio, que lhe absorvia as lágrimas brotadas dos seus cavados olhos de avó. Foi desde então a netinha o ninho de todos os seus carinhos; aquele corpo pequenino era para a velha como uma redoma santa, invólucro imaculado das almas de todos os seus finados. Em cada batimento daquele coraçãozinho, escutava ela as pulsações de todos os seus perdidos amores.
Mas um dia essa única luz apagou-se, desfez-se aquela flor de espuma, resto do oceano revolto, em que vira submergirem-se todos os seus; voou aquela avezinha inocente, que viera abrigar-se em ninho de misérias, e que partia deixando-o mais ermo, e mais saudoso ainda.
Como passaria agora a pobre velha os dias!
Dentro dessas quatro paredes escuras nunca mais soariam aqueles risinhos dourados, centelhas que lhe varriam do espírito os pensamentos tristes. No berço tosco e rústico, que ali estava ao fundo, berço em que ela tinha embalado os filhos, e em que embalava agora a neta, nunca mais contemplaria a sua adorada Joaninha, encanto dos seus sentidos, única estrela do seu tempestuoso céu!
Foi uma morte rápida: tanto que nem a avó sabia explicá-la bem.
Ainda na antevéspera de manhã ela andara descalcinha sobre a grama úmida do campo!
Quando entrou, vinha tristinha e quente, e assim passou o dia inteiro; à noite a febre cresceu.
Sobre os seus cabelos caíram as lágrimas da velhinha, que velou junto do seu anjinho com o coração partido.
*
*
Quem haveria na vizinhança que não conhecesse a Joaninha?
Ninguém.
As crianças amavam-na como a uma alegre companheira de brinquedos; as mães já tantas vezes tinham confundido com as cabecinhas das filhas, a da loira Joaninha, quando com elas brincava junto à porta, que sentiam uma dor tamanha, como se lhes roubassem com a sua falta um elemento de ventura, e todas rodearam o pobre caixãozinho, e queriam vesti-la pela última vez; e trouxeram-lhe todas uma lembrança, a última prenda, que lhe ofereciam.
Desde a camisinha bordada, até à grinalda de rosas, nada faltava. Mas a avó, a corcovada velhinha, afastou todas aquelas mãos, tomou nos braços o corpinho inanimado e frio, e principiou a vesti-lo. As vizinhas olhavam-se admiradas, e ela prendia os cabelos da neta, tal e qual como quando dantes a enfeitava. Deram-lhe umas meinhas, eram de seda, contemplou-as silenciosa, e afastando-as disse:
— Ela há de levar umas, que eu lhe fiz; e antes de calçar-lhas bafejou-lhe os pés frios, e roxos, e beijou-os muito. Depois foi ela mesma quem a deitou no caixão, quem lhe cruzou as mãos, quem lhe semeou as flores por sobre o corpo!
Uma das amigas curvou-se, e, levantando com os dedos uma madeixa sedosa dos cabelos da morta, estendeu a tesoura aberta para cortá-la; mas as mãos trêmulas da velha sustiveram esse braço dizendo:
— Não, senhora, quero que ela leve todos os seus anéis.
Quando vieram buscar o caixão, algumas pessoas receiosas aproximaram-se da desgraçada avó, cuidando que ela ia por certo cair, morrer talvez; mas a velha ficou de pé na soleira da porta, a olhar até sumir-se de todo o pobre esquife.
*
*
A pouco e pouco foram-se retirando todos, murmurando alguns que, ou Ana já não tinha coração, ou que enlouquecera.
Contudo durante a noite, enquanto todos dormiam tranquilos junto aos filhos, a indiferente avó, a louca talvez, debruçava-se angustiosamente sobre um berço vazio, com as mãos comprimindo o peito, e com os lábios contraídos, a olhar fixamente para essas tábuas, que tinham ouvido os cantos com que ela embalara a sua primeira filha.
Coletânea infantil brasileira de 1886, em verso e prosa, de Adelina Lopes Vieira e Júlia Lopes de Almeida, restaurada em português brasileiro moderno a partir do fac-símile de domínio público.
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