Universo da obra
Universo da obra
Morta!
O luar entrava pelo quarto desenhando no chão o xadrez dos caixilhos da janela.
Estendida numa cama estava uma mulher na agonia dos últimos momentos da existência, nessa dolorosa passagem da vida para a morte.
A seu lado dormiam tranquilos, abraçados e quentes, dois filhos pequenos. A desgraçada mãe, sentindo que lhe fugia a vida, que morreria antes que as primeiras claridades do dia viessem desvanecer as sombras do seu aposento, sentindo que era aquela a sua última noite, pensava no amanhã, no futuro dos filhos.
Eles, logo de madrugada, hão de vir, como sempre, beijar-me, e dizer-me:
— Bons dias, mamãe — imaginava ela —, e eu não poderei ouvir-lhes a meiga voz... e hei de ficar muda!... e julgarão que durmo, ou que não quero responder-lhes e aceitar-lhes as carícias!... depois terão fome, frio e medo... medo de mim, de mim, que os amo tanto!
Quem os acolherá?... quem os aquecerá de encontro ao seio, como eu fazia quando se queixavam?... Quem?...
E ela soluçava, e as lágrimas rolavam-lhe pelas faces encovadas, para se estancarem nos lábios requeimados e febris.
Abençoada unção!
As crianças não deviam ficar sem seus conselhos, amparo do espírito; não queria deixá-las sem lhes dizer muitas coisas, e já sentia a língua tolhida e apagada a luz dos olhos, e enregelado o corpo! Subitamente sentiu-se animada, estendeu os braços para os filhos, ia prendê-los, apertá-los, cobri-los de beijos; mas as mãos pararam-lhe no ar, como que para abençoá-los, apenas!... É que a noite estava em menos de meia, e se ela os despertasse, deixá-los-ia entregues a um medo pavoroso, ali, a seu lado, sem que os pudesse tranquilizar; e os braços trêmulos caíram-lhe outra vez, e ela apertou as mãos crispadas sobre o peito, como querendo sufocar o grito que lhe ia rebentar da alma e...
morreu sem beijá-los para os não acordar.
Ou fosse pressentimento ou rumor do passamento, as crianças despertaram a ponto de ouvirem ainda os últimos estertores.
Sentaram-se espantadas; a mais pequenina ia chorar, quando o irmão lhe disse a meia voz:
— Cala-te, a mamãe está sonhando.
A mãe calou-se, lúgubre silêncio! e eles, os órfãos, ficaram sós e conchegados um ao outro.
— Tenho medo... — gemeu a mais pequena.
— Encosta-te bem para mim — respondeu resoluto o mais velho; e ela apertou-o nos braços, e deitou-lhe a cabeça sobre os ombros, chorando.
O irmão sentia resvalarem-lhe pelo peito as lágrimas da inocente, e procurava a custo esconder as que lhe assomavam às pálpebras, para mostrar-se forte e poder contar no dia seguinte à sua mãe como se comportara com a irmãzinha.
Ela, porém, não cessava de soluçar, e era preciso distraí-la.
— Olha — disse ele, apontando para a janela —, como estão bonitas as estrelas!...
E a menina levantou os olhos úmidos para o céu.
— E o que é uma estrela? — perguntou ela com a voz trêmula e baixinho, como se temesse despertar a mãe, e procurasse ao mesmo tempo afugentar o sono do irmão.
A resposta não se fez esperar muito.
— Uma estrela... sim, uma estrela é uma estrela, assim como tu és tu, e eu sou eu.
— Ah!... — exclamou ela como se tivesse compreendido.
A lua subia lentamente iluminando o grupo dos dois órfãos, que surgiam alvos dentre a escura miséria que os cercava; de braços nus, entrelaçados, com as cabeças aneladas, unidas, entregavam-se no meio daquele silêncio e daquela soledade à contemplação do firmamento!
— Tu, que já sabes ler, deves também saber o que é a lua; não sabes?
— Ainda não li isso; mas a lua... sei que é a lâmpada de Nossa Senhora.
— Mas então por que é ela às vezes redonda, como agora, e outras do feitio de uma foice?
— Isso não sei, mas no céu há muito de tudo; olha, só de lâmpadas há uma porção!
— E nós sem nenhuma para alumiar nossa mãe...
— E as nuvens?
— As nuvens são véus com que se encobrem os anjos, que descem à terra para guardarem as crianças, que não têm pai nem mãe.
— E as nuvens negras como aquela, que vai cobrindo agora a lua?
— Aquela?!... — disse o mais velho com voz trêmula e baixa, sentindo que as forças lhe faltavam: — aquela... é a sombra do papão!
Fecharam os olhos, estreitaram-se ainda mais um nos braços do outro, e esconderam a cabeça no travesseiro.
Instantes depois poder-se-ia ouvir a tranquila respiração daqueles inocentes, abraçados e adormecidos.
A seu lado, hirta, fria, imóvel, estava a mãe, a face amarelada, os olhos baços entreabertos, e um fio de sangue coalhado e escuro, preso nos cantos da boca.
Aqueles anjos, que tinham passado uma parte da noite a explicar tão singularmente o firmamento, ignoravam que o mais brilhante astro do céu da sua existência, a sua estrela na terra, havia-se apagado para sempre!
Coletânea infantil brasileira de 1886, em verso e prosa, de Adelina Lopes Vieira e Júlia Lopes de Almeida, restaurada em português brasileiro moderno a partir do fac-símile de domínio público.
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