Universo da obra
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A rosa
Luiz entretinha-se no jardim a desfolhar uma rosa purpurina, quando chegou Alice.
— Que é isso, Luiz, desfolhas uma flor tão bonita, tão fresca, tão nova, que nos enfeitava o jardim! pobre roseira! vê como fica triste, só tem folhas... mau!
O pequenito envergonhado olhava para a irmã com os olhos muito abertos, depois, tomando uma resolução, respondeu:
— Não faz mal, amanhã nasce outra.
— Mas quanto mais melhor. És então da opinião de que eu podia ter morrido desde que tu havias de nascer?
— Isso não! Se tu não vivesses, o que seria de mim? e coitadinha da mamã como havia de chorar! Lembro-me bem de quando morreu o filho da vizinha os gritos que ela dava!
— Está aí; pois é assim, meu amor. As mães por terem muitos filhos não deixam de sentir a morte de um deles.
— Mas, Alice, a roseira não é gente, não sofre, nem chora...
— Enganas-te; as plantas sentem, vivem e morrem como nós. Não compreendem a nossa linguagem, mas dão-nos a sua, que é o aroma, que nos deleita. Precisam dos carinhos da rega, da poda, da cultura, enfim, assim como nós precisamos dos mimos maternais. Aprende, meu Luiz, que não se deve desfolhar uma flor; faze por conservá-las, nunca por destruí-las.
— Alice, se é assim, para que as colhes?
— Para embelezar a nossa casa, meu amor; um ramo alegra tanto a vista! Mas eu não digo que se não apanhem flores, o que não quero é que as inutilizem. Repara que não duram um dia só os ramos, que eu faço; mudo-lhes a água, destendendo-lhes a vida tanto quanto possível.
— E as plantas não choram esse apartamento?
— Sentem, mas têm ao mesmo tempo um certo contentamento em vê-las dar alegria aos outros... São como as mães quando as filhas se casam; separam-se, mas como as veem muito amadas, consolam-se. Desfolhar, esfrangalhar uma flor mimosa e sem defesa, é que é triste e muito feio, Luiz!
Calou-se a meiga Alice e o irmãozinho então pôs-se de joelhos ajuntando as pétalas da rosa disseminadas na areia; reuniu-as todas, sentou-se na grama do canteiro e tentou uni-las no cálice; baldado esforço: a rosa nunca mais tornaria ao que fora!
— Olha, Luiz, voltou de novo Alice, podias trabalhar anos e anos, que não conseguirias teu intento. Isso que te parece tão simples, reanimar esta singela flor, é impossível. Há, porém, um meio de reparares o teu crime: espeta na terra úmida o galho, que arrancaste e terás na primavera próxima a recompensa do teu arrependimento.
O pequeno e obediente Luiz plantou logo a roseira; por isso na primavera terá flores, que lhe hão de alegrar a vista e a alma trazendo-lhe à lembrança o conselho da irmã:
Faze por conservá-las, nunca por destruí-las!
Coletânea infantil brasileira de 1886, em verso e prosa, de Adelina Lopes Vieira e Júlia Lopes de Almeida, restaurada em português brasileiro moderno a partir do fac-símile de domínio público.
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