Universo da obra
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A esmola
A MEU SOBRINHO HOMERO
Carlinhos ia todo taful naquele domingo à missa. A sua cabecinha loira, encaracolada, redonda como a de um pajem de ópera, mal coberta por um gorro de veludo azul escuro, movia-se garbosamente de um lado para o outro.
Levava as mãos nos bolsos, o riso nos lábios, a alegria no olhar.
O frio começava. Havia pouca gente na rua, apesar de ser dia santificado.
Carlinhos entristecia-se com isso; queria que muita gente lhe notasse o traje; desejava ardentemente que lhe chamassem lindo; era vaidoso, o pequeno, e, coitadinho, tinha só seis anos.
— Tia Laura; dizia ele a uma senhora, que o acompanhava: em vez de irmos à missa, vamos fazer visitas para mostrar o meu vestido novo.
— Iremos depois, filho; descansa.
Na igreja havia poucas devotas. As beatas tinham preferido a missa das oito, e a essa, a das dez, não tinham concorrido, como de costume, as senhoras da aristocracia, que a essa hora dormiam, descansando de um baile da véspera.
Isto de terras pequenas é assim.
Os passos da tia e do sobrinho ressoavam por toda a igreja quase vazia; aqui e ali umas mulheres de mantilha, todas curvadas, contritas, entregavam-se no seu incógnito aos êxtases religiosos... observando o que se passava em redor. A capela estava sombria. Um ar gélido, de infundir tristezas, descia do alto teto amarelecido, e punha tremuras angustiosas no coração de Carlinhos.
Ouviu ele impaciente a missa toda, e deu um grande suspiro de alívio quando um geral borborinho lhe anunciou o fim do sacrifício.
A tia ergueu-se, deu-lhe a mão, e saíram.
Fora jorrava o sol a grande vida de calor e de luz; as árvores de um verde brilhante luziam como esmeraldas; o povo começava a mover-se na rua. Numa esquina tocavam duas crianças pobres, um pequeno e uma menina, ambos descalços, pernas nuas, arroxeadas pelo frio, cobertos com uns farrapos quase inúteis.
A menina abria muito a boca cantando uns versos, enquanto a mão lhe tremia com o arco da rabeca; o menino pendia a cabeça triste para a harpa, onde modulava uns desafinados e incompreendidos queixumes.
Carlinhos foi atraído até ao grupo e parou.
Abriu os olhos muito curioso para esse quadro vulgar. Aquelas criaturinhas, que ali estavam a tremer, seminuas, tentando divertir o público, para que ele depois lhes atirasse uma moeda de cobre, numa compaixão mista de escárnio; aquelas criaturinhas eram pouco mais velhas do que ele!
Perto, junto aos umbrais vermelhos de uma loja de barbeiro, conversavam rindo alguns rapazes, ao verem os esforços da rabequista cantando um lá, que, desgraçadamente, tinha de repetir muitas vezes na canção.
— Olha como lhe incham as veias do pescoço; dizia um.
— Há quantos dias não comerá aquela pequena para chegar a este estado? acrescentava um outro.
— Pancada, leva todos os dias, concluiu um terceiro; são meus vizinhos...
— Têm pais?
— Qual! morreram ambos de febre amarela no Rio. Um napolitano, que ali estava, condoeu-se dos desamparados patrícios e trouxe-os para a província, e agora fá-los ganhar a vida deste modo. À noite, quando se recolhem, se não levam coisa que luza... ai deles! Ao princípio choravam em altos berros, mas hoje parece-me que já estão afeitos à pancada, e nem piam.
— Ora que malandrice! exclamava, bufando de indignação um recém-chegado, apontando com a bengalinha fina para o grupo das infelizes crianças.
A menina com os seus olhos negros fitos no céu azul, as mãos pálidas, magras, movendo-se nervosamente na execução de um alegro, inspirou a Carlinhos sentimentos bem diversos dos que tinham os elegantes da terra, que comentavam ali a sorte dos artistas da rua.
Artistas da rua! É zombeteiramente que falamos deles quase sempre, no entanto como aprenderiam eles a tirar uns sons, embora ingratos, das harpas e dos violinos, se lhes não chorasse na alma um ideal, que é ao mesmo tempo palma de triunfo e coroa de espinhos?
Os olhos do harpista encontraram-se com os de Carlinhos e demoraram-se fitos...
Vibraram o último acorde.
A menina parecia desfalecer e movia os lábios roxeados, estendendo a mãozinha hirta na súplica de uma esmola...
Que ligação misteriosa e doce têm entre si as crianças!... É que as almas dos anjos, ainda orvalhadas do céu, refletem-se mutuamente.
Carlinhos, dentre todos os circunstantes, foi o único que verdadeiramente compreendeu a grande mágoa daqueles desditosos, e, voltando-se para a tia, que conversava banalmente com uma senhora na esquina, disse com os olhos rasos d'água e com a voz comovida:
— Tia Laura, já não quero mostrar o meu vestido novo, vamos para casa. Quero levar estes meninos comigo...
— Para quê, filhinho?! perguntou a atônita senhora.
— Para dar-lhes de comer e de vestir; eles têm fome e frio, minha tia!
A tia anuiu ao pedido e Carlinhos ouviu como desejava, dizerem dele:
— Como é lindo!
Os pequenos artistas foram convidados por Carlinhos a irem todos os dias almoçar e jantar em sua casa, e receberam umas roupinhas agasalhadoras, e uns beijos fraternais.
À noite antes de adormecer perguntou-lhe a tia:
— Então, quem gabou hoje o teu vestido novo?
— Ninguém...
— Não te chamaram lindo nenhuma vez?
— Chamaram.
— Quando?
— Quando eu trouxe comigo os pobrezinhos.
— Vês, filho? é que a verdadeira beleza é a do coração. Não te ensoberbeças com o teu luxo, que isso é miséria. Faze todo o bem que puderes aos que sofrerem; a esmola, dada como tu deste, entre beijos, é mais que linda, meu amor, é santa...
Ao som destas palavras adormeceu Carlinhos com a paz da sua alma branca e pura estampada no rostinho calmo...
Coletânea infantil brasileira de 1886, em verso e prosa, de Adelina Lopes Vieira e Júlia Lopes de Almeida, restaurada em português brasileiro moderno a partir do fac-símile de domínio público.
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