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Contos Infantis em Verso e Prosa

Capítulo 19 · Contos Infantis em Verso e Prosa

XIX - O Retrato da avó

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O retrato da avó

A VALENTIM DE MAGALHÃES JUNIOR

O pequeno Heitor, lindo como os amores, alegre como um gorjeio, lembrou-se um dia de uma aventura galante. Tinha ele então três anos. Estava só, completamente só. A mãe no interior da casa dava ordens a uma criada nova.

Em fraldinha de camisa, com os mimosos pés acetinados nus, e os cabelos soltos, viu pela fresta da porta do quarto o violoncelo encostado numa parede da sala.

Que tentação! Poderia livremente tocar, tanger aquelas cordas, tirando uns sons melodiosos, que fariam chorar de comoção a mãe e receber por isso beijos, aplausos e doces!

Feita esta hipótese não hesitou mais o meu querido Heitor. Viu-se no grande espelho do guarda-vestidos e pensou:

Que era indecente o ir tocar descalço... lá isso era! Oh! mas ali estavam as botas do pai!

Excelente! e Heitor calçou-as. Depois refletiu, e bem, que não estava completo; pôs então no narizinho uns óculos escuros e na cabeça um grande chapéu alto.

Lá se foi o nosso herói aos trambolhões até o instrumento, que, impassível, mudo, parecia esperá-lo.

Esfinge curiosa!

Heitor estendeu a mãozinha gorda e branca para o arco, olhou triunfante para o retrato da avó, única espectadora, e deu começo à sinfonia. Principiou mansamente, depois foi num crescendo orquestral, wagneriano, atordoador, impossível!

Com os olhos fechados apertadamente, movia o corpo entusiasmado, gritando na sua meia-língua: — Muito bem!

Alvoroçada com a bulha, a mãe correu à sala, e, ao ver aquele figurão gracioso só se lembrou de uma coisa: da zanga do marido ao encontrar desafinado o violoncelo.

Cega pelo desespero, correu para o filho tencionando puni-lo.

Vendo-a, a criança assustada apontou para o retrato da avó, desculpando-se assim:

— Vovó pediu!

A boa senhora então comovida, contemplou o retrato da mãe e achou-o tão meigo, tão cheio de cândida expressão, que parecia mesmo dizer-lhe: — Perdoa-lhe! Eu estava a gostar de ouvi-lo.

Contos Infantis em Verso e Prosa

Sinopse

Coletânea infantil brasileira de 1886, em verso e prosa, de Adelina Lopes Vieira e Júlia Lopes de Almeida, restaurada em português brasileiro moderno a partir do fac-símile de domínio público.

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