Universo da obra
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O anginho
AO MEU PRIMINHO MANOEL DA MOTTA CARDOSO
Vestiram-na de branco como a neve,
e cobriam-lhe o corpo feiticeiro
com um véu de gaze transparente e leve.
Sobre as rendas do fofo travesseiro
espalharam-se os seus cabelos de ouro!
Parecia dormir, e que fagueiro,
um sonho a visitava. Ouvia o coro
dos anjos seus irmãos no Paraíso,
a chamá-la; quem sabe? Que tesouro
de amor prometeria aquele riso,
que em seus lábios ficara? Que alvorada
contemplaria? Alberto, com juízo,
andava em volta a olhá-la — Estás calada
há tanto tempo, Lena! Vais-te embora
para o céu, minha irmã? Estás cansada
de brincar só comigo? E quem agora
me fará companhia? Se eu pudesse
ir contigo, irmãzinha! — Oh Deus! implora
a pobre mãe, oh Deus! se ele morresse,
o que me restaria neste mundo?
Não o escutes, Senhor! Filho, anoitece,
vem dormir nos meus braços: tão profundo
é teu amor por mim que me deixavas?
— Oh não, mamã, perdoa; bem do fundo
do coração te adoro. Tu amavas
tanto Lena também, e a morte veio,
deixando-a fria e pálida; choravas,
apertando-a com força contra o seio,
e o Pai do Céu não quis ouvir teu pranto.
Agora, dize, mãe, quem há de, em meio
da noite, ir sossegar a Lena, enquanto
eu te espero a tremer, cheio de medo?
Quem a leva ao pomar, ouvir o canto
do triste sabiá? quem, logo cedo,
vai beijá-la? quem há de, coitadinha,
ser mãe de minha irmã?! Dize, em segredo,
o que a espera no céu? Vai tão sozinha,
e eu tenho tanto dó, tanta saudade!
— Helena, a minha angélica filhinha,
(forças, meu Deus!) entrou na Eternidade,
levada pelos anjos, que, voando,
espargiam jasmins. A Caridade
ia a seu lado, uns cantos entoando
de suavíssima e plácida harmonia,
e uma estrela sem par ia guiando
o cortejo de um anjo, que subia
entre lumes, cantares e fulgores...
— Mas lá não terá mãe! — Oh! sim, Maria,
a mãe de Deus, dos bons e pecadores,
a que, em meio à procela, ouve o vagido
da infância desvalida e calma as dores.
Lena tem melhor mãe.
— Melhor?! Duvido.
Coletânea infantil brasileira de 1886, em verso e prosa, de Adelina Lopes Vieira e Júlia Lopes de Almeida, restaurada em português brasileiro moderno a partir do fac-símile de domínio público.
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