Universo da obra
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O palhaço
Saltava alegremente um gafanhoto de galho em galho. Pisava aqui uma rosa, ali uma dália, acolá uma fúcsia, sem que por isso as magoasse, dizendo-lhes uns segredos risonhos e desempenhando maravilhosamente o papel cômico de que o encarregara a natureza, brilhante diretora desse esplêndido cenário.
Saltava, pois, todo lépido e satisfeito o bom do gafanhoto, quando um menino o apanhou. O animalzinho não fizera crime algum e foi preso! Preso e amarrado com longos fios de linha, que lhe faziam doer o corpo seco e delgado...
O menino brincava e respondia com uma gargalhada a cada salto, que o pobre gafanhoto dava por sentir-se machucado e doente... Infeliz inseto! Cansado de sofrer fez um último esforço para livrar-se daquela bárbara prisão. Sim, ele livrou-se, mas lá deixou presa na linha uma das suas pernas!... O menino ia de novo apanhá-lo quando se sentiu agarrado pelas mãos da mãe...
A boa senhora com os olhos cheios de lágrimas repreendeu-o, fazendo-lhe ver que tratar mal os animais é muito feio e prova mau coração. O filho arrependido abraçou-a jurando que nunca mais praticaria semelhante coisa.
E o gafanhoto?
Voou, mas cansado, caiu.
Riram-se muito as rosas, as dálias e os jasmins julgando-o a brincar. Que desastrado! mas como tem graça, e que alegria a sua!
— Eia! levanta-te, palhaço, então!?
Mas o palhaço não se levantou. Arrastou-se a custo e embrenhou-se num bosque de violetas, aterrorizado e agonizante. Ao verem-no chegar cochicharam entre si as modestas florinhas: ele aí vem, o truão, preparemos as nossas risadas!
E levantavam curiosas as cabecinhas gentis.
— Desta vez não brinco, disse-lhes ele, a elas, que o ouviam com interesse: venho morrer entre vós, minhas amigas!
Contou-lhes a sua história triste. Quando acabou as violetas choravam e ele então... expirou, mas expirou satisfeito; porque deixava quem o pranteasse. Dói-nos fazer sofrer, mas quem não desejará ser chorado?
Ninguém...
Meus amiguinhos, os palhaços, que vemos nos circos, que nos fazem rir com as suas caretas parvas, suas cambalhotas grotescas e seus ditos de um baixo cômico irresistível para a populaça ignorante das galerias, muitas vezes, como o infeliz inseto, sofrem, e a cada gargalhada que seus lábios desfolham, sentem no coração uma dor pungente. Muitas vezes também nós, como as flores ao inseto, os aplaudimos por vê-los cair bem, quando eles, se caíram... foi por cansados!
Não há nada mais triste do que ter por obrigação fazer rir...
Mas... o que é feito do gafanhoto? O seu cadáver lá ficou como uma folha murcha entre a ramagem fresca e perfumada do violetal.
Coletânea infantil brasileira de 1886, em verso e prosa, de Adelina Lopes Vieira e Júlia Lopes de Almeida, restaurada em português brasileiro moderno a partir do fac-símile de domínio público.
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