Universo da obra
Universo da obra
D. Formiga
Contam coisas admiráveis, estupendas, enormes, de umas certas pretinhas muito laboriosas e pequenas, que vivem sob a terra, que pisamos, e que valem muitas vezes mais do que qualquer de nós!
Quando eu era criança gostava extraordinariamente de vê-las na sua lida. Ficava-me esquecida, de bruços na grama, deitando no caminho, um estreito carreirinho, fragmentos de uma folha, que as pobrezinhas levavam com imenso trabalho para o seu recanto obscuro.
Que vai e vem, que saracolear gracioso, que cinturinha apertada, que delicadeza, que astúcia e que exemplo!
Tanto observei, tanto, que um dia pareceu-me descobrir o viver íntimo de uma dessas senhoras. Exultei de júbilo! Penetrara no mínimo segredo da natureza.
Dei bravos a mim mesma!
A história é simples e ali vai:
Vivia num buraquinho, feito com paciência e esforço, a Sra. D. Formiga e seus três filhos, muito inteligentes e graciosos.
Evidentemente D. Formiga era viúva, o que fazia dó, pois para sustentar-se e aos filhos arcava a boa da senhora com enorme trabalheira!
Mas que paz, que serenidade, que idílio, havia no interior daquele buraquinho tão pequeno! Ali vivia uma família amorosa, dedicada, terna, digna de todas as bênçãos, na mais profunda amizade, na mais perfeita harmonia!
Cabia naquele grão de areia a verdadeira ventura, o amor!
D. Formiga era excelente mãe e fora, com certeza, esposa amante e amada.
Era honesta e infatigável, um exemplo de boa dona de casa, um encanto! Por isso a sua vida escorria doce, doce como o mel de um favo.
Mas, ai! que não há bem que sempre dure!
Numa manhã de verão, ardente e clara, quando as cigarras cantavam e as flores esmoreciam, quis o filho mais novo da boa D. Formiga ir passear ao sol!
E se bem o quis melhor o fez. Subiu alegremente pela ribanceira, espreitou para um lado, para o outro, deu umas voltas distraído, orientou-se, e partiu.
Quando D. Formiga deu pela falta do seu querido amor, o filho das suas entranhas, a estrela da sua alma, o último legado do seu perdido esposo, chamou os mais velhitos, despediu-se lacrimosa, recomendou-lhes a casa e foi-se em busca da estouvada criança.
Infeliz! debalde a procurou.
Correu campos, caminhos; penetrou em muitos formigueiros, indagou dos compadres, das vizinhas, de conhecidos e desconhecidos... chorou, chorou, chorou, e nenhuma voz, nenhuma, respondia à sua!
Ai mísera! O dia declinou e vinha a noite!
D. Formiga rolava desesperada no chão em convulsões de dor. Juntaram-se as amigas, e os dois filhos aflitos rezavam pelo irmão. De repente estremeceram de prazer e quedaram-se imóveis. Ouviram uns passos conhecidos e divisaram no caminho um vulto informe, que se arrastava a custo...
Quem será? quem não será? questionavam os indiferentes.
D. Formiga cessara de contorcer-se e com os filhos prestava atenção...
— É um monstro! dizia aterrorizada uma velha vizinha, encolhida e medrosa...
— É ele, dizia o palpitante coração da mãe.
Como são apurados os ouvidos e a vista de quem ama!
Vagarosamente o vulto aproximou-se do entristecido grupo.
Era ele, era, que vinha todo coberto com uma grande folha, pesada demais, para as suas delicadas forças.
Que alegria, que ventura imensa! A mãe em vez de ralhos dava-lhe beijos, os irmãozinhos dançaram de alegria e as amigas perguntaram-lhe então por que se demorara tanto.
Pelos gestos compreendi que a resposta era esta:
Ia muito curioso pelo meu caminho quando encontrei esta folha tão rica e saborosa, que me deu na vontade trazê-la à minha mãe. Dá-nos para viver três dias seguramente.
Levei muito tempo a arrancá-la da haste. Deu-me um trabalho insano! mas jurei trazê-la e trouxe-a! Não me arrependo, embora esteja morto de fadiga! Estou na idade de trabalhar para a família... minha mãezinha que me perdoe o susto, e que me aceite a intenção!
Nessa noite teve D. Formiga deliciosos sonhos! No dia imediato convidou as amigas para um baile.
Daí por diante ficava-se ela descansada em casa, na doce serenidade do seu lar, e iam então os filhos trabalhar no campo.
Abençoados sejam, eles e ela. Ela que os ensinou, eles que aprenderam, e que demonstram que até no mais obscuro, no mais pequenino lugar, quer Deus que se aninhe isso que os bons, honestos, perseverantes e ativos podem alcançar — a felicidade.
Coletânea infantil brasileira de 1886, em verso e prosa, de Adelina Lopes Vieira e Júlia Lopes de Almeida, restaurada em português brasileiro moderno a partir do fac-símile de domínio público.
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