Universo da obra
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Os morangos
Maria era uma brutinha, filha de um jardineiro. Teria os seus oito anos e passava o dia a ouvir repreensões, porque o pai não lhe consentia tocar nos canteiros, vedando-lhe as plantas todas; e ela, como criança, coitadinha, sentia tentações gulosas ao ver os pessegueiros vergados ao peso da fruta, já amarela, carnuda, apetitosa... ao ver os cachos de uvas, negras, vidradas, pendentes dentre a folhagem de um verde claro e macio da pequena parreira, e os grupos dourados das ameixas, e as maçãs vermelhas e lustrosas... E tinha de olhar de longe para tudo aquilo, que lhe fazia crescer água na boca, porque o pomar não era grande, e o patrão, conforme afiançava o jardineiro, contava até... as amoras!
Assim ia vivendo Maria, resignando-se a comer unicamente a fruta abandonada por incapaz de aparecer na mesa do dono, ou por ter dado abrigo a algum bichinho importuno, ou por ter caído no chão, batida pelo vento ou pela chuva durante a noite, o que fazia com que Maria não temesse e até desejasse as tempestades.
Mas houve um tempo de prolongada calma.
As noites eram tépidas, claras; nem a mais leve aragem agitava a ramaria espessa; os dias quentes, sazonadores de quanta fruta houvesse; as manhãs esplêndidas...
Ai! foi numa manhã que a pobre Maria se ia perdendo, levada pelo pecado da gula!...
Andava ela pelo pomar, vendo o pai colher morangos a mandado do patrão, que ali estava em pé, como um polícia, o maldito do homem!
Ela tinha-lhe medo, um medo de fazer tremer; por isso quando ele lhe disse: — Anda pequena, ajuda teu pai — ela curvou-se imediatamente e com as suas mãozinhas trigueiras ia afastando a folhagem orvalhada e fresca para colher os morangos, vermelhos como os seus lábios, úmidos como os seus olhos. Desta vez, pensava ela consigo, eu como um morango, novo, bem madurinho e gostoso... e dava estalinhos com a língua e lambia os beiços.
Cuidava ela que o patrão recompensaria o seu trabalho. Pois sim! olha quem! Ele sentara-se perto, mandara vir um prato e entretinha-se em armar em pirâmide os morangos, que tanto ela como o pai colhiam. Pouco a pouco foi perdendo a esperança; tateava a folhagem e ao pousar os dedinhos numa das frutinhas cobiçadas, engolia em seco e piscava os olhos.
Quando viu que de todo era loucura esperar a caridade desse senhor tão mesquinho, passou, como gato por brasas, as mãos por um morango maduro, cobriu-o mais com as folhas para que não fosse visto e levantando-se pôs-se a pensar de que modo poderia, durante o dia, vir buscá-lo.
O patrão armara a pirâmide, mas de repente disse ao jardineiro: — Homem, veja lá se me arranja mais um para arrematar isto aqui em cima. O jardineiro esquadrinhou, mas qual! daquele lado já não havia nada. Passou para o da filha. Maria estremeceu. Dali a pouco o velho levantava-se triunfante — tinha apanhado o último morango, e que belo que este era! Maria viu-o passar para as mãos do patrão, pensando consigo:
— Que desaforo! rouba-me a minha fruta.
Momentos depois estava sozinha naquele lugar.
O amo mandara o prato para dentro e saíra para a rua; o pai fora regar umas roseiras do lado oposto àquele.
Maria caminhou: subiu audaz os dois degraus do terraço, sombreado por um toldo riscado, e penetrou numa bela sala de jantar cheia de aparadores, porcelanas finas e umas estátuas alegres de terracota; mas o que lhe importavam a ela as estátuas coroadas e risonhas, e as begônias dos grandes vasos com figuras em relevo, e as porcelanas finas? Ela entrara atrás dos morangos, que ali estavam sobre a mesa, ao alcance da mão, que lhe sorriam e que a tentavam!
Maria olhou à roda: a casa estava silenciosa... estendeu o braço com precaução e, delicadamente, pôs a mão sobre o prato; tirou o seu morango, comeu-o todo de uma vez... Que delícia!
De novo estendeu a mão, mas, sentindo um leve rumor, retirou-a com precipitação; os morangos então desabaram, espalharam-se pela mesa e pelo chão, como um colar de corais, a que uma criança caprichosa tivesse arrebentado o fio.
Maria, trêmula, olhou para trás e viu a filha mais velha do amo, Lúcia, menina franzina, delicada como um botão de rosa, pálida como um raio da lua.
A infeliz Maria viu-se perdida, sentiu-se corada de vergonha. Lúcia ia falar, quando entrou sua mãe, uma senhora severa, com um lindo roupão de cauda todo enfeitado de rendas...
— Que é isso?! inquiriu ela, franzindo as sobrancelhas, e fixando Maria.
— Quem ousou tocar nos meus morangos? tu?!
— Fui eu, minha mãe; respondeu a vozinha doce de Lúcia; perdoe-me, sim? E, fazendo uma momice graciosa, deu-lhe dois beijos nas mãos.
— Perdoo-te; mas olha que o que tu fizeste não é bonito.
Por muito tempo Lúcia repartiu com Maria o seu quinhão de frutas; mas agora, que ela já não tem pomar, nem jardim, pois que seu pai faliu e tudo entregou aos credores, é Maria quem lhe leva na estação das frutas, hoje que o velho jardineiro é possuidor de uma pequena propriedade, lindas pirâmides de morangos, vermelhos como os seus lábios, doces como os seus amores.
Coletânea infantil brasileira de 1886, em verso e prosa, de Adelina Lopes Vieira e Júlia Lopes de Almeida, restaurada em português brasileiro moderno a partir do fac-símile de domínio público.
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