Universo da obra
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O ninho da toutinegra
A MINHA PRIMINHA ANGELINA VIEIRA
Laurinha andava cansada
de correr pelo pomar,
atrás de azul e dourada
borboleta;
ficou afinal sentada
tão quieta
a travessa feiticeira!
embaixo de uma romeira
a cismar...
Nem podia respirar.
Talvez Laurinha quisesse
apanhar uma romã
e meditando escolhesse
caladinha
a que mais lhe apetecesse.
Ó Laurinha!
Não hesites, colhe aquela,
a mais vermelha e mais bela,
que amanhã
colhe-a talvez a mamã.
Laurinha nem se movia,
olhava com fixidez
para o mais alto raminho
e pensava:
Como é lindo aquele ninho!
Gorjeava
bem perto uma toutinegra,
ave que os bosques alegra
tanta vez!
Mãe da ninhada, talvez.
Nisto a mamã da janela:
— Laura, vem cá, minha flor,
chegou a prima Arabella,
quer beijar-te.
Laura diz, com voz singela:
— Vou deixar-te,
mas não penses que te esqueço,
passarinho; se adormeço,
sonho, amor,
com teu ninho encantador.
No mesmo ramo pousado
espera, que eu hei de vir
trazer-te o melhor bocado
do almoço.
Em teu ninho perfumado,
que alvoroço!
Que imenso contentamento!
Nunca mais um só lamento
se há de ouvir
não vás agora... fugir.
Laura subiu. Noite adiante
um medonho furacão
com seu açoite cortante
pôs em terra,
o ninho. À mãe cruciante
dor aterra;
voa tresloucada, a esmo,
até que teve o vento mesmo
compaixão
arremessando-a ao chão.
E foi ao pé dos filhinhos
que a toutinegra morreu.
Entreabriram os biquinhos
num desejo
de expirarem unidinhos
num só beijo,
talvez! As asas de uma ave
nos mostram quanto é suave
lá no céu
o amor dos anjos. Correu,
Laurinha, toda contente
depois do almoço ao pomar;
levava um bolo excelente
entre flores!
Imaginai, vendo em frente
seus amores
inertes, inanimados,
a dor, a mágoa, os cuidados,
o chorar
dessa formosa, sem par!
Guardou o ninho, lembrança
da alegria fugitiva
da sua afeição primeira,
aquela loira criança!
e à sombra da alta romeira
às aves deu sepultura.
Sobre essa campa cultiva
a flor da tristeza, a escura
saudade roxa. Saudosa,
esquece as mágoas, que és rosa,
encantada jardineira!
Coletânea infantil brasileira de 1886, em verso e prosa, de Adelina Lopes Vieira e Júlia Lopes de Almeida, restaurada em português brasileiro moderno a partir do fac-símile de domínio público.
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