Universo da obra
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A ingratidão
A MARTIM
— Olha, meu queridinho, meu gentil pequeno, tiveram a barbaridade de dar o teu nome... aos ursos!
Sei que isso te desgosta, mas vou contar-te um fato, que se deu com um desses animais, fato que faz honra ao teu homônimo.
Ele é feio e bruto como a coisa mais feia e mais bruta, que imaginar-se possa; mas não faz mal, porque é bom, e bem sabes que a verdadeira beleza não é a da forma, é a dos sentimentos.
Não há nada no mundo que valha a bondade. Vês? Nada!
Quando fores homem, tu, que terás um belo caráter, pois vais guiado pela bondosa mão do nosso santo amigo, quando fores homem, repito, compreenderás quanta razão tem a tua amiguinha em te dizer isto:
Ser bom é ser feliz!
Às vezes a bondade parece esmagar-nos o coração numa agonia longa e incompreendida; mas depois que de consolos! que de suavidade para a nossa consciência!
Ouve-me agora o conto, em que a bondade não tem recompensa imediata, mas que te não cansará, porque é ainda mais pequeno do que tu.
Entendeu um cigano indolente ganhar a vida à custa dos trabalhos de um pobre urso, grande e imundo.
Arrastava-o nas ruas, fazia-o dançar, mover-se servilmente à sua voz, deleitar a turba dos garotos, que se ria muito, mas que acabava quase sempre por apedrejá-lo.
Uma noite deixou-se o boêmio cair na estrada. Com a cabeça deitada nos braços entrançados, a barriga para o ar, a boca aberta e as pernas estiradas, dormia a sono solto.
O urso contemplava-o silencioso. Na própria sombra destacava-se o seu grande vulto escuro.
Ele estava ali como uma sentinela conscienciosa e firme.
Ouvindo o rumor surdo da vegetação, respirando o acre aroma das plantas, sentia saudades infinitas do seu tempo de outrora, e lembrava-se talvez o bruto, do dia em que esse, que aí dormia a seus pés, o arrancara do seu país, rasgando-lhe as carnes nos mais rudes tratos!
E continuava a velar o sono do seu algoz, de quem podia livrar-se, readquirindo de um instante para o outro a felicidade perdida... Sim, ele voltaria às grutas sombrias, sem penas nem cuidados, dormiria as sestas sob as árvores nodosas, cheias de ninhos e de flores, rolaria pelos gramados das suas belas planícies, constituiria uma família sua, zelando ao redor do rochedo os filhos, que lá dentro sorvessem sequiosos o leite materno...
Pensava em tudo isso, e quedou-se imóvel, absorto ao pé do dono, que, ao acordar, já ao romper da aurora, bateu-lhe, porque ele, o maldito, arrebentara a corda, que o prendia!
Às dores da pancada, o pobre urso, fixando no boêmio um olhar vazio de expressão, disse consigo:
O mais ingrato dos animais é com certeza o homem.
Coletânea infantil brasileira de 1886, em verso e prosa, de Adelina Lopes Vieira e Júlia Lopes de Almeida, restaurada em português brasileiro moderno a partir do fac-símile de domínio público.
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