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Contos Infantis em Verso e Prosa

Capítulo 25 · Contos Infantis em Verso e Prosa

XXV - O Correio

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O correio

Quando eu a vi pela primeira vez, ela era uma criança, branca como as penas das garças e loira como os raios do sol.

Estou a vê-la. Meu espírito vai buscá-la àquele tempo do passado e mostra-ma tal e qual.

Era uma borboletinha alegremente louca; corria por entre as plantas do jardim colhendo aqui e ali folhas para preparar um bercinho à sua nenê, que nele ficava atufada em rendas, com os olhos fixos para a maior claridade, sempre com o mesmo sorriso e a mesma paz no rostinho redondo e corado, como uma verdadeira imagem!

Parece-me ouvir ainda o eco das suntuosas festas, que ela fazia no seu palácio, um dos mais belos canteiros do jardim. A alcatifa era esmeraldina, flácida e fresca; as paredes adornadas de pérolas, os jasmins; e de coralinas, as begônias; pelo chão alguma fada boa espalhara do seu cofre encantado miríades de ametistas, as violetas; e de brilhantes, o orvalho; por lustre tinha simplesmente o sol e por abóbada, o infinito.

Nem o palácio podia ser mais grandioso, nem a dona mais pequena.

Mas aquela pequenez era tão cheia de belezas e de encantos!

Ia tão longe o olhar daqueles olhos ingênuos, eram tão doces as carícias daquelas mãos redondinhas, que se tinha vontade de aninhar um beijo em cada uma das covinhas, que lhe marcavam os dedos.

As amigas, eram muitas e amavam-na loucamente.

Um dia dava-lhes ela um baile, em que se dançavam desde as mais cerimoniosas quadrilhas até ao mais alegre e ruidoso cotilhão.

As mamãs levavam as suas filhinhas e divertiam-se muito.

Outro dia organizava um concerto, em que tomavam todas parte, formando coros acompanhadas por uma orquestra de passarinhos escondidos na ramada; outras vezes improvisava saraus literários, em que se recitavam monólogos e diálogos, cômicos, trágicos, fantásticos, impossíveis; finalmente, dava banquetes, em que a originalidade ia ao ponto de servirem-se confeitos em pétalas de rosa e licor em cálices de açucenas!

Ai, quantas fantasias ferviam sempre naquela cabecinha de criança!

Da sua imaginação cintilante caíam as ideias bonitas como se fossem pérolas de um rosário, a que por capricho desatassem o fio.

De tudo havia na sua sociedade, viva e inocente, e tudo era previsto, arranjado, feito por ela naquele pequeno mundo!

O dia em que eu a vi pela primeira vez, foi uma manhã de maio, manhã azul e transparente como a sua alma infantil.

Eu era portadora de uma boneca, que lhe mandavam, mas, antes de entregar-lha, estive oculta por detrás de uns arbustos vendo-a brincar.

Bem em frente do meu esconderijo estava a estação do correio, porque ela entretinha uma grande correspondência com as suas amigas. O edifício era um pé de murta, em cujos galhos atavam os bilhetinhos.

Às vezes parecia ver-se ali um bando de borboletas multicores descansando de uma imigração longínqua, outras a viração fazia-as ondular, como se adejassem febris sem desprenderem para longe o voo, e ficavam trêmulas até que viessem umas mãozinhas travessas cortar-lhes o retrós.

Nesse dia, porém, em vez de atar ao arbusto uma das suas cartas pendurou-a ao pescoço de uma pombinha branca, segredou-lhe qualquer coisa, beijou-lhe a cabecinha e deixou-a partir.

A ave, livre, elevou-se no ar, e em seu voo liso e calmo, atravessando o espaço, desprendeu de si a delicada mensagem, o bilhetinho azul, que, por um acaso caprichoso e feliz, veio cair junto a mim.

Levantei-o e abri-o. Não foi uma indiscrição e sim uma curiosidade. Com algum trabalho pude decifrar as adoráveis garatujas, que diziam assim:

Meu querido Pai do Céu

Vivo triste porque todas as minhas bonecas estão quebradas e a mamã já me disse que me não dá mais nenhuma!

A Lúcia não tem braços, a Matilde não tem olhos, e Anninha já não tem cabeleira! Como o Pai do Céu é bom, espero que me mande hoje sem falta uma filhinha nova. Vou preparar-lhe um bercinho.

Adeus, queira receber muitas lembranças da sua amiga,

Nênê.

A carta tinha destino mais elevado, por isso ela mudara de correio.

Vi-a ainda por algum tempo no jardim.

Quando se retirou, alguém veio por entre os maciços de verdura e deitou no bercinho, que ela deixara preparado, uma gentil e loira boneca.

No peito levava um bilhetinho azul, em que o bom Pai do Céu mandava um beijo e a bênção à mãe daquela filha!

Contos Infantis em Verso e Prosa

Sinopse

Coletânea infantil brasileira de 1886, em verso e prosa, de Adelina Lopes Vieira e Júlia Lopes de Almeida, restaurada em português brasileiro moderno a partir do fac-símile de domínio público.

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