Universo da obra
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As duas fadas
À MINHA SOBRINHA ADELINA
Uma corrente de indefinível doçura prende à velhice a infância; como que se refletem um no outro os dois crepúsculos: o que precede o dia e o que precede a noite.
Ao lado de uma velhinha engilhada e trêmula brilha quase sempre a imagem radiosa de uma criança.
Bendito seja Deus, que junto a tudo que há de mais triste, pôs tudo o que há de mais belo!
Por isso nos túmulos cantam rouxinóis, e desabrocham rosas, e por sobre as águas mortas das lagoas insalubres nascem, cheios de candidez, os brancos nenúfares.
Conheci uma velha muito feia, quase cega e trêmula, mas que atraía as crianças, como a flor da madressilva as abelhas. Sabia muitas histórias de coisas encantadas, onde brilhavam numa cintilação esplendorosa rainhas cobertas de brilhantes, reis em tronos de cristal iluminados por focos de luz elétrica; pajens louros, vestidos de setim, cantando amores sob os balcões floridos; fadas cercadas de nuvens; mulheres brancas, cismadoras, aéreas, que surgiam à meia-noite inundadas de luar, dos perfumosos cálices das lácteas açucenas e voavam para as estrelas embalsamando o ar...
Era a essência da flor divinizada!
A avozinha, como lhe chamavam todos, sabia, pois, muitas coisas, e contava-as aos netinhos, que a ouviam religiosamente.
Às vezes o conto descaía do predileto tom fantástico; os olhos da avozinha brilhavam mais e a voz esmorecia até ao suspirar de um ah!
Seriam saudades?
As crianças não o indagavam, contentavam-se com dizer:
— A história hoje não foi tão bonita!
Davam-lhe as boas-noites e um beijo e iam-se embora.
Ela ficava então silenciosa, com a cabeça pendida e os olhos apagados. Contar histórias era recordar a mocidade, direta ou indiretamente; reverdecer na alma a gloriosa flor azul dos seus vinte anos; folhear cheia de amor, cheia de carinho, as páginas soltas de toda a sua vida, penetrar em um túmulo iluminado para beijar o seu querido morto, o passado.
E é por isso que as velhas gostam de contar histórias, e de inventar lendas!
Têm uma satisfação íntima e egoísta, de filtrarem na alma das criancinhas o néctar das suas venturas e de vê-las chorar as suas grandes tristezas.
Uma noite a avozinha contou às adoradas netas esta historinha:
— Meus amores.
Nasceram no mesmo dia duas fadas. Uma era linda, linda, a outra era feia, feia!
— Desgraçada de ti, dizia a primeira, que não és formosa, como eu! A mim dará a terra os seus mais belos cantos, serei a suprema ventura, o supremo ideal. E tu?!
— Eu, respondeu a segunda com um sorriso angélico, embelezarei a alma daqueles a quem não tiveres embelezado o rosto. Lembrar-me-ei dos que esqueceres; e se esperas merecer os louvores da terra, eu, que te bendigo, espero merecer os louvores do céu!
— Enganas-te! Tu não serás louvada, serás ignorada e incompreendida, isso sim!
Conversavam deste modo as duas fadas, quando lhes apareceu um anjo aureolado de estrelas, que, abrindo sobre elas as brancas asas, disse à que falara por último:
— Chamar-te-ás — Beleza — e reinarás como verdadeira soberana. Será juncado de corações o teu caminho, pisá-los-ás sem dó! Serás amada, mas não farás felizes! Os teus dons serão de pouca duração; murcharão como as flores, apagar-se-ão com a luz. Serás fictícia e breve, vaidosa e fria, mas brilhante e amada. O teu reino é poderoso. Vai!
— Agora tu, disse à outra fada o anjo, chamar-te-ás — Bondade. — Serás suave e meiga.
Fortalecerás os frágeis, ampararás os desgraçados. O teu dom não terá a vida das flores, nem as intermitências da luz; brilhará sempre!
Ocultar-te-ás modesta e serás, apesar de humilde, a mais nobre e a melhor das fadas. Vai!
Desde então andam as duas fadas pelo mundo a espargir seus dons. Raras vezes se encontram à beira do mesmo berço, mas quando isso acontece, como fazem feliz a criança sua protegida!
Pisando corações numa indiferença majestosa vive a Beleza, ouvindo todos os louvores, todos os hinos da terra; mas do céu, é à Bondade que descem os raios das estrelas, e as bênçãos do Senhor!
Coletânea infantil brasileira de 1886, em verso e prosa, de Adelina Lopes Vieira e Júlia Lopes de Almeida, restaurada em português brasileiro moderno a partir do fac-símile de domínio público.
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