Universo da obra
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O Vestido de Bertha
À MINHA PRIMINHA DINORAH PALHA
Tinha Bertha um vestido cor-de-rosa,
que ficava a matar
no seu corpo gentil. Toda garbosa
quando ia passear,
parecia dizer: — Não sou formosa?
Quem não me há de amar?
Uma manhã de abril a linda Bertha
a rir se levantou,
e a contemplar pela janela aberta
o campo e o céu ficou.
Se eu fosse colher flores?... estou certa
que gostaria... Vou.
Pôs um chapéu de palha desabado,
que o rosto encantador
resguardaria de algum raio ousado
do sol abrasador,
e ei-la a correr, risonha, pelo prado
de uma a outra flor.
Foi andando, andando, distraída
a rir, sempre a brincar,
até encontrar chorando, dolorida,
a filha do alveitar,
que fugira de casa. — Margarida,
por que estás a chorar?
No campo há tanta flor, há tantos ninhos;
é tão azul o céu!
Tão doce o gorjear dos passarinhos!
E choras, anjo meu!
Dize, o que tens? Não queres meus carinhos,
mázita, que fiz eu?
— Eu tenho uma tal dor, um tal desgosto!
— Conta-me tudo, sim?
— Vai batizar-se a Rosa hoje ao sol posto,
e eu, pobre de mim,
não posso ir. — Por quê? levanta o rosto
e fala, Guida... assim.
— No meu lindo vestido azul-marinho,
que era mesmo um primor!
deu a traça. Eu que o tinha guardadinho
com tanto, tanto amor!
Sonhei com ele e logo bem cedinho
fui desdobrá-lo... horror!!
Deixou de ser vestido, é uma renda!
Vê, que bicho fatal!
Fiquei absorta ante a desgraça horrenda,
num martírio infernal!
Vão todos para a festa: eu, dor tremenda!
fico só... por meu mal!
— Não ficas, Guida, não, sou tua amiga,
e tenho coração.
Espera aqui que eu volte, rapariga,
que não será em vão.
É tão boa a mamãe! talvez consiga
trazer-te... um fortunão!
Chegou a casa arfando pressurosa,
cansada de correr;
consultou a mamãe, que jubilosa
a beijou a valer,
e levou o vestido cor-de-rosa,
sem pena de o perder.
— Aqui tens um vestido, minha vida,
mais bonito e melhor.
É todo seda e rendas. Margarida,
vais ficar uma flor!
Mas choras mais? por quê? Dize querida,
não gostas desta cor?
— Ai, Bertha! Como és boa e caridosa,
como eu te devo amar!
À minha irmã, à pequenina Rosa,
que se vai batizar,
hei de ensinar teu nome, flor mimosa.
Oh! deixa-me chorar!
Este pranto consola!... — Mas, Guidinha,
exageras, bem vês;
não achas que é melhor ver-te alegrinha,
do que ter dois ou três
vestidos mais? Bem, quero-te a rainha
da festa... — Irás?... — Talvez.
Coletânea infantil brasileira de 1886, em verso e prosa, de Adelina Lopes Vieira e Júlia Lopes de Almeida, restaurada em português brasileiro moderno a partir do fac-símile de domínio público.
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