Universo da obra
Universo da obra
A Costureira
Passa todos os dias na minha rua uma pobre costureira, que me faz lembrar uma boneca, que tive.
Quando a vejo subir a ladeira, de cestinha no braço, a andar ligeira, a pálida filha da pobreza honesta, passando sem levantar os olhos para as janelas, sem ver mesmo os que andam a seu lado, como se fosse absorvida nos seus pensamentos, recordo-me imediatamente da mais modesta das minhas antigas companheiras da infância, da mais simpática, da mais pobre e da mais feia talvez.
A gente não se esquece nunca do tempo saudoso de intimidade com esses pequenos entes a quem emprestamos uma alma e com ela um gênio e um modo de viver; e é por isso que a pobre operária me traz à memória a minha humilde boneca, que era um exemplo, um verdadeiro símbolo de modéstia, tanto que logo à primeira vista os menos investigadores lhe notariam essa qualidade, que transparecia no modo de vestir, de andar, de falar, de ser boa, em tudo.
É por isso que me parece vê-la em ponto grande todas as manhãs e todas as tardes, em que vai para a oficina, ou dela volta, a humilde aprendiz de modista.
Mal sabe ela, a preocupada rapariga, que ao passar por diante da minha casa, imaginando provavelmente a felicidade que desfrutam as donas daqueles vestidos de veludo e de setim, obra das suas mãos, que nesse mesmo instante a segue e a acompanha um olhar de mãe, que revê nela a filha morta!
E como não ser assim se ela é tal e qual?
Baixinha, cinturinha fina, cabelos negros, lisos, bem entrançados, vestido de chita claro, simples; avental preto, toda ela sem um enfeite, sem uma fita, sem uma flor sequer.
Nunca indaguei, nem indago, qual o nome da que hoje me retrata a imagem da minha Julieta, porque devo dizer que a minha boneca chamava-se Julieta, nome que não lhe ia muito bem por ter ela antes um tipo burguês, o de uma verdadeira dona de casa, asseada, trabalhadeira, ativa, que nunca, estou certa, idealizou um Romeu; por isso o caráter da minha criaturinha se conservou sempre com o perfume infantil, o perfume religioso, caseiro, que a acompanhou até ao fim.
Era tão boa e generosa a minha Julieta, que não me posso furtar ao desejo de relatar um dos episódios de sua vida.
Ei-lo:
Uma noite passeava eu na tentadora rua do Ouvidor. Na vidraça de uma loja havia uma exposição atraente; a mais importante das exposições que se podem oferecer às crianças. Era uma sociedade de senhoras bonitas e de bebês adoráveis, brancas como flocos de neve e loiras como as estrelas. Oh! que espetáculo! Principiei a passear os olhos pelos rostos de umas e outras, cada qual mais belo. Era embaraçosa a escolha, mas por fim toda a minha atenção fixou-se numa, na mais elegante, na que me parecia ser mais alva e ter os cabelos ainda mais dourados.
Sobre o vestido de setim lilás esbatia-se a luz languidamente, pondo uns reflexos pálidos no rosto daquela gentil princesa, que mesmo por isso parecia mais aristocrata do que suas irmãs. Os braços, pendendo-lhe indolentemente, deixavam descoberto o corpo elegantíssimo.
O cintilar de um colar de ametistas, que ostentava deitado entre rendas finas, em volta do pescoço arredondado e branco, acentuava ainda mais a placidez do seu olhar suave e doce.
Com uma das mãos entre as dobras de um lencinho rendado, pegava num mimoso raminho de violetas, e como que se adivinhava que em torno dela havia uma atmosfera perfumada com as mais delicadas essências do Oriente.
Era toda ela um portento, desde os bem concertados anéis da sua cabeleira, até aos sapatinhos de setim bordados.
Tanto me fascinei por aquela beleza, que ma compraram.
Levei-a triunfante e contente. Ao pé dela Julieta parecia uma mendiga, pelo que passou desde logo, por muito favor, à categoria de criada da Exma. Sra. D. Clarisse.
Foi nessa transformação que mais se revelou a meiga docilidade da pobre pequena; porque na verdade era mesmo preciso ser muito dócil e muito paciente para servir a uma senhora tão exigente e orgulhosa, como era a minha nova predileta.
Clarisse era nervosa, cheia de pequeninos caprichos. Como soberana, que era no salão, queria que todos a atendessem e a servissem antes que a ninguém mais, com uma prontidão frenética. Gostava de fazer muitas toilettes no dia, de passear, de ir a espetáculos, de valsar...
Ah! ela era louca pela valsa! Numa noite de baile havia em casa uma verdadeira revolução!
Então é que a pobre Julieta andava em papos de aranha; era Julieta para aqui, Julieta para ali, Julieta para acolá!
Queria que a penteasse, que lhe desse o pó de arroz, o vidrinho de essência, tudo em suma, mas entremeado de ralhos, porque a camareira era desajeitada, falta de habilidade e de delicadeza!
Pedia o espelho para ver o penteado e batia raivosa com os pezinhos por achar que lhe tinha alisado muito os cabelos; encolerizava-se, chorava até que a frisasse de novo!
Depois pedia a um tempo: as luvas, o leque, as flores, as joias, o lenço, a capa, a mantilha, tudo!
A criada corria como tonta de um lado para o outro, obedecendo cegamente para só descansar quando, depois de sair a Sra. D. Clarisse, envolta nas vaporosas ondas de filó, se deixava cair prostrada.
Coitada, enquanto a ama feliz ia para o baile, dormia ela sossegadamente, sem cortinados, numa singela cama com colcha de ramagem, repousando a cabecinha sem sonhos no travesseiro liso; ao passo que a linda princesa na vertigem da valsa, perdia-se em ondulações pela extensão da sala.
É que eram bem diversos os seus destinos!
Para uma a doce paz da vida, que se consome na utilidade dos outros; para outra as sofreguidões, os desejos nunca saciados da existência frívola.
Clarisse numa das voltas loucas, em que, valsando, se ostentava mais bela, sucedeu-lhe uma vez um desastre: desmaiou, mas para não acordar mais, porque o rosto lhe ficou como se o tivessem mergulhado em vitríolo!
A desgraçada esmagara a cabeça de encontro a um móvel do salão.
Julieta voltou aos seus antigos hábitos e viveu, até que um dia... Para que hei de eu agora contar o seu fim?
Os períodos da nossa vida passam rápidos, conquanto não seja o menos duradouro, aquele, que consagramos às bonecas. Por mim, guardo da minha Julieta a mais viva lembrança, dela que foi talvez a mais feia, a mais pequena das bonecas, que tive; mas que tinha qualidades de mais valor, que a beleza.
Agora, ó pálida costureira, que passas pela minha porta todas as manhãs e todas as tardes, se sabes ler e o acaso te puser diante estas linhas, ouve bem o que te digo: se a comparação da humildade de tua vida, com a felicidade, que imaginas gozarem essas para quem trabalhas, é que te faz andar assim tão preocupada e triste... abandona esses pensamentos e acredita que elas são muitas vezes mais desgraçadas do que tu.
Coletânea infantil brasileira de 1886, em verso e prosa, de Adelina Lopes Vieira e Júlia Lopes de Almeida, restaurada em português brasileiro moderno a partir do fac-símile de domínio público.
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