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Capítulo 45 · Contos Infantis em Verso e Prosa

XLV - O Faísca

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O Faísca

A MEU SOBRINHO VALENTIM

Monologava o velho Antônio:

— Vendo o Faísca... decididamente, vendo-o... Já pouco serviço me faz e... não vale o que come. Aquilo já deu o que tinha a dar. Agora sempre me oferecem por ele algum cobrito... depois... sim, mais tarde... será difícil... ora adeus! Está dito, vendo o Faísca!

O filho do Antônio, o Manuelinho, que acompanhava o pai de volta do campo, vinha a ouvir estas palavras, que o enchiam de pasmo e de terror.

Ele queria muito o Faísca e respeitava cegamente o pai; não tinha por isso coragem de interrompê-lo pedindo-lhe que afastasse do espírito aquela ideia importuna e ingrata: vender o pobre animal, o companheiro assíduo de trabalheiras estafadoras e cruéis.

E a cada vez que o homem dizia resolutamente: vendo o Faísca, o mimoso e encantador pequeno estremecia, sentindo uma perturbação estranha.

Entristecia-o, magoava-o profundamente o desamor do pai. A consciência revoltava-se-lhe contra essa resolução, que nada, aos seus olhos, explicava:

— Vender o Faísca!

Pobre Manuel! Ele queria nesse momento ser forte, ser poderoso para fazer ver ao pai, bem claramente, que era uma maldade sem nome desfazer-se de um amigo velho. Prendiam-no a sua pequenez e o seu acanhamento, e ele caminhava ao lado do pai sem protestar contra essa ideia, que lhe punha manchas negras na alma!

O que era o Faísca?

Um burro velho, ruço, que o afetuoso Manuelinho conhecera sempre em casa. Fora nele que dera os primeiros passeios ao redor do terreiro, vagarosamente, seguro pela mãe, que ia a pé, ao lado, encantada da alegria do seu querido filhinho, que ria muito fitando receoso as grandes orelhas do animal...

Teria Manuelinho então os seus três anos.

Naquele tempo ia muitas vezes o pai à vila, montado no ruço, e orgulhava-se dele; agora queria vendê-lo! Mas por quê?

A alma cândida de Manuel não atinava com essa misteriosa razão, que ditava ao pai a venda do seu Faísca. Dava tratos à imaginação e não decifrava o enigma.

Quando chegaram ao quintal da casa e Manuelinho viu a carroça com os varais para o ar, embaixo da árvore, a grande figueira brava ramalhuda; quando ele a viu, essa carroça que todos os dias saía puxada pelo generoso e incansável burro, o ganha-pão da família, olhou para o pai com ar suplicante, procurando ler-lhe na fisionomia o arrependimento e pedir-lhe que desistisse do seu intento, mas o pai principiou a assobiar com modo satisfeito, e ele não se animou a dizer nada.

Assim chegaram os dois a casa. Um alegre, outro tristonho até às lágrimas. Esperava-os o jantar. Na idade de Manuel os desgostos não tiram a vontade de comer; o pequeno aceitou, pois, o prato que a mãe, como de costume, lhe fez. O pai enchia a boca sofregamente, mastigando com ruído. Fez-se por um momento o silêncio. Manuelinho enchera a colher e ia erguendo-a quando um zurro prolongado e melancólico entrou na pobre sala, indo ferir o coração do pequenito. Enquanto durou o som daquela voz, a criança quedou-se imóvel, a colher na mão, a mão no ar, e os olhos brilhantes, muito abertos...

A mãe contemplava-o. O pai principiou:

— Sabes, Maria? O João Velho propôs-me comprar o Faísca. Eu disse-lhe que não... mas...

Interrompeu-se para esvaziar um grande copo d'água; depois continuou:

— Eu disse-lhe que não, mas... estou resolvido a vendê-lo. O animal está ali, está morto... Com o cobre que receber por ele e um pouquinho mais, compro uma mula nova e capaz de... eu sei lá! de me ganhar muito dinheiro. Hoje mesmo vou dizer ao João que o mande buscar... Que dizes a isto, hein?

Maria, a mulher, mal o escutava, tinha os olhos presos no filho, que pálido, com o ar espantadinho, ficara silencioso.

As lágrimas caíam-lhe pelas faces quatro a quatro.

Compreendendo a causa dessa dor, a boa mulher sorriu-se e respondeu ao marido:

— Eu sou da opinião... que o não vendas! Não tens necessidade de te desfazeres do pobre animal para comprar outro... Olha, eu tenho ali um dinheirinho das economias que te servirá para ajuda da compra da mula. O Faísca ficará para levar o nosso Manuel à vila quando entrar na escola... Lá para a carroça, isso não, é trabalho pesado demais para ele...

O Antônio tinha afinal um bom coração e não queria contrariar a família... Rude na aparência, era delicado por instinto.

— Está bem — disse ele, sem contrariedade. — Não se venderá.

O Manuelinho corou, tremia de alegria, vacilava no banco, até que, obedecendo a um impulso, atirou-se comovido nos braços da mãe.

O Faísca tornou a zurrar lá fora, mas como pareceu ao bom e meigo Manuel alegre aquele zurro! O menino, doido de alegria, acabou de jantar à pressa e correu para o quintal.

O animal, sacudindo as orelhas e movendo a cauda vagarosamente, bebia num tanque, fitando na água os seus grandes olhos serenos.

Manuelinho encostou no pelo ruço do burro o seu rostinho redondo e claro, afagando-o com meiguice.

Durante essa tarde o pai e a mãe, sentados à sombra da parreirinha, viram contentes o seu querido Manuel passear triunfante e radioso, no Faísca, que paciente prestava-se a andar ao redor do terreiro, obedecendo à vontade daquele amigo sincero e leal...

Contos Infantis em Verso e Prosa

Sinopse

Coletânea infantil brasileira de 1886, em verso e prosa, de Adelina Lopes Vieira e Júlia Lopes de Almeida, restaurada em português brasileiro moderno a partir do fac-símile de domínio público.

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