Universo da obra
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Proteção Divina
Lembrou-se um passarinho um dia de ir armar o seu ninho, numa velha figueira brava, que havia na floresta à beira de um rio fundo, fundo!
É de admirar, porque as aves não são como as crianças, que ignoram onde está o perigo, e acreditam sempre que tudo e todos são bons. Não, elas têm o instinto que as afasta da ruína, e não arriscam nunca a felicidade dos filhos.
Não sei qual era o nome da linda avezinha de que falo; sei que era pequenina, muito mimosa, com os olhinhos redondos e vivos, e uma voz tão doce, tão requebrada, e ao mesmo tempo terna, tão melodiosa e grave, que entristecia e alegrava ouvi-la.
A sua história é... como todas as histórias dos passarinhos do mato. Vivia modestamente, não aspirava glórias e o seu íntimo desejo era a paz, a serenidade, o amor.
O pássaro, esse delicioso boêmio da natureza, ama o que há de mais belo: o sol, a liberdade, e a flor, ninho delicado de poesia e encanto! Foi de seus gorjeios que surgiu a música, a música que eleva e inebria o homem!
Mas voltemos a falar do passarinho, que foi armar o seu ninho à beira de um rio fundo, fundo!
Tinha uma companheira, toda medrosa, pequenina, solicitando a todo instante o seu cuidado, desvelando-se trêmula em agradar-lhe, mas, pobrezinha, muito assustadiça... Temia pelo esposo e pelos filhos, aterrorizava-se pensando que um dia quisessem voar, e que a deixassem, fraca e só, longe dos seus amores!...
Por isso estendia as asas pequeninas por sobre os filhos, e punha-se a olhar para o esposo, que, pousado à beira do ninho, cantava alegremente!...
Uma noite as estrelas medrosas recolheram-se, as nuvens ajuntaram-se, um vento forte abalou a ramaria escura. Veio a tempestade. O raio brilhante cortou a negridão da noite. Estalaram as mais altas e vigorosas árvores; o rio cresceu, saltou impetuoso, alagou campos, despenhou-se nos vales. Tudo era sombra. Tudo! Só os relâmpagos de vez em quando iluminavam a paisagem arrancada à sua placidez.
Era o rápido momento lúcido daquela furiosa loucura da natureza, que se aclarava para ficar mais triste.
Então as avezinhas trementes conchegavam-se muito, imaginando, horrorizadas, que iam despenhar-se nas revoltas águas! e pediam ao Céu: os pais, a vida dos filhos, e os filhos, a vida dos pais.
No outro dia, quando o sol rompeu as nuvens, e a viração brincou pela folhagem, no ramo velho da figueira brava à beira do rio fundo, fundo, cantava hosanas ao astro radiante o amoroso casal das meigas avezinhas...
É que sobre a inocência e a bondade, tem sempre Deus aberta uma asa de proteção!
Coletânea infantil brasileira de 1886, em verso e prosa, de Adelina Lopes Vieira e Júlia Lopes de Almeida, restaurada em português brasileiro moderno a partir do fac-símile de domínio público.
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