Universo da obra
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Boas Festas
Virgínia portou-se admiravelmente bem, durante o ano inteiro, por isso a avozinha lhe disse:
— Deixa estar que a Fada boa não se há de esquecer de ti pelo Natal.
Com essa esperança redobrava a pequenita de meiguice e docilidade.
A Fada boa! Que risonhas promessas ela faz às crianças! Se ao bater da sua varinha de condão, surgem bonecas bonitas e doces tão gostosos! A Fada boa! Que deliciosa criatura, como compensa os bons e pune os maus!...
Quando Virgínia, logo de manhã, entreabriu os olhos, viu, ainda através das pestanas, alguém recostado nas cambraias de seu travesseiro. Era uma encantadora nenê, toda atufada em rendas!
Então despertou alegre... como o que de mais alegre houver no mundo.
A avozinha solícita estava a espreitá-la, riu-se da alegria da neta e contou-lhe assim a visita da Fada.
Ontem à noite estava tudo muito sossegado em casa; nem o cãozinho nem o gato, nem mesmo um ratinho se mexiam! Tu dormias quietinha, bem aninhada no colchãozinho fofo, sonhando naturalmente com pastilhas de chocolate, cerejas cristalizadas, amêndoas cobertas, com umas dançarinas graciosas, de saiote de renda, sapatinhos de cetim, e com uns polichinelos cheios de guizos dourados e sonoros... Eu tinha feito as minhas orações, posto a touca na cabeça e já ia apagar a vela para dormir, quando ouvi bulha perto de casa. Voei para a janela e abri-a de par em par.
A lua espalhava uma claridade diáfana, mas forte como a claridade do sol coada por um globo azul; voavam pelo ar umas aves multicores, e tão pequeninas que a mão de uma criança poderia escondê-las; nas pedras da calçada, que luziam como vidro, vinha um carrinho de ouro puxado por oito veadinhas brancas atreladas com fitas e flores, e guiadas por um postilhão velhinho e alegre. Os animais corriam velozes; o condutor assobiava-lhes, excitava-as com o seu chicotinho de cabo de esmeraldas. De repente, como por encanto, subiu para o telhado o carrinho de ouro.
Desceu então do teto uma escada de lumes e pela escada a Fada boa vestida de azul e rendas. Atrás dela vinha o postilhão com longas barbas brancas de açúcar-cândi; os olhos eram duas amoras, e o nariz um morango.
Vinha a rir de alegria e todo a tremer como um pudim de geleia. Era pançudozinho, falador; trazia casaca de veludo verde, as pernas finas calçadas com meias de seda, e fivelas nos sapatos, flor no peito e um cofre de prata na mão...
Então a Fada tirou esta boneca do cofre, e disse que se tu fores sempre boa, Virgínia, terás noutro Natal uma visita melhor.
Subiram outra vez pela escada; o teto abriu-se e fechou-se, e tu dormias... tranquila.
Fui à janela; o carrinho voava arrebatado pelas veadinhas brancas. Sobre as casas das crianças boas a Fada espalhava uma chuva de rosas, dizendo até que a perdi de vista:
— Boas festas!... boas festas!
Virgínia fez voto de bondade; vestiu-se à pressa e foi contar, radiante de felicidade, o ocorrido à mãe...
Coletânea infantil brasileira de 1886, em verso e prosa, de Adelina Lopes Vieira e Júlia Lopes de Almeida, restaurada em português brasileiro moderno a partir do fac-símile de domínio público.
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