Universo da obra
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A Escola
(MEMÓRIAS DE UM ESTUDANTE)
Eu saíra zangado da escola essa tarde. Caminhava para casa disposto a pedir ao pai que me pusesse a trabalhar no campo com os primos.
O tio Pedro não mandara ensinar os filhos, e eles ali estavam gordos e contentes. A escola é um tormento, dizia eu comigo, e o mestre é um bandido!
Fez-me copiar vinte e cinco vezes, só porque errei uma, a palavra Polytechnica! Decididamente quero trabalhar no campo. Os meus colegas zombavam acompanhando-me pela estrada fora a gritarem-me:
— O da Polytechnica! Eu, humilhado, sentia vontade de chorar, e não corria como de costume.
Querendo livrar-me do acompanhamento importuno do rapazio, mal avistei a casa do tio Pedro, corri para ela e entrei, fechando atrás de mim a porta. Minha tia, sentada na sala de jantar, segurava nas mãos uma carta aberta; rodeavam-na de perto o marido e os filhos.
Logo que apareci, abriram-me os braços numa efusão de ternura a que eu não estava habituado.
— Vem cá, meu Chico — disse-me a pobre mulher olhando bondosamente para mim —, lê aqui esta palavra, que teu tio não pode entender. É uma carta do mano Antônio... desgraçadamente os pequenos não a sabem ler, e teu tio... não tem prática destas coisas... enfim, não admira... Olha, filho, é esta a palavra...
E apontava-me com o dedo picado da agulha um ponto mais amarrotado do papel, repetindo:
— É aqui, é aqui!
Eu, orgulhoso do meu saber, li alto e corretamente com todo o vagar, pronunciando sílaba por sílaba:
— Po-ly-te-chni-ca!
Atroz perseguição! Ao mesmo tempo que dos meus lábios saía clara e distintamente essa atormentadora palavra, fazia-se uma confusão maldita em meu espírito, e nadava-me na alma a cólera! Desesperado, levantei os olhos, e vi toda a família a olhar para mim, atônita; ao movimento brusco que fiz, romperam o silêncio murmurando encantados:
— Como o Chico lê bem!
Àquele elogio curvei a cabeça num agradecimento, e dispus-me a sair, mas a esposa do tio Pedro segurou-me carinhosamente a mão dizendo-me de novo:
— Ó filho, já agora faze favor, lê toda a carta, sim?
Que havia eu de fazer? Li-a. De espaço a espaço, rompiam em exclamações, e eu era obrigado a interromper-me para dar lugar aos ahs! ohs! e ihs! prolongados.
A carta era grande: o tio Antônio dava à irmã a consoladora notícia de que seu filho mais velho entrara para a escola Polytechnica e que, graças ao seu talento e aos mestres que tivera, enchia agora de alegria e honra os pais.
O triunfo do Alfredo abalou seriamente a opinião dos meus bons tios. Umas invejazitas formigavam-lhes no coração. A dizer a verdade era tamanha a satisfação e orgulho do velho ao falar no seu Alfredo, que à força de estudo e trabalho entrava para uma carreira brilhante, que eu, pobre de mim, senti-me comovido também!
— E o Chico? — dizia então a tia batendo-me nas costas —, e este pirralho, que já lê tão bem!?
— Está ali outro Alfredo!... — concluía o tio Pedro, fitando admirado em mim os seus olhos pardos e pequenos.
Houve uma pausa durante a qual a pobre mãe derramou o seu olhar molhado de lágrimas pelos três filhos.
O que pensaria ela? Não sei, mas nunca expressão mais dolorosa vi em ninguém!
Por fim, como se se tivessem combinado, lembraram ao mesmo tempo marido e mulher, mandarem ensinar os filhos...
Voltando-se para mim pediram-me instantemente que os apresentasse no dia seguinte ao meu professor. Prometi fazer-lhes a vontade, e na manhã imediata roguei à minha santa mãe, que me desse o almoço mais cedo.
— Por quê? — perguntou-me ela, alisando-me cuidadosamente o cabelo.
— Porque vou hoje apresentar na escola os primos...
— Sim?! mas o tio Pedro dizia ser asneira o mandarmos o nosso Chico à lição...
Contei-lhe tudo entre envergonhado e risonho.
Ela, a minha doce amiga, ouviu-me com atenção, sorrindo com a sua costumada placidez; depois atraindo-me para o seio, disse-me com voz segura e afetuosa:
— Vai, meu filho, cumpre o teu dever. Ouve sempre com respeito os conselhos do mestre, obedece-lhe em tudo. Olha que se não fosse ele, não teria eu hoje a ventura de te ver assim — terminou ela dando-me dois beijos na face.
Desde esse dia parecia-me ver, estendida como uma asa imaculada, a branca mão de minha mãe a apontar-me a escola, onde nunca mais faltei!
Coletânea infantil brasileira de 1886, em verso e prosa, de Adelina Lopes Vieira e Júlia Lopes de Almeida, restaurada em português brasileiro moderno a partir do fac-símile de domínio público.
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