Universo da obra
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O Tamanco
Era dia de ano-bom.
Chovia sem cessar; as ruas da vila, enlameadas, estavam desertas; o chão escorregadio, difícil de pisar; as casas silenciosas e o céu coberto de nuvens negras.
Nem viva alma! Encolhiam-se todos nas suas habitações, ouvindo a bulha da água, que batia no telhado e nas pedras da calçada, com uma persistência, enfadonha para uns, deliciosa para outros.
Nem um animal sequer perturbava a paz daquela solidão; nem um cão, nem um gato atravessava as ruas! Só da venda da esquina saía um rumor de vozes confuso e áspero, umas gargalhadas grossas, roucas, escalas desafinadas, interrompendo o compasso monótono, igual, do barulho da chuva!
Assim se passara a manhã.
Era quase meio-dia, quando lá, no fim, na curva do caminho, despontou o vultozinho delicado de uma criança, com a roupinha molhada, unida ao corpo, arrastando uns tamancos num tac, tac, tac, muito musical aos seus ouvidos e trazendo na mão, seguro com toda a força, o cabo de um velho chapéu pardo, que era como um grande cogumelo a proteger a mais mimosa das violetas.
Sentia-se cansada a pequenita, mas precisava andar ainda muito, até que chegasse à casa da tia, onde ia pedir de esmola um frango para a mãe doente.
Assim foi indo, até que chegou a uma ladeira, que tinha de descer, e foi exatamente ali que a chuva aumentou muito, de tal modo que a menina parou para orientar-se. Voltar?... Não! o que diria a mãe?... Continuar? Estava transida.
A chuva caía a mais e mais e, o que ainda era pior, roncava o trovão.
Ali não havia casas: só altos muros, só fundos de quintais!
Tomando uma resolução, começou a andar; mas, de repente, faltou-lhe um pé, escorregou, caiu!
A água crescia e corria pelo morro abaixo impetuosamente.
Segurando com força o cabo do chapéu, a menina levantou-se a custo e notou entristecida que lhe faltava, oh! céus! um dos seus tamancos!
Aqueles tamanquinhos, que lhe tinham dado de festas, que eram tão bonitos e que chamavam a atenção de toda a gente, quando batiam nas pedras fazendo: tac-tac-tac...
Estendeu magoada a vista e lá o viu a deslizar na água barrenta da enxurrada, como um batel, onde ia para desconhecida paragem toda a sua alegria!
Lembrou-se então de correr para apanhá-lo; assim o fez. Correu atrás do tamanquinho, que se conservava sempre distante, mas que de repente parou. A pequenita então ganhou terreno; faltavam-lhe três passos, três passos só... quando o viu sumir-se num cano de esgoto, arrombado pela força da chuva!
Ficou estática, triste como se visse submergir-se, ao obtê-la quase, a realização dos seus sonhos, a sua felicidade!
Aqueles tamanquinhos eram todo o seu luxo; achava-os tão bonitos, riscados de verde e roxo!
Chorosa levantou os olhos para o céu e viu, destacada das nuvens pardacentas, uma nesga azul, com a forma do seu tamanco! Que ironia!
A pequena abaixou a cabeça e continuou a andar. Uma hora depois voltava, trazendo um frango para a mãe.
O sol inundava de luz a estrada; as plantas úmidas brilhavam; brilhava até a lama que ela pisava descalça, mas muito mais do que tudo brilhavam-lhe em lágrimas os olhos.
Quando chegou a casa a mãe repreendeu-a; demorara-se muito!
Contou ela então minuciosamente a triste história do seu tamanco, e a maldade do Pai do Céu, em mostrar-lhe de tão alto a imagem do objeto que perdera!
A mãe sorriu-se e, deixando à noitinha adormecida a filha, foi por sua vez à rua comprar-lhe um par de tamancos, com o dinheiro que lhe haviam dado para o remédio.
— A minha filha — dizia ela consigo — fez um grande sacrifício para que eu tivesse alimento e saúde; é justo agora que eu me sacrifique para que a coitadinha tenha o que eu só por ela posso ter — alegria.
Como são santas as mães!
E foi assim que se acabou esta pequena história, tão singela e tão vulgar. Agora o que é certo é que não acabou mal, porque, se a menina exultou de alegria, afiançam também que a boa mãe goza e gozará muita saúde.
Quanto ao tamanquinho que ficou, esse...
é hoje o berço de uma boneca de pano, feia como um bicho feio, mas amada como uma filha estremecida.
Coletânea infantil brasileira de 1886, em verso e prosa, de Adelina Lopes Vieira e Júlia Lopes de Almeida, restaurada em português brasileiro moderno a partir do fac-símile de domínio público.
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