Leia agora
Contos Infantis em Verso e Prosa

Universo da obra

Contos Infantis em Verso e Prosa

Capítulo 60 · Contos Infantis em Verso e Prosa

LX - O Cálice de Vinho

60 de 60 ≈ 7 min de leitura

O cálice de vinho

Veio um dia trazer-me um ramo de flores um velho jardineiro.

Como estivesse à mesa, ofereci-lhe um cálice de vinho.

— Não, minha menina, não bebo, respondeu-me rapidamente.

Perguntei-lhe então: por quê?

A criada tirou os últimos pratos, e subiu o lampião de gás.

A luz bateu de chapa no rosto magro e queimado do velho, que, de olhos baixos, virava e revirava nas mãos calosas as largas abas do chapéu.

— Não bebo... continuou ele, faz seguramente um ano agora, no dia de São João. Eu estava habituado a não faltar à missa nesse dia desde criança, porque, além de ser dos de maior devoção, era dia dos anos de meu pai, que, como eu, tinha o nome do santo, e minha mãe levava-me sempre consigo à igreja para implorar a felicidade do velho. Cresci, criei-me e envelheci com as mesmas ideias, e tanto que ainda no ano passado quis que vissem do céu que me não esquecia do que me haviam ensinado.

Levantei-me muito cedo, passei os olhos pelos meus canteiros, reguei as plantas dos viveiros, acondicionei as vidraças das estufas, guardei, depois de limpos, todos os utensílios da jardinagem no caramanchão, e fui vestir-me conforme pedia a festa.

— Desculpe se lhe conto a coisa pelos miúdos, mas como me perguntou a razão, devo-lhe toda a verdade.

— Continue, disse-lhe; interessa-me a sua história.

— Quando entrei no quarto, o meu netinho dormia; parece-me que o estou vendo: dentre a coberta de lã, saía-lhe a cabecinha loira, e tão tranquilo estava, e tão quentinho, que tive mesmo pena de acordá-lo. Disse de mim para mim: ora visto-me primeiro, e dou-lhe assim mais tempo para gozar o calor e o descanso. Arranjei-me devagar, dando tempo a que acordasse, mas a criança estava ferrada no sono, como se fosse um anjo no seio do Senhor.

Curvei-me para ele, chamando-lhe pelo nome, sacudi-o brandamente, com dó, confesso, de o despertar; ele deu um suspiro profundo e prolongado, e voltou-se para o outro lado, sem sequer alterar a respiração, que era a mais regular.

Vi que eram horas da missa e que não devia perdê-la; tirei então do baú o seu fatinho domingueiro, pus-lho junto à cama, beijei-o no rosto de manso e saí.

Depois de ouvir o ofício, encontrei-me no adro da igreja com uns conhecidos, que me convidaram para dar um passeio. Disse-lhes que não podia, porque o pequeno tinha ficado só, e que estava com cuidado nele, ao que me responderam:

— Qual! teu neto já é um rapazito de oito anos; dessa idade te conheci eu, andando atrás dos carneiros no monte; não te lembras disso? Anda daí; quando ele der pela tua falta, virá procurar-te.

Aquela recordação do tempo em que, como ele, era pequeno, decidiu-me a acompanhá-los.

Na verdade eu nunca tive quem me deixasse a roupinha ao pé da cama, nem quem tivesse pena de despertar-me; pois ao romper d’alva tinha de sair, naquela idade, com o rebanho para o campo. O pequeno nem se lembraria de chamar por mim, e de resto, eu voltaria cedo.

E assim deixei-me ir com aqueles amigos, que principiaram a falar das famílias, dos tempos passados, dos ausentes, de meus pais, mulher e filha, todos mortos, e da minha aldeia, donde um deles chegara havia pouco, trazendo notícias frescas dos amigos, dos lugares e de tudo.

Não sei como, fui-me distraindo e deixei-me ficar em sua companhia, jantando mesmo com eles.

Foi a minha desgraça. Bebi e bebi muito.

Assim como saindo da velha casa de meus pais, eu vi irem-se desfazendo no horizonte os recortes das montanhas, que rodeiam a minha aldeia para sumirem-se de todo quando já pelo mar fora; assim nesse dia foram-se desfazendo no meu coração as angustiosas saudades, que o falar dos companheiros tinha avivado nele, à medida que me deixavam mergulhar na embriaguez.

Encostado à mesa onde passara a tarde descuidado, adormeci. Pouco depois acordei: era noite. Meus companheiros mais moços e mais fortes do que eu tinham-me abandonado. Saí daquela casa maldita. No ar rebentavam as bombas e riscavam o céu escuro as listras douradas dos foguetes, que se desmanchavam em lágrimas. Por detrás dos muros das chácaras ouviam-se alegres sons de vozes, festejos de música, de cantos e de fogueiras, cujo clarão dava às casas e às árvores um realce, uma cor avermelhada, que nas fazia parecerem desconhecidas. Eu queria correr mas não podia; sentia as pernas presas por pesadas correntes de ferro; queria avançar, recuava; por fim desalentado caí sobre as pedras quando estava junto às grades do jardim de meu amo; ficava bem perto o portão, mas não cheguei a alcançá-lo. Já não podia dormir, mas não podia também formar qualquer pensamento, nem pronunciar uma palavra.

Os meus olhos abertos fixavam o firmamento onde se me afigurava ver um baile de estrelas.

Passavam e repassavam junto de mim homens, mulheres e crianças: todos me encaravam, estas com a expressão do medo, aqueles com repugnância e tédio... Eu ria-me, e continuava estúpido a olhar para o espaço iluminado.

As horas iam correndo, e era já muito tarde quando percebi um vultozinho curvar-se para mim. Era uma criança, que ao ver-me ali por terra, não se afastara com medo como as outras, e que, ao contrário, fitava em mim dois olhos brilhantes e inocentes.

Senti então que me prendiam as mãos calosas e quentes umas pequenas e macias. Incomodou-me a persistência daquele olhar, que tinha mais brilho do que todas as luzes soltas no ar, e que me ia até ao fundo da alma, a revolver-me na consciência não sei que dolorosas lembranças. Ia afastar de mim aquela criança, quando ela ajoelhada murmurou esta palavra:

— Avô!

Estremeci! O que naquele momento me passou pelos olhos, o que senti na alma não posso dizer agora! Aquela voz débil, aquela única palavra — avô — chamou-me subitamente ao dever. Despertei do estado de indiferença em que tinha caído, sentindo uma dor aguda no coração.

— Que queres? perguntei-lhe.

— Quero que o avô vá para casa, ou que me leve consigo... Passei o dia todo sozinho, e estou com medo...

— E... para onde ias tu agora?

— Ia procurá-lo, avô...

Foi como se me tirassem um peso de cem quilos de cima do peito; tomei-o em meus braços, cobri-lhe o rosto de beijos e de lágrimas, sim, porque chorei bastante, dizendo-lhe:

— Que queres! caí aqui... foi um ataque que me deu... anda, ajuda-me que são horas de ir para a cama. E ele com as suas mãozinhas delicadas levantou do chão o meu chapéu e o meu cajado e disse:

— Vamos, vamos meu avô.

No outro dia o filhinho do patrão perguntou a meu neto:

— Então, viste como estavam lindas as lágrimas dos foguetes de ontem?

— Eu... eu só vi as lágrimas de meu avô, respondeu-lhe o pequeno.

Ora aqui está, minha menina, porque não bebo mais.

*

* *

Enquanto o velho jardineiro dava a razão da sua recusa, contemplava eu absorta aquele cálice de vinho, cuja transparência, atravessada por um raio de luz, ia desenhar um círculo dourado e trêmulo sobre a toalha.

Pensava ao mesmo tempo na rudeza daquele homem, no mal que lhe haviam feito os falsos amigos, e no auxílio do seu anjo da guarda.

Quando acabou estendi-lhe a mão, que hesitou em apertar, dizendo-lhe unicamente estas palavras:

— Não se esqueça nunca desse dia, e Deus proteja o seu neto!

Contos Infantis em Verso e Prosa

Sinopse

Coletânea infantil brasileira de 1886, em verso e prosa, de Adelina Lopes Vieira e Júlia Lopes de Almeida, restaurada em português brasileiro moderno a partir do fac-símile de domínio público.

Contos Infantis em Verso e Prosa

Resenhas do livro

0 publicadas

Ainda não há resenhas para esta obra. A primeira leitura comentada pode começar aqui.

Ir para o carrinho
Mercado de Contos Infantis em Verso e Prosa

Leve um fragmento deste universo

Escolha a arte, confira a disponibilidade e adicione o produto ao carrinho sem sair da experiência.

Nenhum livro físico está disponível neste universo.
Relíquias da Obra

Adquira Relíquias da Obra e deixe sua marca registrada, criando valor ao item!

Aguardando Aprovação do Autor
Aguardando grupo autoral Contos Infantis em Verso e Prosa Escolha uma Relíquia e envie uma proposta de aquisição, mesmo antes da ativação.
100Relíquias
0Titulares
0 Passagens
Central de RelíquiasDescubra coleções de outros universos e obras.
ver todas
Capítulo 60 carregado no app · 1 livro conectado 1/1
Abrir leitor completo

Capítulos disponíveis para continuar a leitura.

Capítulos de Contos Infantis em Verso e Prosa

Capa de Contos Infantis em Verso e Prosa
Continue a leitura LX - O Cálice de Vinho Capítulo 60 · 60 de 60 · ≈ 7 min
Todos os capítulos 60 disponíveis

Donos de Relíquias

0 titulares

Nenhuma Relíquia desta obra foi adquirida ainda. Seja o primeiro a eternizar seu nome no acervo oficial!

Conhecer as 100 Relíquias

Resenhas do livro

0 publicadas

Ainda não há resenhas para esta obra. A primeira leitura comentada pode começar aqui.

Entrar para resenhar

Posses do livro

0 Leitores com posse
0 Unidades registradas

Nenhuma posse foi registrada publicamente para esta edição.

Adicionais do Universo

Visual ClássicoAbra a leitura editorial, no estilo de uma página de livro
ler
Visual AuroraApresentação imersiva do universo da obra
abrir