Carlos e Pedro permaneciam na mina.
O dia terminava e os trabalhadores já haviam encerrado seus turnos, mas gentilmente permaneciam para satisfazer as últimas dúvidas que os jovens tinham sobre a exploração de cristais.
Subitamente a mina se iluminou mais. Os cristais começaram a emitir luz, pulsando como se estivessem vivos.
— O que… — Começou a dizer Pedro, mas se calou ao ver Fauvel e os demais trabalhadores se atirarem ao chão de joelhos, com as mãos erguidas e os olhos esgazeados, como se estivessem em êxtase.
— A senhora concede sua dádiva! — disseram em uníssono como uma prece.
Os dois rapazes ficaram assustados diante do tom fanático dos homens.
Pedro se aproximou.
— Fauvel, o que está acontecendo?
Sem tirar os olhos do brilho leitoso dos cristais, ele respondeu:
— A Senhora semeia os cristais com sua dádiva, lhes dá vida e poder! Os cristais nos alimentam, nos vestem, nos trazem a vida! A cópula sagrada! Nossos campos serão férteis, nossas mulheres serão férteis! A dádiva é compartilhada! O ventre da senhora irrigado pela semente do consorte nos dá a vida!
Carlos se aproximou de Pedro e cochichou:
— Se entendi direito, ele quis dizer que Nahara está… transando?!
— Pelo que entendi, sim. De alguma forma, acreditam que a energia sexual dela torna os cristais e tudo o mais por aqui mais forte! Kantor nunca me disse nada sobre isso! Parece uma crença pagã! Eu esperaria isso de terráqueos, mas de atlantes?! Eles são religiosos, mas sua crença é racional ao extremo!
— Não vejo nada de racionalidade aqui — observou Carlos. — E com quem Nahara estaria…?
Os dois se entreolharam e disseram ao mesmo tempo:
— Daniel!
Carlos bateu o punho fechado na outra mão.
— Desgraçado sortudo! E olha que ele a tratou mal o dia todo! Eu tratei bem e rodei! Juro que tem coisas sobre as mulheres que nunca vou entender!
— Daniel está louco! — exclamou Pedro. — Kantor avisou mais de uma vez para não deixar que ela nos tocasse!
Os cristais pulsavam intensamente.
— Mas ela o está tocando — disse Carlos —, e muito!
— O que vamos fazer? — perguntou Pedro.
Carlos deu de ombros e respondeu:
— Vamos jantar, dormir e esperar que amanhã Daniel ainda esteja vivo.
— Mas… — Começou Pedro.
Carlos o interrompeu:
— Eu não vou sair batendo de porta em porta para tentar achar ele. Isso pode acabar de forma constrangedora. E pelo amor de Deus, Daniel é grande e sabe se cuidar! Afinal, ele é… O Daniel!
Meio a contragosto, Pedro concordou. Carlos olhou para o encarregado que continuava ajoelhado.
— Acho que Fauvel não nos acompanhará. Teremos que achar a cozinha sozinhos.
Antes de saírem da mina, um cristal brilhou mais forte. Carlos sorriu.
— Dá-lhe, Daniel!
O dia seguinte amanheceu sem neblina e ensolarado.
Os três cavalos já estavam no pátio, selados e prontos há quase uma hora.
Pedro andava de um lado para o outro.
— Insista com Fauvel, Pedro — disse Carlos. — Não podemos ficar aqui esperando o dia todo.
— Já fiz isso! — rebateu Pedro. — Ele disse que em hipótese alguma pode perturbar sua Senhora depois da “semeadura”. Que loucura!
— Mas também… Ah, olha lá o Daniel! — Carlos apontou para uma das portas de uma das torres, pela qual assomou Daniel.
Ele abriu os braços quando o amigo se aproximou.
— Até que enfim! Achamos que ia querer passar o dia todo “semeando”!
Ele não respondeu.
Tinha o olhar duro. Também estava pálido e cambaleante.
— Você está bem? — perguntou Pedro preocupado.
— Vamos embora! — respondeu secamente. Ele se agarrou à sela e precisou dar dois impulsos para conseguir subir no cavalo. Já na sela, vacilou e parecia que ia cair.
— Não vamos nos despedir de Nahara? — perguntou Carlos.
— Vamos embora! — tornou Daniel a responder naquele tom seco e esporeou o cavalo em direção ao portão.
Pedro e Carlos se entreolharam preocupados. Acenaram despedidas para Fauvel e os demais e seguiram Daniel, que já sumira a galope.
De uma fresta na cortina de uma da janela, Nahara espiava. Estava enrolada em um lençol e tinha uma expressão assustada.
O que foi que ela fizera? Kantor ia matá-la! Ou talvez não.
Talvez ela já tivesse matado a todos eles!
Mirna cantarolava enquanto colhia mais uma flor.
A seu lado, o cesto já estava cheio de flores e folhagens coloridas.
Virou a cabeça e olhou por sobre seu ombro esquerdo e não viu Kantor, mas sabia que ele estava ali próximo, colhendo ervas.
Pela manhã, ele a convidara a ir em sua colheita semanal de ervas medicinais. Cris a incentivou a ir, pois Mirna estava triste desde a véspera, pela ausência de Daniel.
Realmente sentiu muito a falta dele.
Em quase um ano e meio, era a primeira vez que ficavam afastados tanto tempo, e essa ausência doeu mais do que ela imaginou que doeria. Aquilo a fez repensar uma decisão que já havia tomado há alguns dias.
À noite, deitada junto com Cris, e com Darian dormindo entre elas, ficou acordada por horas, pensando.
Sentia muito a falta de Rhena e já havia decidido pedir a Kantor que providenciasse uma forma para que voltasse para Poseidia. Mas a falta que um dia de ausência de Daniel lhe fizera, superava em muito a ausência de mais de um ano de Rhena.
Olhou para Cris e para o bebê, ambos adormecidos e dormindo abraçados.
Pensou em Ana, em Carlos, Pedro e em Kantor. Ela amava aquelas pessoas e, sobretudo, amava Daniel, o irmão que nunca tivera.
Assustou-se quando percebeu que o amava mais do que a Rhena, que também lhe era como uma irmã. Achou por um instante que estava sendo ingrata, mas depois se convenceu de que não adiantava querer enganar a si mesma.
E além do mais, aquelas pessoas tinham mais a ver com ela do que Rhena. Eles também não tinham um lugar naquele mundo, eles também haviam perdido tudo.
Rhena sempre a amou muito e sempre cuidou dela, mas o fato inegável é que ela era uma princesa, a futura imperatriz, e Mirna sempre seria uma serva.
A princesa se casaria, teria seus filhos. E Mirna? Que homem a quereria? Servos, mesmo os cativos, volta e meia se casavam e constituíam família. Mas ela era mais do que uma serva cativa, ela era uma Traitress, uma traidora, uma pecha que adquirira pelo resto da vida, impingida pela traição de seus pais.
Ficaria sempre com Rhena, disso tinha certeza, cuidaria de seus filhos e cuidaria dela em sua velhice. Mas e se Rhena morresse antes dela? Quem iria se importar com uma velha serva traidora?
Ela terminaria seus dias só e abandonada em algum canto do palácio.
Já ali, ela poderia ser feliz. Estaria com pessoas que a amavam.
Poderia no futuro conhecer um bom homem, mesmo um terráqueo que a faria feliz e lhe daria uma família. E Daniel sempre estaria por perto para protegê-la.
Revogar a decisão que já tinha tomado lhe doeu, a fez segurar o choro para não acordar Cris, Darian e Ana, que dormia ali ao lado. Mas já estava decidida. Ela ia ficar.
Relembrava tudo isso enquanto colhia mais uma flor, uma amarela grande.
Queria fazer uma guirlanda para enfeitar seus cabelos e estar bonita quando Daniel chegasse.
Olhou mais uma vez para trás e não viu Kantor. Achou que era melhor ir procurá-lo.
Viu uma última flor amarela, molhada pelo orvalho da manhã, bem no centro do arbusto. Decidiu que aquela seria a última.
Se esticou toda para alcançá-la.
Seus dedos quase a estavam tocando quando uma mão enluvada apareceu por entre as folhas e agarrou com força seu pulso.
A surpresa a fez congelar por um instante, mas em seguida um terror enorme tomou sua mente e ela começou a gritar.
O percurso do castelo de Nahara fora feito praticamente em silêncio, com exceção de uma vez ou outra quando Daniel balançava na sela e parecia que ia cair, e um dos outros lhe perguntavam se estava bem.
Ele não respondeu nenhuma das vezes que foi questionado e não quis parar para descansar uma única vez.
Apenas cavalgava rápido, quieto e mal-humorado, parecendo querer colocar a maior distância possível do castelo de Nahara.
Ele tinha um aspecto doentio, e Carlos e Pedro se entreolhavam preocupados, em silêncio.
A certa altura, Carlos não aguentou e se inclinou na sela em direção a Pedro e perguntou em um cochicho:
— E aí? O que acha que aconteceu?
— Não sei — respondeu Pedro no mesmo tom sussurrado. — Ele parece doente, mas não quis parar uma única vez para eu examiná-lo.
— Será que Nahara fez alguma coisa com ele?
Pedro pensou um pouco.
Enfiou a mão em um dos alforjes que carregava e tirou um cristal de lá. Era uma lâmina pequena, retangular, de aproximadamente seis centímetros de comprimento e três de largura. Olhou através dela em direção a Daniel e ficou pálido.
Carlos notou e perguntou:
— O que foi? Que troço é este?
— É um cristal que identifica flutuações energéticas — respondeu Pedro, ainda olhando através do cristal. — Acho… Acho melhor irmos o mais rápido possível para o templo!
Carlos se assustou com o medo e urgência na voz dele e achou melhor não perguntar nada. Apenas disse:
— O templo não está longe. Vamos… O que é isto? Gritos?
Daniel fazia um esforço hercúleo para se manter sobre o cavalo.
Sua cabeça girava e seu corpo era como uma fornalha, como se uma febre de mil graus o houvesse acometido. Sentia uma pressão em todos os poros como se algo quisesse sair de seu corpo.
Lembrava-se da noite que teve com Nahara. Não foi uma noite prazerosa. Houve desejo, mas também muita dor e agonia.
Recordava de ter chegado ao quarto dela e o que ocorreu depois lhe vinha à mente em flashes, como lembranças distantes ou como cenas de um velho filme meio esquecido.
Quando ela beijou sua marca na testa, foi como se um rio de lava escorresse para dentro dele, acendendo um desejo intenso e promiscuo, e durante aquela noite ela tocou em várias partes de seu corpo, causando sempre o mesmo efeito.
O desejo vinha acompanhado de dor lancinante, como se o rasgassem por dentro, e daquele calor insuportável. Em algum canto de sua mente, Daniel gritava em desespero, sentindo-se usado como um objeto de prazer, mas estes gritos eram abafados pelo desejo animalesco que tomava conta dele.
A cama em si parecia uma fornalha, com ondas de energia que subiam da terra, invocadas por Nahara através de palavras em atlante arcaico, entremeadas por gemidos e gritos.
Ele ainda ouvia em sua mente os gritos de Nahara.
Os gritos! Não! Aqueles gritos que ouvia agora não eram os de Nahara! Ele conhecia aquela voz!
Ele empertigou-se.
Toda a dor e o mal-estar desapareceram em um átimo. Aquele calor que o consumia transformou-se em uma energia furiosa que o deixou totalmente desperto.
E foi como se essa energia contaminasse também sua montaria, pois o cavalo relinchou forte enquanto se empinava ligeiramente.
— Mirna! — gritou Daniel.
E, atiçando o cavalo, disparou por entre a floresta em direção aos gritos.
— Daniel, espere! — chamou Carlos.
Mas já era tarde.
Daniel conduzia o animal em extrema velocidade por entre as árvores, desviando-se de cipós e arbustos. Uma fúria incontida ardia em seu peito.
Se alguém estivesse maltratando Mirna, pagaria caro.
A trilha apareceu longitudinalmente à sua frente, ligeiramente mais baixa que o solo da floresta que vinha em declive.
O cavalo saltou para a trilha e Daniel puxou forte as rédeas para fazê-lo parar e não despencar pelo outro lado da trilha, que se precipitava morro abaixo coberto por floresta densa. O animal bufou e pateou, levantando terra e folhas mortas.
Daniel se voltou para a esquerda e viu Mirna sendo arrastada por dois soldados atlantes em direção a um módulo flutuante, onde outro soldado aguardava.
A menina se debatia e gritava, mas estava firmemente segura pelos dois homens.
— Mirna! — gritou Daniel, que sacou da espada e disparou em direção a eles.
Ela voltou a cabeça na direção dele.
— Daniel!
Os soldados pararam, surpresos com aquele súbito aparecimento.
O que estava no módulo recuperou-se mais rápido do susto. Sacou da pistola e atirou em direção a Daniel.
O disparo passou pela esquerda dele, na altura do ombro.
Não o atingiu, mas ao passar tão próximo da cabeça do cavalo, o zunido e o calor fizeram o animal se assustar. Ele estacou e empinou, relinchando.
Isto salvou a vida de Daniel, mas não a do cavalo, pois o próximo disparo o acertou em cheio no peito.
O animal tombou de lado, relinchando agonizante e caindo na ribanceira ao lado da trilha, levando Daniel consigo.
Por puro reflexo, ele tentou saltar, mas um de seus pés ficou preso no estribo e ele rolou junto com o cavalo.
No primeiro tombo, o corpo do cavalo caiu sobre ele, esmagando-o contra o chão.
Sentiu seus músculos e ossos gritarem, quase se rompendo diante do peso, mas eles rolaram de novo, e desta vez ele foi atirado para o ar, vendo os galhos e o céu entre as folhas das árvores lá em cima.
Mas seu pé continuava preso, e mais uma vez foi puxado para baixo e esmagado contra o solo.
Isto se repetiu por toda a íngreme ladeira, se chocando
contra galhos e troncos.
Finalmente ele parou no fundo do vale. O cadáver do cavalo sobre ele, pressionando-o contra o solo de folhas mortas.
Um cheiro de podridão e sangue invadiu-lhe as narinas enquanto sua vista foi escurecendo.
Contra o pano negro de fundo que se tornou sua visão ele via a imagem de Mirna implorando por socorro, se afastando cada vez mais dele.
Até que ela sumiu, e o mundo todo foi engolido por trevas e silêncio.