PARTE II - Capítulo II Madame Bovary · Capítulo 11 de 35
Obra Menu

PARTE II - Capítulo II

PARTE II - Capítulo II

Emma desceu primeiro, depois Félicité, o Sr. Lheureux, uma ama, e foi preciso acordar Charles em seu canto, onde ele adormecera completamente assim que a noite caíra.

Homais se apresentou; ofereceu suas homenagens à senhora, suas civilidades ao senhor, disse que estava encantado por ter podido prestar-lhes algum serviço, e acrescentou, com ar cordial, que ousara convidar a si mesmo, aliás sua mulher estando ausente.

A Sra. Bovary, quando entrou na cozinha, aproximou-se da lareira. Com a ponta de dois dedos pegou o vestido à altura do joelho e, tendo-o erguido assim até os tornozelos, estendeu à chama, por cima do pernil que girava, o pé calçado numa botina preta. O fogo a iluminava inteira, penetrando com uma luz crua a trama do vestido, os poros iguais de sua pele branca e até as pálpebras dos olhos, que ela piscava de tempos em tempos.

Uma grande cor vermelha passava sobre ela, conforme o sopro do vento que vinha pela porta entreaberta.

Do outro lado da lareira, um jovem de cabeleira loura a olhava em silêncio.

Como se aborrecia muito em Yonville, onde era escrevente no escritório de maître Guillaumin, muitas vezes o Sr. Léon Dupuis — era ele o segundo frequentador do Lion d’Or — adiava o momento de sua refeição, esperando que aparecesse algum viajante na estalagem com quem conversar à noite. Nos dias em que seu trabalho estava terminado, precisava, por não saber o que fazer, chegar à hora exata e suportar, da sopa ao queijo, o tête-à-tête com Binet.

Foi, pois, com alegria que aceitou a proposta da hospedeira de jantar na companhia dos recém-chegados, e todos passaram à sala grande, onde a madame Lefrançois, por pompa, mandara pôr os quatro talheres.

Homais pediu licença para conservar seu barrete grego, por medo das corizas.

Depois, voltando-se para sua vizinha:

— A senhora, sem dúvida, está um pouco cansada? A gente é sacudida tão espantosamente em nossa Hirondelle!

— É verdade — respondeu Emma —; mas o deslocamento sempre me diverte; gosto de mudar de lugar.

— É coisa tão sombria — suspirou o escrevente — viver cravado nos mesmos lugares!

— Se o senhor fosse como eu — disse Charles —, obrigado sem cessar a montar a cavalo…

— Mas — retomou Léon, dirigindo-se à Sra. Bovary — nada é mais agradável, parece-me; quando se pode — acrescentou.

— De resto — dizia o boticário —, o exercício da medicina não é muito penoso em nossas regiões; pois o estado das estradas permite o uso do cabriolé, e, geralmente, paga-se bastante bem, sendo os lavradores abastados. Temos, sob o aspecto médico, à parte os casos ordinários de enterite, bronquite, afecções biliosas etc., de tempos em tempos algumas febres intermitentes na ceifa, mas, em suma, poucas coisas graves, nada de especial a notar, senão muitas fluxões frias, que se devem sem dúvida às deploráveis condições higiênicas das moradias de nossos camponeses. Ah! o senhor encontrará muitos preconceitos a combater, Sr. Bovary; muitos teimosos da rotina, contra os quais se chocarão diariamente todos os esforços de sua ciência; pois ainda recorrem às novenas, às relíquias, ao cura, em vez de vir naturalmente ao médico ou ao farmacêutico. O clima, entretanto, não é propriamente mau, e contamos mesmo na comuna alguns nonagenários. O termômetro — fiz observações — desce no inverno até quatro graus e, na estação forte, atinge vinte e cinco, trinta centígrados no máximo, o que nos dá vinte e quatro Réaumur como máxima, ou, de outro modo, cinquenta e quatro Fahrenheit, medida inglesa, não mais! — e, com efeito, estamos abrigados dos ventos do norte pela floresta de Argueil, de um lado, dos ventos do oeste pela costa Saint-Jean, de outro; e esse calor, todavia, que por causa do vapor de água desprendido pelo rio e da presença considerável de gado nas pradarias — o qual exala, como sabe, muito amoníaco, isto é, azoto, hidrogênio e oxigênio (não, azoto e hidrogênio somente) —, e que, sugando para si o húmus da terra, confundindo todas essas emanações diferentes, reunindo-as num feixe, por assim dizer, e combinando-se por si mesmo com a eletricidade espalhada na atmosfera, quando a há, poderia, com o tempo, como nos países tropicais, engendrar miasmas insalubres; — esse calor, digo, encontra-se justamente temperado do lado de onde vem, ou antes, de onde viria, isto é, do lado sul, pelos ventos de sudeste, os quais, tendo-se refrescado por si mesmos ao passar sobre o Sena, nos chegam às vezes de súbito, como brisas da Rússia!

— Ao menos os senhores têm alguns passeios pelas redondezas? — continuava a Sra. Bovary, falando ao jovem.

— Oh! muito poucos — respondeu ele. — Há um lugar que chamam de Pâture, no alto da colina, à orla da floresta. Às vezes, no domingo, vou até lá e fico com um livro, olhando o sol se pôr.

— Não acho nada admirável como os poentes — retomou ela —, mas à beira-mar, sobretudo.

— Oh! adoro o mar — disse o Sr. Léon.

— E então não lhe parece — replicou a Sra. Bovary — que o espírito vogua mais livremente por essa extensão sem limites, cuja contemplação eleva a alma e dá ideias de infinito, de ideal?

— O mesmo se dá com as paisagens de montanha — retomou Léon. — Tenho um primo que viajou pela Suíça no ano passado e me dizia que não se pode imaginar a poesia dos lagos, o encanto das cascatas, o efeito gigantesco dos glaciares. Veem-se pinheiros de uma grandeza inacreditável, atravessados sobre as torrentes, cabanas suspensas nos precipícios, e, mil pés abaixo de nós, vales inteiros, quando as nuvens se entreabrem. Esses espetáculos devem entusiasmar, dispor à prece, ao êxtase! Por isso já não me espanto com aquele músico célebre que, para excitar melhor sua imaginação, costumava ir tocar piano diante de algum sítio imponente.

— O senhor toca música? — perguntou ela.

— Não, mas gosto muito dela — respondeu ele.

— Ah! não o escute, Sra. Bovary — interrompeu Homais, inclinando-se sobre o prato —, é pura modéstia. Como, meu caro! Ora, no outro dia, em seu quarto, o senhor cantava o Anjo da Guarda de modo encantador. Eu o ouvia do laboratório; destacava aquilo como um ator.

Léon, com efeito, morava na casa do farmacêutico, onde tinha um pequeno quarto no segundo andar, sobre a praça. Corou com esse elogio do seu senhorio, que já se voltara para o médico e enumerava, um a um, os principais habitantes de Yonville. Contava anedotas, dava informações. Não se sabia ao certo a fortuna do notário, e havia a casa Tuvache, que fazia muito alarde.

Emma retomou:

— E que música o senhor prefere?

— Oh! a música alemã, aquela que leva a sonhar.

— Conhece os italianos?

— Ainda não; mas vou vê-los no ano que vem, quando for morar em Paris, para concluir meu direito.

— É como eu tinha a honra — disse o farmacêutico — de exprimir a seu esposo, a propósito desse pobre Yanoda que fugiu; os senhores se verão, graças às loucuras que ele fez, no gozo de uma das casas mais confortáveis de Yonville. O que ela tem de especialmente cômodo para um médico é uma porta para a Allee, que permite entrar e sair sem ser visto. Além disso, é provida de tudo o que há de agradável a um lar: lavanderia, cozinha com copa, sala de família, fruteira etc. Era um sujeito que não olhava gastos! Mandara construir, no fundo do jardim, junto à água, uma latada feita de propósito para beber cerveja no verão, e se a senhora gosta de jardinagem, poderá…

— Minha mulher pouco se ocupa disso — disse Charles. — Ela prefere, embora lhe recomendem exercício, ficar sempre no quarto, lendo.

— É como eu — replicou Léon. — Que coisa melhor, de fato, do que estar à noite junto ao fogo com um livro, enquanto o vento bate nas vidraças e a lâmpada arde?…

— Não é? — disse ela, fixando nele seus grandes olhos negros, todos abertos.

— Não se pensa em nada — continuava ele —, as horas passam. Passeia-se imóvel por países que se acredita ver, e o pensamento, enlaçando-se à ficção, brinca nos detalhes ou persegue o contorno das aventuras. Mistura-se aos personagens; parece que somos nós que palpitamos sob suas roupas.

— É verdade! É verdade! — dizia ela.

— Já lhe aconteceu algumas vezes — retomou Léon — encontrar num livro uma ideia vaga que a senhora teve, alguma imagem obscurecida que volta de longe, e como a exposição inteira do seu sentimento mais sutil?

— Já experimentei isso — respondeu ela.

— É por isso — disse ele — que gosto sobretudo dos poetas. Acho os versos mais ternos do que a prosa, e que fazem chorar muito melhor.

— No entanto, cansam com o tempo — retomou Emma —; e agora, pelo contrário, adoro as histórias que avançam de um só fôlego, em que se sente medo. Detesto os heróis comuns e os sentimentos temperados, como os que há na natureza.

— Com efeito — observou o escrevente —, essas obras, não tocando o coração, afastam-se, parece-me, do verdadeiro fim da Arte. É tão doce, entre os desencantos da vida, poder transportar-se em ideia para nobres caracteres, afeições puras e quadros de felicidade. Quanto a mim, vivendo aqui, longe do mundo, é minha única distração; mas Yonville oferece tão poucos recursos!

— Como Tostes, sem dúvida — retomou Emma. — Por isso eu estava sempre assinando um gabinete de leitura.

— Se a senhora quiser fazer-me a honra de usá-la — disse o farmacêutico, que acabara de ouvir essas últimas palavras —, tenho eu mesmo à sua disposição uma biblioteca composta dos melhores autores: Voltaire, Rousseau, Delille, Walter Scott, o Écho des Feuilletons etc.; e recebo, além disso, diferentes folhas periódicas, entre as quais o Fanal de Rouen, diariamente, tendo a vantagem de ser seu correspondente para as circunscrições de Buchy, Forges, Neufchâtel, Yonville e arredores.

Havia duas horas e meia que estavam à mesa; pois a criada Artémise, arrastando indolentemente sobre os ladrilhos suas chinelas de ourela, trazia os pratos um após o outro, esquecia tudo, não entendia nada e deixava sem cessar entreaberta a porta do bilhar, que batia contra a parede com a ponta do trinco.

Sem perceber, enquanto conversava, Léon pusera o pé sobre uma das travessas da cadeira onde a Sra. Bovary estava sentada. Ela usava uma pequena gravata de seda azul, que mantinha ereta, como uma gola franzida, uma gola de batista plissada; e, conforme os movimentos de cabeça que fazia, a parte inferior de seu rosto mergulhava no tecido ou dele saía suavemente.

Foi assim, um perto do outro, enquanto Charles e o farmacêutico discorriam, que entraram numa dessas conversas vagas em que o acaso das frases nos reconduz sempre ao centro fixo de uma simpatia comum. Espetáculos de Paris, títulos de romances, novas quadrilhas, e o mundo que eles não conheciam, Tostes, onde ela vivera, Yonville, onde estavam, examinaram tudo, falaram de tudo até o fim do jantar.

Quando o café foi servido, Félicité saiu para preparar o quarto na nova casa, e os convivas logo se levantaram. A madame Lefrançois dormia junto às cinzas, enquanto o rapaz da estrebaria, uma lanterna na mão, esperava o Sr. e a Sra. Bovary para conduzi-los à casa deles. Sua cabeleira ruiva estava entremeada de palhas, e ele manquejava da perna esquerda. Quando tomou com a outra mão o guarda-chuva do Sr. cura, puseram-se a caminho.

O burgo dormia. Os pilares do mercado coberto alongavam grandes sombras. A terra estava toda cinzenta, como numa noite de verão.

Mas, estando a casa do médico a cinquenta passos da estalagem, foi preciso quase imediatamente desejar boa-noite, e a companhia se dispersou.

Emma, desde o vestíbulo, sentiu cair sobre os ombros, como um pano úmido, o frio do reboco. As paredes eram novas, e os degraus de madeira estalaram. No quarto, no primeiro andar, uma claridade esbranquiçada passava pelas janelas sem cortinas. Entreviam-se copas de árvores e, mais longe, a pradaria, meio afogada no nevoeiro, que fumegava ao luar, segundo o curso do rio.

No meio do aposento, em desordem, havia gavetas de cômoda, garrafas, varões, bastões dourados com colchões sobre cadeiras e bacias sobre o assoalho; os dois homens que haviam trazido os móveis tinham deixado tudo ali, negligentemente.

Era a quarta vez que ela dormia num lugar desconhecido. A primeira fora no dia de sua entrada no convento; a segunda, no de sua chegada a Tostes; a terceira, na Vaubyessard; a quarta era esta; e cada uma viera fazer em sua vida como que a inauguração de uma fase nova.

Ela não acreditava que as coisas pudessem apresentar-se iguais em lugares diferentes e, uma vez que a porção já vivida fora má, sem dúvida aquilo que restava a consumir seria melhor.

1/1
Menu

Fazer anotação