PARTE II - Capítulo III Madame Bovary · Capítulo 12 de 35
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PARTE II - Capítulo III

PARTE II - Capítulo III

No dia seguinte, ao despertar, ela avistou o escrevente na praça. Estava de robe de quarto. Ele ergueu a cabeça e a saudou. Ela fez uma inclinação rápida e fechou a janela.

Léon esperou o dia inteiro que chegassem as seis horas da tarde; mas, ao entrar na estalagem, não encontrou ninguém senão o Sr. Binet, sentado à mesa.

Aquele jantar da véspera era para ele um acontecimento considerável; nunca, até então, havia conversado durante duas horas seguidas com uma senhora. Como pudera, pois, expor-lhe, e em tal linguagem, uma porção de coisas que antes não teria dito tão bem? Era tímido de ordinário e guardava essa reserva que participa ao mesmo tempo do pudor e da dissimulação. Em Yonville, achavam que tinha maneiras como se deve.

Escutava raciocinar as pessoas maduras e não parecia exaltado em política, coisa notável num moço. Além disso, possuía talentos: pintava em aquarela, sabia ler a clave de sol e, depois do jantar, ocupava-se de literatura de bom grado, quando não jogava cartas.

O Sr. Homais o estimava por sua instrução; a Sra. Homais lhe tinha afeição por sua complacência, pois muitas vezes ele acompanhava ao jardim os pequenos Homais, fedelhos sempre lambuzados, muito mal-educados e um tanto linfáticos, como a mãe. Para cuidar deles tinham, além da criada, Justin, o aluno de farmácia, primo distante do Sr. Homais, que haviam tomado em casa por caridade, e que servia ao mesmo tempo de criado.

O boticário mostrou-se o melhor dos vizinhos.

Deu à Sra. Bovary informações sobre os fornecedores, mandou vir expressamente seu vendedor de sidra, provou ele mesmo a bebida e cuidou, na adega, para que o tonel fosse bem colocado; indicou ainda o modo de proceder para obter uma provisão de manteiga a bom preço e concluiu um acordo com Lestiboudois, o sacristão, que, além de suas funções sacerdotais e mortuárias, cuidava dos principais jardins de Yonville por hora ou por ano, segundo o gosto das pessoas.

A necessidade de ocupar-se dos outros não era a única coisa que impelia o farmacêutico a tanta cordialidade obsequiosa; havia, por baixo disso, um plano.

Ele infringira a lei de 19 de ventoso do ano XI, artigo primeiro, que proíbe a todo indivíduo sem diploma o exercício da medicina; de modo que, por denúncias tenebrosas, Homais fora chamado a Rouen, ao gabinete particular do Sr. procurador do rei. O magistrado o recebera de pé, de toga, arminho ao ombro e barrete na cabeça. Era de manhã, antes da audiência.

Ouviam-se no corredor as botas pesadas dos gendarmes a passar, e como um ruído distante de grandes fechaduras que se cerravam. Os ouvidos do farmacêutico zuniram a ponto de ele crer que cairia de uma congestão; entreviu calabouços, a família em prantos, a farmácia vendida, todos os frascos dispersos; e foi obrigado a entrar num café para tomar um copo de rum com água de Seltz, a fim de recompor os espíritos.

Pouco a pouco, a lembrança daquela admoestação se enfraqueceu, e ele continuava, como antes, a dar consultas anódinas na saleta dos fundos. Mas o prefeito lhe queria mal, colegas tinham ciúme, era preciso temer tudo; ligando a si o Sr. Bovary por meio de cortesias, era conquistar sua gratidão e impedir que ele falasse mais tarde, caso percebesse alguma coisa.

Por isso, todas as manhãs, Homais lhe trazia o jornal e, muitas vezes, à tarde, deixava por um instante a farmácia para ir à casa do oficial de saúde fazer conversa.

Charles estava triste: a clientela não chegava. Permanecia sentado durante longas horas, sem falar, ia dormir em seu gabinete ou ficava olhando a mulher costurar. Para distrair-se, empregou-se em casa como trabalhador braçal, e até tentou pintar o sótão com uma sobra de tinta que os pintores haviam deixado. Mas os negócios de dinheiro o preocupavam.

Gastara tanto com os reparos de Tostes, com os vestidos da senhora e com a mudança, que todo o dote, mais de três mil escudos, se escoara em dois anos. Depois, quantas coisas danificadas ou perdidas no transporte de Tostes para Yonville, sem contar o cura de gesso que, caindo da carroça num solavanco forte demais, se espatifara em mil pedaços no calçamento de Quincampoix!

Uma preocupação melhor veio distraí-lo, a saber, a gravidez da mulher. À medida que o termo se aproximava, ele a amava ainda mais. Era outro laço da carne que se estabelecia, e como o sentimento contínuo de uma união mais complexa.

Quando via de longe seu andar preguiçoso e sua cintura oscilar molemente sobre os quadris sem espartilho, quando, face a face, a contemplava à vontade e ela tomava, sentada, poses fatigadas em sua poltrona, então sua felicidade não se continha mais; ele se levantava, beijava-a, passava as mãos pelo rosto dela, chamava-a de mãezinha, queria fazê-la dançar e soltava, meio rindo, meio chorando, toda espécie de brincadeiras carinhosas que lhe vinham ao espírito.

A ideia de ter engendrado o deliciava. Nada lhe faltava agora. Conhecia a existência humana de uma ponta à outra e nela se instalava, com os dois cotovelos à mesa, serenamente.

Emma, a princípio, sentiu grande espanto; depois teve vontade de ser libertada, para saber que coisa era ser mãe. Mas, não podendo fazer as despesas que queria, ter um berço em nacela com cortinas de seda rosa e touquinhas bordadas, renunciou ao enxoval, num acesso de amargura, e o encomendou de uma só vez a uma costureira da aldeia, sem escolher nem discutir nada.

Não se divertiu, portanto, com esses preparativos em que a ternura das mães se põe em apetite, e sua afeição, desde a origem, talvez tenha ficado diminuída em alguma coisa.

Entretanto, como Charles, a todas as refeições, falava do bebê, ela logo passou a pensar nele de maneira mais contínua.

Desejava um filho; seria forte e moreno, e o chamaria Georges; e essa ideia de ter por criança um macho era como a revanche em esperança de todas as suas impotências passadas. Um homem, ao menos, é livre; pode percorrer as paixões e os países, transpor os obstáculos, morder as felicidades mais distantes. Mas uma mulher é continuamente impedida. Inerte e flexível ao mesmo tempo, tem contra si as molezas da carne e as dependências da lei.

Sua vontade, como o véu do chapéu retido por um cordão, palpita a todos os ventos; há sempre algum desejo que arrasta, alguma conveniência que detém.

Ela deu à luz num domingo, por volta das seis horas, ao nascer do sol.

— É uma menina! — disse Charles.

Ela virou a cabeça e desmaiou.

Quase imediatamente, a Sra. Homais acorreu e a beijou, assim como a mãe Lefrançois, do Lion d’Or. O farmacêutico, como homem discreto, dirigiu-lhe apenas algumas felicitações provisórias pela porta entreaberta. Quis ver a criança e achou-a bem conformada.

Durante a convalescença, ela se ocupou muito em procurar um nome para a filha. Primeiro, passou em revista todos os que tinham terminações italianas, tais como Clara, Louisa, Amanda, Atala; gostava bastante de Galsuinde, mais ainda de Yseult ou de Léocadie. Charles desejava que se chamasse a criança como sua mãe; Emma opôs-se a isso. Percorreram o calendário de ponta a ponta, e consultaram os estranhos.

— O Sr. Léon — dizia o farmacêutico, com quem conversei outro dia sobre isso — estranha que não escolham Madeleine, que está excessivamente na moda agora.

Mas a mãe Bovary protestou com força contra esse nome de pecadora. Quanto ao Sr. Homais, ele tinha predileção por todos aqueles que recordassem um grande homem, um feito ilustre ou uma concepção generosa, e era nesse sistema que batizara seus quatro filhos. Assim, Napoleão representava a glória, e Franklin, a liberdade; Irma, talvez, fosse uma concessão ao romantismo; mas Athalie, uma homenagem à mais imortal obra-prima do palco francês.

Pois suas convicções filosóficas não impediam suas admirações artísticas; nele, o pensador não sufocava o homem sensível; sabia estabelecer diferenças, separar a parte da imaginação e a do fanatismo. Dessa tragédia, por exemplo, censurava as ideias, mas admirava o estilo; amaldiçoava a concepção, porém aplaudia todos os detalhes, exasperava-se contra os personagens e se entusiasmava com seus discursos.

Quando lia os grandes trechos, ficava transportado; mas, quando pensava que os carolas tiravam proveito disso para seu comércio, ficava desolado, e, nessa confusão de sentimentos em que se embaraçava, gostaria, ao mesmo tempo, de poder coroar Racine com as duas mãos e discutir com ele durante um bom quarto de hora.

Enfim, Emma lembrou-se de que, no castelo da Vaubyessard, ouvira a marquesa chamar Berthe uma jovem mulher; desde então esse nome foi escolhido, e, como o pai Rouault não podia vir, pediu-se ao Sr. Homais que fosse padrinho. Ele deu de presente todos os produtos de seu estabelecimento, a saber: seis caixas de jujubas, um frasco inteiro de racahout, três cartuchos de pasta de alteia e, além disso, seis bastões de açúcar-cande que reencontrara num armário.

Na noite da cerimônia, houve um grande jantar; o cura estava presente; animaram-se. O Sr. Homais, por volta dos licores, entoou O Deus da Boa Gente. O Sr. Léon cantou uma barcarola, e a Sra. Bovary mãe, que era a madrinha, uma romança do tempo do Império; enfim, o Sr. Bovary pai exigiu que descessem a criança e pôs-se a batizá-la com um copo de champanhe, que lhe derramava do alto sobre a cabeça.

Essa zombaria do primeiro dos sacramentos indignou o abade Bournisien; Bovary pai respondeu com uma citação de A Guerra dos Deuses, o cura quis partir; as senhoras suplicavam; Homais interpôs-se; e conseguiu-se fazer sentar de novo o eclesiástico, que retomou tranquilamente, no pires, sua meia xícara de café meio bebida.

O Sr. Bovary pai permaneceu ainda um mês em Yonville, onde deslumbrou os habitantes com um soberbo barrete militar de galões de prata, que usava de manhã para fumar cachimbo na praça. Tendo também o hábito de beber muita aguardente, muitas vezes mandava a criada ao Lion d’Or comprar-lhe uma garrafa, que era lançada à conta do filho; e gastou, para perfumar seus lenços, toda a provisão de água-de-colônia que a nora possuía.

Esta não se desgostava de sua companhia. Ele correra mundo: falava de Berlim, de Viena, de Estrasburgo, de seu tempo de oficial, das amantes que tivera, dos grandes almoços que fizera; depois se mostrava amável e, às vezes mesmo, fosse na escada ou no jardim, agarrava-lhe a cintura, exclamando:

— Charles, toma cuidado contigo!

Então a mãe Bovary assustou-se pela felicidade do filho e, receando que o marido, com o tempo, exercesse influência imoral sobre as ideias da jovem mulher, apressou-se em insistir na partida. Talvez tivesse inquietações mais sérias. O Sr. Bovary era homem de nada respeitar.

Um dia, Emma foi tomada de súbito pela necessidade de ver sua filhinha, que fora posta em aleitamento na casa da mulher do carpinteiro; e, sem olhar no almanaque se ainda duravam as seis semanas da Virgem, encaminhou-se para a morada de Rolet, que ficava na extremidade da aldeia, ao pé da costa, entre a estrada grande e as pradarias.

Era meio-dia; as casas tinham as venezianas fechadas, e os telhados de ardósia, reluzindo sob a luz áspera do céu azul, pareciam fazer faiscar centelhas no cimo de suas empenas. Soprava um vento pesado. Emma sentia-se fraca ao caminhar; as pedras da calçada lhe feriam os pés; hesitou se não voltaria para casa, ou se entraria em algum lugar para sentar-se.

Nesse momento, o Sr. Léon saiu de uma porta vizinha, com um maço de papéis debaixo do braço. Veio cumprimentá-la e pôs-se à sombra, diante da loja de Lheureux, sob a tenda cinzenta que avançava.

A Sra. Bovary disse que ia ver a filha, mas que começava a ficar cansada.

— Se… — retomou Léon, sem ousar prosseguir.

— Tem compromisso em algum lugar? — perguntou ela.

E, à resposta do escrevente, pediu-lhe que a acompanhasse. Já naquela noite isso se soube em Yonville, e a Sra. Tuvache, mulher do prefeito, declarou diante de sua criada que a Sra. Bovary estava se comprometendo.

Para chegar à casa da ama, era preciso, depois da rua, virar à esquerda, como se fosse para o cemitério, e seguir, entre casebres e pátios, por um pequeno atalho margeado de alfeneiros. Eles estavam floridos, e também as verônicas, as roseiras-bravas, as urtigas e as amoreiras leves que se lançavam dos arbustos. Pelos buracos das sebes, avistava-se, nas choças, algum porco sobre um monte de esterco, ou vacas presas pelas correias, esfregando os chifres contra o tronco das árvores.

Os dois, lado a lado, caminhavam devagar, ela apoiando-se nele e ele retendo o passo, que media pelos dela; diante deles, um enxame de moscas volteava, zumbindo no ar quente.

Reconheceram a casa por uma velha nogueira que lhe dava sombra. Baixa e coberta de telhas pardas, ela tinha do lado de fora, sob a lucarna do sótão, uma réstia de cebolas suspensa. Feixes de lenha miúda, encostados de pé à cerca de espinhos, rodeavam um canteiro de alfaces, alguns pés de lavanda e ervilhas-de-cheiro montadas em varas.

Água suja corria espalhando-se pela relva, e havia em torno vários farrapos indistintos, meias de tricô, uma camisola de chita vermelha e um grande lençol de tecido grosso estendido ao comprido sobre a sebe. Ao ruído da cancela, a ama apareceu, trazendo no braço uma criança que mamava. Com a outra mão puxava um pobre molequinho franzino, de rosto coberto de escrófulas, filho de um chapeleiro de Rouen que os pais, muito ocupados com seu negócio, deixavam no campo.

— Entrem — disse ela; — a sua pequena está ali dormindo.

O quarto, no rés do chão, o único da casa, tinha ao fundo, contra a parede, uma cama larga sem cortinas, enquanto a masseira ocupava o lado da janela, cujo vidro fora remendado com um sol de papel azul.

No canto, atrás da porta, botinas de pregos reluzentes estavam alinhadas sob a laje do lavadouro, perto de uma garrafa cheia de óleo que trazia uma pena no gargalo; um Mathieu Laensberg arrastava-se sobre a lareira poeirenta, entre pederneiras, pontas de vela e pedaços de isca.

Enfim, a última superfluidade desse aposento era uma Fama soprando trombetas, imagem decerto recortada de algum prospecto de perfumaria, e que seis pregos de tamanco prendiam à parede.

A filha de Emma dormia no chão, num berço de vime. Ela a tomou com a coberta que a envolvia e pôs-se a cantar suavemente, balançando-se.

Léon passeava pelo quarto; parecia-lhe estranho ver aquela bela senhora, de vestido de nankim, no meio de toda aquela miséria. A Sra. Bovary enrubesceu; ele se voltou, acreditando que seus olhos talvez tivessem tido alguma impertinência. Depois ela deitou de novo a pequena, que acabava de vomitar na golinha. A ama veio logo enxugá-la, protestando que nada apareceria.

— Ela me faz bem piores — dizia —, e não faço outra coisa senão lavá-la continuamente! Se a senhora tivesse a bondade de mandar Camus, o merceeiro, deixar-me pegar um pouco de sabão quando eu precisar? Seria até mais cômodo para a senhora, pois eu não a incomodaria.

— Está bem, está bem! — disse Emma. — Adeus, mãe Rolet!

E saiu, enxugando os pés no limiar.

A boa mulher a acompanhou até o fim do pátio, falando da dificuldade que tinha para se levantar à noite.

— Às vezes fico tão quebrada que adormeço na cadeira; por isso, a senhora devia ao menos me dar uma pequena libra de café moído, que me faria um mês, e que eu tomaria de manhã com leite.

Depois de suportar seus agradecimentos, a Sra. Bovary foi embora; e já estava um pouco adiantada no atalho quando, a um ruído de tamancos, virou a cabeça: era a ama!

— O que há?

Então a camponesa, puxando-a à parte para trás de um olmo, pôs-se a falar-lhe do marido, que, com o ofício e seis francos por ano que o capitão…

— Termine depressa — disse Emma.

— Pois bem! — retomou a ama, soltando suspiros entre cada palavra —, tenho medo de que ele se entristeça ao me ver tomar café sozinha; a senhora sabe, os homens…

— Já que você terá — repetia Emma —, eu lhe darei!… Você me aborrece!

— Ai! minha pobre querida senhora, é que ele tem, por causa de seus ferimentos, cólicas terríveis no peito. Ele até diz que a sidra o enfraquece.

— Mas apresse-se, mãe Rolet!

— Portanto — retomou esta, fazendo uma reverência —, se não fosse pedir demais… — saudou ainda uma vez —, quando a senhora quiser… — e seu olhar suplicava —, um pote de aguardente — disse enfim —, e eu esfregarei com ela os pés de sua pequena, que os tem macios como a língua.

Livre da ama, Emma retomou o braço do Sr. Léon. Caminhou rapidamente por algum tempo; depois se retardou, e seu olhar, que passeava diante dela, encontrou o ombro do jovem, cuja sobrecasaca tinha uma gola de veludo preto. Seus cabelos castanhos caíam sobre ela, lisos e bem penteados. Ela reparou nas unhas dele, que eram mais longas do que se usava em Yonville.

Era uma das grandes ocupações do escrevente cuidar delas; e guardava, para esse uso, um canivete especial em seu tinteiro.

Voltaram a Yonville seguindo a beira da água. Na estação quente, a margem mais larga descobria até a base os muros dos jardins, que tinham uma escada de alguns degraus descendo ao rio. Ele corria sem ruído, rápido e frio à vista; grandes ervas finas se curvavam juntas, segundo a corrente que as empurrava, e, como cabeleiras verdes abandonadas, estendiam-se em sua limpidez.

Às vezes, na ponta dos juncos ou sobre a folha dos nenúfares, um inseto de patas finas caminhava ou pousava. O sol atravessava com um raio os pequenos glóbulos azuis das ondas que se sucediam rebentando; os velhos salgueiros desgalhados miravam na água sua casca cinzenta; além, em volta, a pradaria parecia vazia.

Era a hora do jantar nas fazendas, e a jovem mulher e seu companheiro, caminhando, não ouviam senão a cadência de seus passos sobre a terra do atalho, as palavras que se diziam e o roçar do vestido de Emma, que farfalhava todo ao redor dela.

Os muros dos jardins, guarnecidos no coroamento por pedaços de garrafa, estavam quentes como os vidros de uma estufa. Entre os tijolos, haviam crescido goivos; e, com a borda da sombrinha aberta, a Sra. Bovary, ao passar, fazia esfarelar em pó amarelo um pouco de suas flores murchas, ou então algum ramo das madressilvas e das clematites pendentes do lado de fora se arrastava por um momento sobre a seda, prendendo-se às franjas.

Falavam de uma companhia de dançarinos espanhóis, esperada em breve no teatro de Rouen.

— O senhor irá? — perguntou ela.

— Se puder — respondeu ele.

Não tinham outra coisa a dizer? Os olhos deles, contudo, estavam cheios de uma conversa mais séria; e, enquanto se esforçavam por encontrar frases banais, sentiam a mesma languidez invadi-los a ambos; era como um murmúrio da alma, profundo, contínuo, que dominava o das vozes. Surpresos de espanto diante dessa nova suavidade, não pensavam em contar um ao outro a sensação, nem em lhe descobrir a causa.

As felicidades futuras, como as praias dos trópicos, projetam sobre a imensidão que as precede suas molezas natais, uma brisa perfumada; e adormece-se nessa embriaguez, sem sequer inquietar-se com o horizonte que não se avista.

A terra, em certo ponto, fora afundada pelo passo do gado; foi preciso caminhar sobre grossas pedras verdes, espaçadas na lama. Muitas vezes, ela parava por um minuto para ver onde pousar a botina; e, vacilando sobre o seixo que tremia, os cotovelos no ar, a cintura inclinada, o olhar indeciso, ria então, com medo de cair nas poças d’água.

Quando chegaram diante de seu jardim, a Sra. Bovary empurrou a pequena cancela, subiu os degraus correndo e desapareceu.

Léon voltou ao escritório. O patrão estava ausente; ele deu uma olhada nos processos, apontou uma pena, pegou enfim o chapéu e foi-se embora.

Foi para a Pâture, no alto da costa de Argueil, à entrada da floresta; deitou-se no chão sob os pinheiros e olhou o céu através dos dedos.

— Como me aborreço! — dizia consigo. — Como me aborreço!

Achava-se digno de pena por viver naquela aldeia, tendo Homais por amigo e o Sr. Guillaumin por patrão. Este último, inteiramente ocupado com negócios, usando óculos de hastes de ouro e costeletas ruivas sobre a gravata branca, nada entendia das delicadezas do espírito, embora afetasse um gênero rígido e inglês que deslumbrara o escrevente nos primeiros tempos.

Quanto à mulher do farmacêutico, era a melhor esposa da Normandia, doce como um carneiro, estimando os filhos, o pai, a mãe, os primos, chorando pelos males alheios, deixando tudo correr em sua casa e detestando espartilhos; — mas tão lenta para mover-se, tão enfadonha de ouvir, de aspecto tão comum e de conversa tão restrita que ele nunca pensara, embora ela tivesse trinta anos, ele vinte, ambos dormissem porta com porta, e ele lhe falasse todos os dias, que ela pudesse ser mulher para alguém, nem que possuísse de seu sexo outra coisa além do vestido.

E, depois, que havia? Binet, alguns comerciantes, dois ou três taberneiros, o cura e, enfim, o Sr. Tuvache, o prefeito, com seus dois filhos, gente abastada, áspera, obtusa, que cultivava as próprias terras, fazia lautos banquetes em família, devota aliás, e de convivência inteiramente insuportável.

Mas, sobre o fundo comum de todos esses rostos humanos, a figura de Emma se destacava isolada, e, entretanto, mais distante; pois ele sentia entre ela e si como que vagos abismos.

No começo, fora à casa dela várias vezes na companhia do farmacêutico. Charles não parecera extremamente curioso de recebê-lo; e Léon não sabia como proceder entre o medo de ser indiscreto e o desejo de uma intimidade que julgava quase impossível.

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