PARTE II - Capítulo VI Madame Bovary · Capítulo 15 de 35
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PARTE II - Capítulo VI

PARTE II - Capítulo VI

Uma noite em que a janela estava aberta e em que, sentada à beira dela, acabava de olhar Lestiboudois, o bedel, que aparava os buxos, ela ouviu de súbito tocar o Angelus.

Estava-se no começo de abril, quando as prímulas florescem; um vento morno rola sobre os canteiros revolvidos, e os jardins, como mulheres, parecem fazer sua toilette para as festas do verão. Pelas ripas da latada e, além delas, em torno, via-se o rio na pradaria, onde desenhava sobre a relva sinuosidades vagabundas.

O vapor da noite passava entre os choupos sem folhas, esfumando-lhes os contornos numa tinta violeta, mais pálida e mais transparente que uma gaze sutil detida sobre seus ramos. Ao longe, reses caminhavam; não se ouviam nem seus passos nem seus mugidos; e o sino, tocando sempre, continuava nos ares sua lamentação pacífica.

A esse tinido repetido, o pensamento da jovem mulher se extraviava em suas velhas lembranças de juventude e de colégio. Recordou os grandes castiçais que ultrapassavam, no altar, os vasos cheios de flores e o tabernáculo de colunetas.

Gostaria, como outrora, de estar ainda confundida na longa fileira dos véus brancos, marcada aqui e ali de negro pelos capuzes rígidos das boas irmãs inclinadas sobre os genuflexórios; aos domingos, na missa, quando erguia a cabeça, avistava o doce rosto da Virgem entre os turbilhões azulados do incenso que subia.

Então uma ternura a tomou; sentiu-se mole e inteiramente abandonada, como penugem de pássaro que gira na tempestade; e foi sem ter consciência disso que se encaminhou para a igreja, disposta a qualquer devoção, contanto que nela absorvesse a alma e que a existência inteira ali desaparecesse.

Na praça, encontrou Lestiboudois, que vinha de volta; pois, para não abreviar a jornada, preferia interromper o trabalho e depois retomá-lo, de modo que tocava o Angelus conforme sua conveniência. Aliás, o sino, tocado mais cedo, avisava os meninos da hora do catecismo.

Alguns deles, já chegados, jogavam bolinhas de gude sobre as lajes do cemitério. Outros, escarranchados no muro, agitavam as pernas, ceifando com os tamancos as grandes urtigas nascidas entre o pequeno recinto e os últimos túmulos. Era o único lugar verde; todo o resto não passava de pedras e estava continuamente coberto de uma poeira fina, apesar da vassoura da sacristia.

As crianças, de sapatilhas, corriam ali como sobre um assoalho feito para elas, e ouviam-se os estouros de suas vozes através do zumbido do sino. Ele diminuía com as oscilações da grossa corda que, caindo das alturas do campanário, arrastava no chão a ponta. Andorinhas passavam, soltando pequenos gritos, cortavam o ar com o fio de seu voo e voltavam depressa aos ninhos amarelos, sob as telhas do beiral.

No fundo da igreja ardia uma lâmpada, isto é, um pavio de lamparina num copo suspenso. Sua luz, de longe, parecia uma mancha esbranquiçada que tremia sobre o óleo. Um longo raio de sol atravessava toda a nave e tornava ainda mais sombrias as naves laterais e os cantos.

— Onde está o cura? — perguntou a Sra. Bovary a um menino que se divertia sacudindo o torniquete em seu buraco frouxo demais.

— Já vem — respondeu ele.

Com efeito, a porta do presbitério rangeu, o abade Bournisien apareceu; as crianças, em desordem, fugiram para dentro da igreja.

— Esses moleques! — murmurou o eclesiástico. — Sempre os mesmos!

E, apanhando um catecismo em farrapos em que acabara de esbarrar com o pé:

— Não respeitam nada!

Mas, assim que avistou a Sra. Bovary:

— Desculpe-me — disse ele —, eu não a tinha reconhecido.

Enfiou o catecismo no bolso e parou, continuando a balançar entre dois dedos a pesada chave da sacristia.

A claridade do sol poente, que lhe batia em cheio no rosto, empalidecia o tecido lustroso da batina, brilhante nos cotovelos, desfiada embaixo. Manchas de gordura e de tabaco seguiam, sobre seu largo peito, a linha dos pequenos botões, e se tornavam mais numerosas à medida que se afastavam do peitilho, onde repousavam as dobras abundantes de sua pele vermelha; ela era semeada de manchas amarelas que desapareciam nos pelos ásperos da barba grisalha. Acabara de jantar e respirava ruidosamente.

— Como vai passando? — acrescentou.

— Mal — respondeu Emma. — Sofro.

— Pois eu também — retomou o eclesiástico. — Estes primeiros calores, não é? amolecem a gente espantosamente. Enfim, que quer! nascemos para sofrer, como diz São Paulo. Mas o Sr. Bovary, o que pensa disso?

— Ele! — fez ela com um gesto de desdém.

— Como! — replicou o bom homem, todo espantado. — Ele não lhe receita alguma coisa?

— Ah! — disse Emma —, não são os remédios da terra que me fariam falta.

Mas o cura, de tempos em tempos, olhava para dentro da igreja, onde todos os meninos ajoelhados se empurravam com os ombros e caíam como capuchinhos de cartas.

— Eu gostaria de saber… — retomou ela.

— Espera, espera, Riboudet! — gritou o eclesiástico com voz colérica. — Eu já vou te esquentar as orelhas, seu mau galopim!

Depois, voltando-se para Emma:

— É o filho de Boudet, o carpinteiro; os pais têm posses e o deixam fazer as fantasias. Contudo, aprenderia depressa, se quisesse, pois é cheio de espírito. E eu, às vezes, por brincadeira, o chamo então de Riboudet — como a ladeira que se toma para ir a Maromme —, e até digo: meu Riboudet. Ah! ah! Mont-Riboudet! Outro dia contei esse trocadilho a Monseigneur, que riu… dignou-se rir. — E o Sr. Bovary, como vai?

Ela parecia não ouvir. Ele continuou:

— Sempre muito ocupado, sem dúvida? Pois somos certamente, ele e eu, as duas pessoas da paróquia que mais têm o que fazer. Mas ele é o médico dos corpos — acrescentou com uma risada espessa —, e eu, o das almas!

Ela fixou no padre olhos suplicantes:

— Sim… — disse —, o senhor alivia todas as misérias.

— Ah! não me fale nisso, Sra. Bovary! Esta manhã mesmo foi preciso ir ao Bas-Diauville por causa de uma vaca empanzinada; acreditavam que era feitiço. Todas as vacas deles, nem sei como… Mas, perdão! Longuemarre e Boudet! raios! querem acabar com isso?

E, de um salto, precipitou-se para dentro da igreja.

Os meninos, então, se comprimiam em torno do grande púlpito, subiam no banco do chantre, abriam o missal; e outros, a passos de lobo, logo se arriscariam até o confessionário. Mas o cura, de súbito, distribuiu a todos uma saraivada de bofetadas. Pegando-os pela gola da jaqueta, suspendia-os do chão e os repunha de joelhos sobre as lajes do coro, com força, como se quisesse plantá-los ali.

— Vamos — disse ele, quando voltou para junto de Emma, desdobrando seu grande lenço de chita estampada, do qual meteu uma ponta entre os dentes —, os cultivadores são muito dignos de pena!

— Há outros — respondeu ela.

— Certamente! os operários das cidades, por exemplo.

— Não são eles…

— Perdoe-me! Conheci por lá pobres mães de família, mulheres virtuosas, garanto-lhe, verdadeiras santas, que nem pão tinham.

— Mas aquelas — retomou Emma, e os cantos de sua boca se torciam ao falar —, aquelas, senhor cura, que têm pão, e que não têm…

— Fogo no inverno — disse o padre.

— E que importa?

— Como! Que importa? Parece-me, a mim, que quando se está bem aquecido, bem alimentado… pois, enfim…

— Meu Deus! meu Deus! — suspirava ela.

— Sente-se incomodada? — fez ele, adiantando-se com ar inquieto. — É a digestão, sem dúvida? Deve voltar para casa, Sra. Bovary, tomar um pouco de chá; isso a fortalecerá, ou então um copo de água fresca com açúcar mascavo.

— Por quê?

E ela tinha o ar de alguém que desperta de um sonho.

— É que a senhora passava a mão pela testa. Pensei que lhe vinha uma tontura.

Depois, corrigindo-se:

— Mas a senhora me perguntava alguma coisa? O que era? Já nem sei.

— Eu? Nada… nada… — repetia Emma.

E o olhar que ela passeava em volta baixou lentamente sobre o velho de batina. Consideraram-se ambos, face a face, sem falar.

— Então, Sra. Bovary — disse ele enfim —, faça o favor de me desculpar, mas o dever antes de tudo, a senhora sabe; é preciso que eu despache meus moleques. Aí vêm as primeiras comunhões. Ainda seremos surpreendidos, temo! Por isso, a partir da Ascensão, eu os mantenho recta todas as quartas-feiras uma hora a mais. Pobres crianças! Nunca se pode encaminhá-las cedo demais na via do Senhor, como, aliás, ele próprio nos recomendou pela boca de seu divino Filho… Boa saúde, senhora; meus respeitos a seu marido!

E entrou na igreja, fazendo desde a porta uma genuflexão.

Emma o viu desaparecer entre a dupla fileira dos bancos, caminhando a passos pesados, a cabeça um pouco inclinada sobre o ombro e com as duas mãos entreabertas, que levava para fora.

Depois girou nos calcanhares, de uma vez só, como uma estátua sobre um pivô, e tomou o caminho de casa. Mas a voz grossa do cura, a voz clara dos meninos ainda lhe chegavam ao ouvido e continuavam atrás dela:

— Sois cristão?

— Sim, sou cristão.

— Que é um cristão?

— É aquele que, tendo sido batizado… batizado… batizado.

Subiu os degraus da escada segurando-se ao corrimão e, quando chegou ao quarto, deixou-se cair numa poltrona.

A luz esbranquiçada das vidraças baixava docemente em ondulações. Os móveis, em seus lugares, pareciam ter-se tornado mais imóveis e perder-se na sombra como num oceano tenebroso. A lareira estava apagada, o relógio batia sempre, e Emma se admirava vagamente com aquela calma das coisas, enquanto havia dentro dela tantos abalos.

Mas, entre a janela e a mesa de costura, a pequena Berthe estava ali, vacilando sobre suas botinhas de tricô e tentando aproximar-se da mãe para agarrar-lhe, pela ponta, as fitas do avental.

— Deixe-me! — disse esta, afastando-a com a mão.

A menina logo voltou ainda mais perto, contra seus joelhos; e, apoiando neles os braços, erguia para ela seu grande olho azul, enquanto um fio de saliva pura escorria do lábio sobre a seda do avental.

— Deixe-me! — repetiu a jovem mulher, toda irritada.

Sua expressão assustou a criança, que começou a chorar.

— Ora, deixe-me, então! — fez ela, repelindo-a com o cotovelo.

Berthe foi cair aos pés da cômoda, contra o gancho de cobre; cortou ali a face, e o sangue saiu. A Sra. Bovary precipitou-se para levantá-la, arrebentou o cordão da campainha, chamou a criada com todas as forças e já ia começar a se maldizer quando Charles apareceu. Era a hora do jantar; ele voltava.

— Olhe, querido amigo — disse-lhe Emma com voz tranquila —, a pequena, brincando, acabou de se ferir no chão.

Charles a tranquilizou; o caso não era grave, e foi buscar diaquilão.

A Sra. Bovary não desceu para a sala; quis permanecer sozinha guardando a criança. Então, ao contemplá-la dormindo, o que conservava de inquietação dissipou-se aos poucos, e ela se pareceu a si mesma muito tola e muito boa por ter-se perturbado ainda há pouco por tão pouca coisa. Berthe, com efeito, já não soluçava. Sua respiração agora erguia imperceptivelmente a coberta de algodão.

Lágrimas grossas detinham-se no canto de suas pálpebras semicerradas, que deixavam ver, entre os cílios, duas pupilas pálidas, fundas; o esparadrapo, colado em sua face, puxava-lhe obliquamente a pele esticada.

— É uma coisa estranha — pensava Emma — como esta criança é feia!

Quando Charles, às onze horas da noite, voltou da farmácia — onde fora devolver, depois do jantar, o que lhe restava de diaquilão —, encontrou a mulher de pé junto ao berço.

— Já que te asseguro que não será nada — disse ele, beijando-a na testa —, não te atormentes, pobre querida, vais te pôr doente!

Ficara muito tempo na casa do boticário. Embora não se tivesse mostrado muito comovido, o Sr. Homais, não obstante, esforçara-se por fortalecê-lo, por levantar-lhe o moral. Então tinham conversado sobre os diversos perigos que ameaçam a infância e sobre a leviandade das criadas. A Sra. Homais sabia algo disso, tendo ainda no peito as marcas de uma tigela de brasas que uma cozinheira, outrora, deixara cair em seu avental. Por isso aqueles bons pais tomavam quantidade de precauções.

As facas jamais eram afiadas, nem os cômodos encerados. Havia grades de ferro nas janelas e fortes barras nos batentes. Os pequenos Homais, apesar de sua independência, não podiam mover-se sem um vigilante atrás deles; ao menor resfriado, o pai os entupia de peitorais, e até passarem dos quatro anos todos usavam, impiedosamente, protetores acolchoados.

Era, verdade seja dita, uma mania da Sra. Homais; o marido se afligia interiormente com isso, receando para os órgãos do intelecto os possíveis resultados de semelhante compressão, e chegava a lhe dizer:

— Pretendes, então, fazer deles caraíbas ou botocudos?

Charles, entretanto, tentara várias vezes interromper a conversa.

— Tenho algo a lhe dizer — soprara em voz baixa ao ouvido do escrevente, que se pôs a caminhar diante dele na escada.

— Será que desconfia de alguma coisa? — perguntava-se Léon. Tinha palpitações no coração e se perdia em conjecturas.

Enfim, Charles, tendo fechado a porta, pediu-lhe que fosse ver pessoalmente, em Rouen, quais poderiam ser os preços de um belo daguerreótipo; era uma surpresa sentimental que reservava à mulher, uma atenção fina, seu retrato em traje preto. Mas queria saber antes ao que se ater; essas diligências não deveriam embaraçar o Sr. Léon, uma vez que ele ia à cidade quase todas as semanas.

Com que fim? Homais suspeitava, por baixo disso, alguma história de moço, alguma intriga. Mas enganava-se; Léon não perseguia nenhuma aventura amorosa. Mais triste do que nunca, a madame Lefrançois bem o percebia pela quantidade de comida que ele deixava agora no prato. Para saber mais, interrogou o coletor; Binet respondeu, em tom áspero, que não era pago pela polícia.

Seu camarada, contudo, parecia-lhe muito estranho; pois muitas vezes Léon se atirava para trás na cadeira, abrindo os braços, e se queixava vagamente da existência.

— É que o senhor não toma distrações suficientes — dizia o coletor.

— Quais?

— Eu, no seu lugar, teria um torno!

— Mas não sei tornear — respondia o escrevente.

— Ah! é verdade! — fazia o outro, acariciando a mandíbula, com um ar de desdém misturado de satisfação.

Léon estava cansado de amar sem resultados; depois, começava a sentir esse abatimento que nos causa a repetição da mesma vida, quando nenhum interesse a dirige e nenhuma esperança a sustenta. Estava tão entediado de Yonville e dos yonvillenses que a visão de certas pessoas, de certas casas, o irritava a ponto de não suportar; e o farmacêutico, por mais bonachão que fosse, tornava-se para ele completamente insuportável.

Entretanto, a perspectiva de uma situação nova o assustava tanto quanto o seduzia.

Essa apreensão transformou-se depressa em impaciência, e Paris então agitou para ele, ao longe, a fanfarra de seus bailes de máscaras com o riso de suas grisettes. Uma vez que devia lá terminar o direito, por que não partia? Quem o impedia? E começou a fazer preparativos interiores; arranjou de antemão suas ocupações. Mobiliou, em sua cabeça, um apartamento.

Levaria ali uma vida de artista! Tomaria lições de violão! Teria um robe de chambre, uma boina basca, pantufas de veludo azul! E até já admirava, sobre a lareira, dois floretes cruzados, com uma caveira e o violão por cima.

A coisa difícil era o consentimento da mãe; nada, contudo, parecia mais razoável. O próprio patrão o encorajava a visitar outro escritório, onde pudesse desenvolver-se mais. Tomando, pois, um partido médio, Léon procurou algum lugar de segundo escrevente em Rouen, não encontrou, escreveu enfim à mãe uma longa carta detalhada, em que expunha as razões de ir morar em Paris imediatamente. Ela consentiu.

Ele não se apressou.

Todos os dias, durante um mês inteiro, Hivert transportou para ele, de Yonville a Rouen, de Rouen a Yonville, baús, malas, pacotes; e, quando Léon renovou o guarda-roupa, mandou estofar de novo as três poltronas, comprou uma provisão de lenços de seda, tomou, numa palavra, mais providências do que para uma viagem em volta do mundo, adiou-se de semana em semana, até receber uma segunda carta materna que o pressionava a partir, já que desejava, antes das férias, prestar seu exame.

Quando chegou o momento dos abraços, a Sra. Homais chorou; Justin soluçava; Homais, como homem forte, dissimulou a emoção; quis ele mesmo levar o paletó do amigo até a grade do notário, que conduzia Léon a Rouen em sua carruagem. Este ainda tinha o tempo justo de despedir-se do Sr. Bovary.

Quando chegou ao alto da escada, parou, tão sem fôlego se sentia. À sua entrada, a Sra. Bovary levantou-se vivamente.

— Sou eu outra vez! — disse Léon.

— Eu tinha certeza!

Ela mordeu os lábios, e uma onda de sangue correu-lhe sob a pele, que se coloriu toda de rosa, desde a raiz dos cabelos até a borda da gola. Ficava de pé, apoiando o ombro no lambril.

— O Sr. Bovary não está, então? — retomou ele.

— Está ausente.

Ela repetiu:

— Está ausente.

Então houve um silêncio. Olharam-se; e seus pensamentos, confundidos na mesma angústia, estreitavam-se apertadamente, como dois peitos palpitantes.

— Eu gostaria muito de beijar Berthe — disse Léon.

Emma desceu alguns degraus e chamou Félicité.

Ele lançou depressa à sua volta um amplo olhar, que se estendeu pelas paredes, pelas prateleiras, pela lareira, como para penetrar tudo, levar tudo consigo.

Mas ela voltou, e a criada trouxe Berthe, que sacudia, na ponta de um barbante, um moinho de vento de cabeça para baixo.

Léon beijou-a no pescoço várias vezes.

— Adeus, pobre criança! Adeus, querida pequenina, adeus!

E a devolveu à mãe.

— Leve-a embora — disse esta.

Ficaram sós.

A Sra. Bovary, de costas, tinha o rosto pousado contra uma vidraça; Léon segurava a boina na mão e batia com ela suavemente ao longo da coxa.

— Vai chover — disse Emma.

— Tenho um manto — respondeu ele.

— Ah!

Ela se voltou, o queixo abaixado e a testa para a frente. A luz deslizava ali como sobre um mármore, até a curva das sobrancelhas, sem que se pudesse saber o que Emma olhava no horizonte nem o que pensava no fundo de si mesma.

— Então, adeus! — suspirou ele.

Ela ergueu a cabeça num movimento brusco:

— Sim, adeus… vá!

Avançaram um para o outro; ele estendeu a mão, ela hesitou.

— À inglesa, então — fez ela, abandonando a sua, enquanto se esforçava por rir.

Léon a sentiu entre os dedos, e a própria substância de todo o seu ser lhe pareceu descer naquela palma úmida.

Depois abriu a mão; seus olhos ainda se encontraram, e ele desapareceu.

Quando estava sob o mercado coberto, deteve-se e escondeu-se atrás de um pilar para contemplar uma última vez aquela casa branca com suas quatro persianas verdes. Julgou ver uma sombra atrás da janela, no quarto; mas a cortina, desprendendo-se do gancho como se ninguém lhe tocasse, moveu lentamente suas longas pregas oblíquas, que de um só golpe se estenderam todas, e ele permaneceu direito, mais imóvel que um muro de gesso. Léon pôs-se a correr.

Avistou de longe, na estrada, o cabriolé do patrão, e ao lado um homem de blusa grossa que segurava o cavalo. Homais e o Sr. Guillaumin conversavam juntos. Esperavam-no.

— Abrace-me — disse o boticário, com lágrimas nos olhos. — Eis seu paletó, meu bom amigo; cuidado com o frio! Cuide-se! Poupe-se!

— Vamos, Léon, para a carruagem! — disse o notário.

Homais inclinou-se sobre o guarda-lama e, com uma voz entrecortada pelos soluços, deixou cair estas duas palavras tristes:

— Boa viagem!

— Boa noite — respondeu o Sr. Guillaumin. — Soltem tudo!

Partiram, e Homais voltou.

A Sra. Bovary abrira a janela para o jardim e olhava as nuvens.

Elas se acumulavam no poente, do lado de Rouen, e rolavam depressa suas volutas negras, por trás das quais sobressaíam as grandes linhas do sol, como flechas de ouro de um troféu suspenso, enquanto o resto do céu vazio tinha a brancura de uma porcelana. Mas uma rajada de vento fez os choupos se curvarem e, de súbito, a chuva caiu; crepitava sobre as folhas verdes.

Depois o sol reapareceu, as galinhas cantaram, pardais batiam as asas nos arbustos úmidos, e as poças d’água sobre a areia arrastavam, ao escorrer, as flores rosadas de uma acácia.

— Ah! como ele já deve estar longe! — pensou ela.

O Sr. Homais, como de costume, veio às seis e meia, durante o jantar.

— Pois então! — disse ele ao sentar-se. — Embarcamos há pouco o nosso rapaz?

— Parece! — respondeu o médico.

Depois, virando-se na cadeira:

— E o que há de novo em sua casa?

— Pouca coisa. Minha mulher apenas se comoveu um pouco esta tarde. O senhor sabe, as mulheres, qualquer nada as perturba! A minha, sobretudo! E faríamos mal em nos revoltar contra isso, pois sua organização nervosa é muito mais maleável que a nossa.

— Pobre Léon! — dizia Charles. — Como irá viver em Paris?… Acostumar-se-á?

A Sra. Bovary suspirou.

— Ora, vamos! — disse o farmacêutico, estalando a língua. — As ceias finas nos restaurantes! os bailes de máscaras! o champanhe! Tudo isso vai rolar, garanto-lhe.

— Não creio que ele se desmande — objetou Bovary.

— Nem eu! — retomou vivamente o Sr. Homais. — Embora ele precise, contudo, acompanhar os outros, sob pena de passar por jesuíta. E o senhor não sabe a vida que levam esses pilantras, no Quartier Latin, com as atrizes! De resto, os estudantes são muito bem-vistos em Paris. Desde que tenham algum talento de salão, são recebidos nas melhores sociedades, e há até damas do faubourg Saint-Germain que se apaixonam por eles, o que lhes fornece, em seguida, ocasiões de fazer belíssimos casamentos.

— Mas — disse o médico — tenho medo por ele de que… lá…

— O senhor tem razão — interrompeu o boticário —, é o reverso da medalha! E é preciso, ali, conservar continuamente a mão no bolso. Assim, o senhor está num jardim público, suponhamos; apresenta-se um indivíduo qualquer, bem-vestido, condecorado até, que se tomaria por um diplomata; aborda-o; conversa com o senhor; insinua-se, oferece-lhe uma pitada ou apanha o seu chapéu. Depois a ligação se estreita; leva-o ao café, convida-o para ir à sua casa de campo, faz-lhe travar, entre dois vinhos, toda espécie de conhecimentos, e, três quartos das vezes, é apenas para pilhar-lhe a bolsa ou arrastá-lo a diligências perniciosas.

— É verdade — respondeu Charles; — mas eu pensava sobretudo nas doenças, na febre tifoide, por exemplo, que ataca os estudantes da província.

Emma estremeceu.

— Por causa da mudança de regime — continuou o farmacêutico —, e da perturbação que resulta disso na economia geral. E depois, a água de Paris, veja! Os pratos dos restaurantes, todas essas comidas apimentadas acabam por aquecer o sangue e não valem, digam o que disserem, um bom cozido caseiro. Sempre preferi, de minha parte, a cozinha burguesa; é mais saudável! Assim, quando eu estudava farmácia em Rouen, instalara-me numa pensão; comia com os professores.

E continuou, pois, a expor suas opiniões gerais e suas simpatias pessoais, até o momento em que Justin veio buscá-lo para uma gemada que era preciso preparar.

— Nem um instante de repouso! — exclamou ele. — Sempre preso à corrente! Não posso sair um minuto! É preciso, como cavalo de lavoura, suar sangue e água! Que coleira de miséria!

Depois, quando estava à porta:

— A propósito — disse —, sabem da novidade?

— Qual?

— É que é muito provável — retomou Homais, erguendo as sobrancelhas e assumindo uma expressão das mais sérias — que os comícios agrícolas da Seine-Inférieure se realizem este ano em Yonville-l’Abbaye. O rumor, pelo menos, circula. Esta manhã, o jornal tocava no assunto. Seria para nosso arrondissement de importância capital! Mas falaremos disso mais tarde. Eu vejo, obrigado; Justin está com a lanterna.

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