PARTE II - Capítulo VIII Madame Bovary · Capítulo 17 de 35
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PARTE II - Capítulo VIII

PARTE II - Capítulo VIII

Chegaram, com efeito, aqueles famosos Comícios! Desde a manhã da solenidade, todos os habitantes, às suas portas, conversavam sobre os preparativos; tinham enfeitado com heras o frontão da prefeitura; uma tenda, num prado, fora armada para o festim; e, no meio da praça, diante da igreja, uma espécie de bombarda devia assinalar a chegada do sr. prefeito e o nome dos agricultores laureados.

A guarda nacional de Buchy (não havia nenhuma em Yonville) viera juntar-se ao corpo dos bombeiros, do qual Binet era o capitão. Trazia naquele dia um colarinho ainda mais alto do que de costume; e, apertado na túnica, tinha o busto tão rígido e imóvel, que toda a parte vital de sua pessoa parecia ter descido para as duas pernas, que se levantavam em cadência, a passos marcados, num só movimento. Como subsistia uma rivalidade entre o coletor e o coronel, um e outro, para mostrar seus talentos, faziam seus homens manobrar à parte. Viam-se alternadamente passar e repassar as dragonas vermelhas e os peitilhos pretos.

Aquilo não terminava e sempre recomeçava! Jamais houvera semelhante aparato! Vários burgueses, desde a véspera, tinham lavado as casas; bandeiras tricolores pendiam nas janelas entreabertas; todas as tabernas estavam cheias; e, com o belo tempo que fazia, as toucas engomadas, as cruzes de ouro e os lenços coloridos pareciam mais brancos do que neve, espelhavam ao sol claro, e realçavam, com sua variegada dispersão, a sombria monotonia das sobrecasacas e dos blusões azuis.

As mulheres dos sítios vizinhos tiravam, ao descer do cavalo, o alfinete grosso que lhes apertava ao corpo o vestido arregaçado, por medo das manchas; e os maridos, ao contrário, a fim de poupar os chapéus, conservavam por cima deles lenços de bolso, dos quais seguravam um canto entre os dentes.

A multidão chegava à rua grande pelas duas extremidades da aldeia. Despejava-se das ruelas, das alamedas, das casas, e ouvia-se de tempos em tempos bater de novo o martelo das portas atrás das burguesas de luvas de fio, que saíam para ver a festa. O que sobretudo se admirava eram dois longos teixos cobertos de lampiões, que ladeavam um estrado onde ficariam as autoridades; e havia ainda, contra as quatro colunas da prefeitura, quatro espécies de varas, cada uma sustentando um pequeno estandarte de pano esverdeado, enriquecido de inscrições em letras de ouro. Lia-se num: “Ao Comércio”; noutro: “À Agricultura”; no terceiro: “À Indústria”; e no quarto: “Às Belas-Artes”.

Mas a jubilação que dilatava todos os rostos parecia ensombrecer madame Lefrançois, a estalajadeira. De pé nos degraus de sua cozinha, resmungava para si:

— Que besteira! que besteira com aquela barraca de lona! Pensam que o prefeito ficará contente de jantar lá embaixo, debaixo de uma tenda, como um saltimbanco? Chamam esses transtornos de fazer o bem do país! Não valia a pena, então, ir buscar um cozinheiro de Neufchâtel! E para quem? para vaqueiros! descalços!...

O farmacêutico passou. Trazia um fraque preto, calças de nankim, sapatos de castor e, coisa extraordinária, um chapéu — um chapéu baixo de copa.

— Às ordens! — disse ele. — Perdoe-me, estou apressado.

E, como a viúva gorda lhe perguntasse aonde ia:

— Isso lhe parece engraçado, não é? eu, que fico sempre mais confinado em meu laboratório do que um rato dentro de um queijo.

— Que queijo? — fez a estalajadeira.

— Não, nada! não é nada! — retomou Homais. — Queria somente exprimir-lhe, madame Lefrançois, que em geral permaneço todo recluso em casa. Hoje, entretanto, vista a circunstância, é preciso que...

— Ah! o senhor vai lá embaixo? — disse ela com ar de desdém.

— Sim, vou — replicou o farmacêutico, espantado. — Não faço eu parte da comissão consultiva?

A mãe Lefrançois considerou-o alguns minutos, e acabou respondendo com um sorriso:

— Isso é outra coisa! Mas que tem a lavoura a ver com o senhor? O senhor entende disso?

— Certamente entendo, pois sou farmacêutico, isto é, químico! e a química, madame Lefrançois, tendo por objeto o conhecimento da ação recíproca e molecular de todos os corpos da natureza, segue-se que a agricultura se acha compreendida em seu domínio! E, com efeito, composição dos adubos, fermentação dos líquidos, análise dos gases e influência dos miasmas, que é tudo isso, pergunto-lhe, senão química pura e simples?

A estalajadeira não respondeu. Homais continuou:

— Acredita que, para ser agrônomo, seja preciso ter arado a terra ou engordado aves pessoalmente? Mas é preciso antes conhecer a constituição das substâncias de que se trata, as jazidas geológicas, as ações atmosféricas, a qualidade dos terrenos, dos minerais, das águas, a densidade dos diferentes corpos e sua capilaridade! que sei eu? E é preciso possuir a fundo todos esses princípios de higiene, para dirigir, criticar a construção dos edifícios, o regime dos animais, a alimentação dos domésticos! É preciso ainda, madame Lefrançois, possuir a botânica; poder discernir as plantas, entende, quais são as salutares e quais as deletérias, quais as improdutivas e quais as nutritivas, se convém arrancá-las aqui e replantá-las ali, propagar umas, destruir outras; enfim, é preciso manter-se a par da ciência pelas brochuras e pelos papéis públicos, manter-se sempre atento, a fim de indicar os melhoramentos...

A estalajadeira não tirava os olhos da porta do Café Francês, e o farmacêutico prosseguiu:

— Prouvera a Deus que nossos agricultores fossem químicos, ou que ao menos escutassem mais os conselhos da ciência! Assim, eu, recentemente, escrevi um substancioso opúsculo, uma memória de mais de setenta e duas páginas, intitulada: Da sidra, de sua fabricação e de seus efeitos; seguida de algumas novas reflexões a esse respeito, que enviei à Sociedade Agronômica de Rouen; o que me valeu mesmo a honra de ser recebido entre seus membros, seção de agricultura, classe de pomologia; pois bem, se minha obra tivesse sido dada à publicidade...

Mas o farmacêutico deteve-se, tão preocupada parecia madame Lefrançois.

— Vejam só! — dizia ela. — Não se entende nada! uma espelunca dessas!

E, com encolhimentos de ombros que repuxavam sobre o peito as malhas de seu tricô, mostrava com as duas mãos a taberna do rival, de onde saíam naquele momento cantorias.

— Além do mais, isso não dura muito — acrescentou ela. — Antes de oito dias, tudo acabou.

Homais recuou de estupefação. Ela desceu os três degraus e, falando-lhe ao ouvido:

— Como! o senhor não sabe? Vão penhorá-lo esta semana. É Lheureux que o manda vender. Ele o assassinou com letras.

— Que espantosa catástrofe! — exclamou o farmacêutico, que tinha sempre expressões congruentes com todas as circunstâncias imagináveis.

A hoteleira pôs-se então a contar-lhe essa história, que sabia por Théodore, o criado do sr. Guillaumin, e, embora execrasse Tellier, censurava Lheureux. Era um encantador de serpentes, um rastejante...

— Ah! olhe — disse ela —, lá está ele sob o mercado; cumprimenta madame Bovary, que usa um chapéu verde. Ela está até no braço do sr. Boulanger.

— Madame Bovary! — fez Homais. — Apresso-me em ir apresentar-lhe minhas homenagens. Talvez ela se alegre de ter um lugar no recinto, sob o peristilo.

E, sem escutar a mãe Lefrançois, que o chamava de volta para lhe contar mais longamente, o farmacêutico afastou-se a passo rápido, sorriso nos lábios e jarrete esticado, distribuindo à direita e à esquerda quantidade de cumprimentos e ocupando muito espaço com as grandes abas de seu fraque preto, que flutuavam ao vento atrás dele.

Rodolphe, tendo-o avistado de longe, apressara o passo; mas madame Bovary perdeu o fôlego; ele se retardou então e lhe disse, sorrindo, num tom brusco:

— É para evitar esse homem gordo: a senhora sabe, o farmacêutico.

Ela lhe deu uma cotovelada.

— Que significa isso? — perguntou-se ele.

E considerou-a de esguelha, continuando a caminhar.

Seu perfil era tão calmo, que nada se podia adivinhar nele. Destacava-se em plena luz, no oval de sua capota, que tinha fitas pálidas semelhantes a folhas de junco. Seus olhos de longos cílios curvos olhavam para a frente, e, embora bem abertos, pareciam um pouco apertados pelas maçãs do rosto, por causa do sangue que pulsava suavemente sob sua pele fina. Uma cor rosa atravessava o septo do nariz. Inclinava a cabeça sobre o ombro, e via-se entre seus lábios a ponta nacarada dos dentes brancos.

— Está zombando de mim? — pensava Rodolphe.

Esse gesto de Emma, porém, fora apenas uma advertência; pois o sr. Lheureux os acompanhava, e falava com eles de tempos em tempos, como quem queria entrar na conversa:

— Eis um dia soberbo! todo mundo está fora! os ventos estão a leste.

E madame Bovary, não mais que Rodolphe, quase não lhe respondia, enquanto ao menor movimento que faziam ele se aproximava, dizendo: “Como?” e levava a mão ao chapéu.

Quando chegaram diante da casa do ferrador, em vez de seguir a estrada até a cancela, Rodolphe tomou bruscamente um caminho, arrastando madame Bovary; gritou:

— Boa-noite, sr. Lheureux! até mais ver!

— Como o despachou! — disse ela, rindo.

— Por que — retomou ele — deixar-se invadir pelos outros? e, já que hoje tenho a felicidade de estar com a senhora...

Emma corou. Ele não terminou a frase. Então falou do bom tempo e do prazer de caminhar sobre a relva. Algumas margaridas haviam rebrotado.

— Eis gentis margaridinhas — disse ele —, e o bastante para fornecer muitos oráculos a todas as apaixonadas do país.

Acrescentou:

— Se eu colhesse algumas. Que pensa disso?

— O senhor está apaixonado? — fez ela, tossindo um pouco.

— Eh! eh! quem sabe? — respondeu Rodolphe.

O prado começava a encher-se, e as donas de casa esbarravam neles com seus grandes guarda-chuvas, seus cestos e suas crianças. Muitas vezes era preciso afastar-se diante de uma longa fila de camponesas, criadas de meias azuis, sapatos baixos, anéis de prata, e que cheiravam a leite quando se passava perto delas. Andavam de mãos dadas, e se espalhavam assim por toda a extensão da campina, desde a linha dos choupos até a tenda do banquete.

Mas era o momento do exame, e os agricultores, um após outro, entravam numa espécie de recinto formado por uma longa corda sustentada por estacas.

Os animais estavam ali, o focinho voltado para a corda, alinhando confusamente suas ancas desiguais. Porcos adormecidos enterravam o focinho na terra; bezerros mugiam; ovelhas baliam; as vacas, com uma perna dobrada, espalhavam o ventre sobre a grama e, ruminando lentamente, piscavam as pálpebras pesadas sob os mosquitos que zumbiam em torno delas. Carroceiros, de braços nus, retinham pelo cabresto garanhões empinados, que relinchavam de narinas abertas na direção das éguas. Elas permaneciam tranquilas, alongando a cabeça e a crina pendente, enquanto os potros descansavam à sua sombra ou vinham às vezes mamá-las; e, sobre a longa ondulação de todos aqueles corpos comprimidos, via-se levantar ao vento, como uma onda, alguma crina branca, ou então sobressair chifres agudos, e cabeças de homens que corriam.

À parte, fora das liças, cem passos mais longe, havia um grande touro negro, amordaçado, trazendo um anel de ferro na narina, e que não se movia mais do que uma besta de bronze. Um menino em farrapos o segurava por uma corda.

Entretanto, entre as duas fileiras, senhores avançavam a passo pesado, examinando cada animal, depois se consultavam em voz baixa. Um deles, que parecia mais considerável, tomava, enquanto caminhava, algumas notas num álbum. Era o presidente do júri: sr. Derozerays de la Panville. Assim que reconheceu Rodolphe, avançou vivamente e lhe disse, sorrindo com ar amável:

— Como, sr. Boulanger, o senhor nos abandona?

Rodolphe protestou que iria, mas, quando o presidente desapareceu:

— Francamente, não — retomou —, não irei; a sua companhia vale bem a dele.

E, zombando dos comícios, Rodolphe, para circular mais à vontade, mostrava ao guarda sua insígnia azul, e até se detinha às vezes diante de algum belo exemplar, que madame Bovary não admirava muito. Percebeu isso e então começou a fazer gracejos sobre as damas de Yonville, a respeito de sua indumentária; depois desculpou-se, ele mesmo, pelo desleixo da sua.

Seu traje tinha essa incoerência de coisas comuns e requintadas em que as pessoas comuns, habitualmente, creem entrever a revelação de uma existência excêntrica, as desordens do sentimento, as tiranias da arte, e sempre certo desprezo pelas convenções sociais, o que o seduz ou o exaspera. Assim, sua camisa de cambraia, de punhos pregueados, estufava ao acaso do vento, pela abertura do colete de brim cinza; e as calças de largas listras descobriam nos tornozelos suas botinas de nankim, guarnecidas de couro envernizado. Eram tão envernizadas que a relva nelas se refletia. Com elas pisava o esterco dos cavalos, uma mão no bolso da jaqueta e o chapéu de palha posto de lado.

— Aliás — acrescentou ele —, quando se mora no campo...

— Tudo é trabalho perdido — disse Emma.

— É verdade! — replicou Rodolphe. — Pensar que nem um só desses bravos é capaz de compreender sequer o corte de uma roupa!

Então falaram da mediocridade provinciana, das existências que ela sufocava, das ilusões que ali se perdiam.

— Por isso — dizia Rodolphe —, afundo-me numa tristeza...

— O senhor! — fez ela com espanto. — Mas eu o julgava muito alegre.

— Ah! sim, de aparência, porque, no meio do mundo, sei pôr no rosto uma máscara zombeteira; e, contudo, quantas vezes, à vista de um cemitério, ao luar, perguntei a mim mesmo se não faria melhor em ir juntar-me aos que estão dormindo...

— Oh! E seus amigos? — disse ela. — O senhor não pensa neles.

— Meus amigos? quais? tenho-os? Quem se inquieta comigo?

E acompanhou estas últimas palavras com uma espécie de assobio entre os lábios.

Mas foram obrigados a afastar-se um do outro, por causa de um grande amontoado de cadeiras que um homem carregava atrás deles. Estava tão sobrecarregado, que se via somente a ponta de seus tamancos, com as extremidades de seus dois braços, estendidos em linha reta. Era Lestiboudois, o coveiro, que transportava, no meio da multidão, as cadeiras da igreja. Cheio de imaginação em tudo o que dizia respeito a seus interesses, descobrira esse meio de tirar proveito dos comícios; e a ideia lhe dava certo, pois já não sabia a quem atender. Com efeito, os aldeões, que tinham calor, disputavam esses assentos cuja palha cheirava a incenso, e apoiavam-se contra seus grossos espaldares sujos pela cera dos círios com certa veneração.

Madame Bovary retomou o braço de Rodolphe; ele continuou, como falando consigo mesmo:

— Sim! tantas coisas me faltaram! sempre sozinho! Ah! se eu tivesse tido um objetivo na vida, se houvesse encontrado uma afeição, se tivesse achado alguém... Oh! como eu teria gasto toda a energia de que sou capaz, teria superado tudo, quebrado tudo!

— Parece-me, no entanto — disse Emma —, que o senhor não é muito digno de pena.

— Ah! a senhora acha? — fez Rodolphe.

— Pois enfim... — retomou ela —, o senhor é livre.

Hesitou:

— Rico.

— Não zombe de mim — respondeu ele.

E ela jurava que não zombava, quando um tiro de canhão retiniu; imediatamente, empurraram-se, todos misturados, rumo à aldeia.

Era um falso alarme. O sr. prefeito não chegava; e os membros do júri achavam-se muito embaraçados, sem saber se deviam começar a sessão ou esperar ainda.

Enfim, no fundo da praça, apareceu um grande landau de aluguel, puxado por dois cavalos magros, que um cocheiro de chapéu branco açoitava com todo o braço. Binet mal teve tempo de gritar: “Às armas!” e o coronel de imitá-lo. Correram aos feixes. Precipitaram-se. Alguns até esqueceram o colarinho. Mas a equipagem prefeitural pareceu adivinhar esse embaraço, e os dois cavalos magros emparelhados, balançando sobre a corrente, chegaram em trote miúdo diante do peristilo da prefeitura, justamente no momento em que a guarda nacional e os bombeiros ali se desdobravam, ao rufar do tambor e marcando passo.

— Alinhar! — gritou Binet.

— Alto! — gritou o coronel. — Por fila à esquerda!

E, depois de uma apresentação de armas em que o chocalhar das braçadeiras, ao se desenrolarem, soou como um caldeirão de cobre despencando pelas escadas, todos os fuzis recaíram.

Então viu-se descer da carruagem um senhor vestido com um fraque curto de bordado prateado, calvo na fronte, com topete na nuca, a tez lívida e aparência das mais benignas. Seus dois olhos, muito grandes e cobertos de pálpebras espessas, semicerravam-se para considerar a multidão, ao mesmo tempo que ele erguia o nariz pontudo e fazia sorrir a boca retraída. Reconheceu o prefeito pela faixa, e explicou-lhe que o sr. prefeito da comarca não pudera vir. Ele próprio era conselheiro de prefeitura; depois acrescentou algumas desculpas. Tuvache respondeu-lhe com civilidades, o outro declarou-se confuso; e ficaram assim, face a face, as testas quase se tocando, com os membros do júri ao redor, o conselho municipal, os notáveis, a guarda nacional e a multidão. O sr. conselheiro, apertando contra o peito o pequeno tricórnio preto, reiterava suas saudações, enquanto Tuvache, curvado como um arco, também sorria, gaguejava, procurava as frases, protestava sua devoção à monarquia e a honra que se fazia a Yonville.

Hippolyte, o rapaz da estalagem, veio tomar os cavalos do cocheiro pela rédea, e, mancando de seu pé torto, levou-os para sob o pórtico do Lion d’or, onde muitos camponeses se amontoaram para olhar a carruagem. O tambor bateu, o obuseiro troou, e os senhores, em fila, subiram para sentar-se no estrado, nas poltronas de veludo de Utrecht vermelho emprestadas por madame Tuvache.

Toda aquela gente se assemelhava. Suas faces moles e louras, um pouco curtidas pelo sol, tinham a cor da sidra doce, e suas suíças tufadas escapavam de grandes colarinhos rígidos, que gravatas brancas, de laço bem aberto, mantinham. Todos os coletes eram de veludo, de gola xale; todos os relógios traziam, na ponta de uma longa fita, algum sinete oval de cornalina; e apoiavam as duas mãos nas duas coxas, afastando com cuidado o cavalo das calças, cujo pano ainda novo reluzia mais brilhantemente que o couro das botas grossas.

As damas da sociedade ficavam atrás, sob o vestíbulo, entre as colunas, enquanto o comum da multidão estava em frente, de pé ou sentado em cadeiras. Com efeito, Lestiboudois havia trazido para ali todas as que tirara da campina, e ainda corria a cada minuto buscar outras na igreja, causando com seu comércio tal embaraço, que era grande a dificuldade para chegar até a pequena escada do estrado.

— Eu acho — disse o sr. Lheureux (dirigindo-se ao farmacêutico, que passava para ganhar seu lugar) — que deveriam ter plantado ali dois mastros venezianos: com alguma coisa um pouco severa e rica como novidade, teria sido um efeito muito bonito.

— Certamente — respondeu Homais. — Mas que quer? foi o prefeito que meteu tudo sob o próprio barrete. Ele não tem muito gosto, esse pobre Tuvache, e é mesmo completamente desprovido daquilo que se chama o gênio das artes.

Entretanto Rodolphe, com madame Bovary, subira ao primeiro andar da prefeitura, à sala das deliberações, e, como estivesse vazia, declarara que ali ficariam bem para desfrutar do espetáculo com mais sossego. Tomou três tamboretes ao redor da mesa oval, sob o busto do monarca, e, aproximando-os de uma das janelas, sentaram-se um junto do outro.

Houve uma agitação no estrado, longos sussurros, entendimentos. Enfim, o sr. conselheiro levantou-se. Sabia-se agora que ele se chamava Lieuvain, e repetiam seu nome de um para outro na multidão. Depois de cotejar algumas folhas e aproximá-las dos olhos para ver melhor, começou:

“Senhores,

Que me seja permitido, antes de tudo (antes de vos entreter do objeto desta reunião de hoje, e esse sentimento, estou seguro, será partilhado por todos vós), que me seja permitido, digo, fazer justiça à administração superior, ao governo, ao monarca, senhores, ao nosso soberano, a esse rei bem-amado a quem nenhum ramo da prosperidade pública ou particular é indiferente, e que dirige ao mesmo tempo, com mão tão firme e tão sábia, o carro do Estado entre os perigos incessantes de um mar tempestuoso, sabendo, além disso, fazer respeitar a paz como a guerra, a indústria, o comércio, a agricultura e as belas-artes.”

— Eu deveria — disse Rodolphe — recuar um pouco.

— Por quê? — disse Emma.

Mas, nesse momento, a voz do conselheiro elevou-se num tom extraordinário. Declamava:

“O tempo já não é, senhores, em que a discórdia civil ensanguentava nossas praças públicas, em que o proprietário, o negociante, o próprio operário, ao adormecer à noite num sono tranquilo, tremiam de se ver despertados de repente ao ruído dos sinos incendiários, em que as máximas mais subversivas minavam audaciosamente as bases...”

— É que poderiam — retomou Rodolphe — me perceber daqui de baixo; depois eu teria quinze dias de desculpas a dar e, com minha má reputação...

— Oh! o senhor se calunia — disse Emma.

— Não, não, é execrável, eu lhe juro.

“Mas, senhores”, prosseguia o conselheiro, “se, afastando de minha lembrança esses quadros sombrios, lanço os olhos sobre a situação atual de nossa bela pátria, que vejo? Por toda parte florescem o comércio e as artes; por toda parte novas vias de comunicação, como outras tantas artérias novas no corpo do Estado, estabelecem novos vínculos; nossos grandes centros manufatureiros retomaram sua atividade; a religião, mais fortalecida, sorri a todos os corações; nossos portos estão cheios, a confiança renasce, e enfim a França respira!...”

— De resto — acrescentou Rodolphe —, talvez, do ponto de vista do mundo, tenham razão.

— Como assim? — fez ela.

— Ora! — disse ele. — Não sabe que há almas continuamente atormentadas? Precisam alternadamente do sonho e da ação, das paixões mais puras, dos prazeres mais furiosos, e assim a gente se lança em toda sorte de fantasias, de loucuras.

Então ela o olhou como se contempla um viajante que passou por países extraordinários, e retomou:

— Nós, pobres mulheres, nem mesmo temos essa distração!

— Triste distração, pois nela não se encontra a felicidade.

— Mas encontra-se algum dia? — perguntou ela.

— Sim, ela aparece um dia — respondeu ele.

“E é isso que compreendestes”, dizia o conselheiro. “Vós, agricultores e trabalhadores dos campos; vós, pioneiros pacíficos de uma obra toda de civilização! vós, homens de progresso e de moralidade! compreendestes, digo, que as tempestades políticas são ainda mais verdadeiramente temíveis que as desordens da atmosfera...”

— Ela aparece um dia — repetiu Rodolphe —, um dia, de repente, e quando já se desesperava. Então horizontes se entreabrem, é como uma voz que grita: “Ei-la!” Sente-se a necessidade de confiar a essa pessoa toda a própria vida; de lhe dar tudo, de lhe sacrificar tudo! Não se explica, adivinha-se. Avistamo-nos nos sonhos. (E olhava para ela.) Enfim, está ali, esse tesouro que tanto se buscou, ali, diante de nós; brilha, cintila. Contudo, ainda se duvida, não se ousa acreditar; fica-se deslumbrado, como se saíssemos das trevas para a luz.

E, ao terminar essas palavras, Rodolphe acrescentou a pantomima à frase. Passou a mão sobre o rosto, como um homem tomado de vertigem; depois deixou-a cair sobre a de Emma. Ela retirou a sua. Mas o conselheiro lia sempre:

“E quem se espantaria com isso, senhores? Somente aquele que fosse bastante cego, bastante mergulhado (não temo dizê-lo), bastante mergulhado nos preconceitos de outra era para desconhecer ainda o espírito das populações agrícolas. Onde encontrar, com efeito, mais patriotismo do que nos campos, mais devoção à causa pública, mais inteligência, numa palavra? E não entendo, senhores, essa inteligência superficial, vão ornamento dos espíritos ociosos, mas antes essa inteligência profunda e moderada, que se aplica acima de tudo a perseguir fins úteis, contribuindo assim para o bem de cada um, para a melhoria comum e para o sustentáculo dos Estados, fruto do respeito às leis e da prática dos deveres...”

— Ah! de novo — disse Rodolphe. — Sempre os deveres, estou cansado dessas palavras. São um monte de velhos papalvos em colete de flanela, e beatas com aquecedor e rosário, que nos cantam continuamente aos ouvidos: “O dever! o dever!” Eh! por Deus! o dever é sentir o que é grande, amar o que é belo, e não aceitar todas as convenções da sociedade, com as ignomínias que ela nos impõe.

— Entretanto... entretanto... — objetava madame Bovary.

— Ora, não! Por que declamar contra as paixões? Não são elas a única coisa bela que há sobre a terra, a fonte do heroísmo, do entusiasmo, da poesia, da música, das artes, de tudo, enfim?

— Mas é preciso — disse Emma — seguir um pouco a opinião do mundo e obedecer à sua moral.

— Ah! é que há duas — replicou ele. — A pequena, a convencionada, a dos homens, a que varia sem cessar e que berra tão alto, agita-se embaixo, rente ao chão, como esse ajuntamento de imbecis que a senhora vê. Mas a outra, a eterna, está em toda parte ao redor e acima, como a paisagem que nos circunda e o céu azul que nos ilumina.

O sr. Lieuvain acabava de enxugar a boca com o lenço. Retomou:

“E que teria eu a fazer, senhores, demonstrando-vos aqui a utilidade da agricultura? Quem, pois, provê às nossas necessidades? quem, pois, fornece à nossa subsistência? Não é o agricultor? O agricultor, senhores, que, semeando com mão laboriosa os sulcos fecundos dos campos, faz nascer o trigo, que, moído, é reduzido a pó por meio de engenhosos aparelhos, sai deles sob o nome de farinha e, dali, transportado às cidades, é logo entregue ao padeiro, que dele confecciona um alimento para o pobre como para o rico. Não é ainda o agricultor que engorda, para nossas vestes, seus abundantes rebanhos nos pastos? Pois como nos vestiríamos, como nos alimentaríamos sem o agricultor? E mesmo, senhores, é preciso ir tão longe procurar exemplos? Quem não refletiu muitas vezes sobre toda a importância que se retira desse modesto animal, ornamento de nossos terreiros, que fornece ao mesmo tempo um travesseiro macio para nossos leitos, sua carne suculenta para nossas mesas e ovos? Mas eu não acabaria, se fosse preciso enumerar uns após outros os diferentes produtos que a terra bem cultivada, como mãe generosa, prodigaliza a seus filhos. Aqui, é a vinha; ali, são as macieiras de sidra; acolá, a colza; mais longe, os queijos; e o linho; senhores, não esqueçamos o linho! que tomou nestes últimos anos um crescimento considerável e sobre o qual chamarei mais particularmente vossa atenção.”

Não precisava chamá-la: pois todas as bocas da multidão se mantinham abertas, como para beber-lhe as palavras. Tuvache, ao lado dele, escutava-o arregalando os olhos; o sr. Derozerays, de tempos em tempos, fechava suavemente as pálpebras; e, mais longe, o farmacêutico, com seu filho Napoléon entre as pernas, fazia concha com a mão junto ao ouvido para não perder uma só sílaba. Os outros membros do júri balançavam lentamente o queixo dentro do colete, em sinal de aprovação. Os bombeiros, ao pé do estrado, descansavam sobre as baionetas; e Binet, imóvel, ficava com o cotovelo para fora, com a ponta do sabre no ar. Talvez ouvisse, mas nada devia enxergar, por causa da viseira do capacete, que lhe descia sobre o nariz. Seu tenente, o filho mais moço do senhor Tuvache, exagerara ainda o seu; pois usava um enorme, que lhe bamboleava na cabeça, deixando aparecer uma ponta de seu lenço de chita. Sorria ali embaixo com uma doçura toda infantil, e sua carinha pálida, onde gotas escorriam, tinha uma expressão de gozo, abatimento e sono.

A praça, até as casas, estava cheia de gente. Viam-se pessoas de cotovelos apoiados em todas as janelas, outras de pé em todas as portas, e Justin, diante da vitrine da farmácia, parecia todo fixo na contemplação daquilo que olhava. Apesar do silêncio, a voz do sr. Lieuvain se perdia no ar. Chegava em retalhos de frases, que interrompia aqui e ali o ruído das cadeiras na multidão; depois ouvia-se, de repente, partir atrás de si um longo mugido de boi, ou então os balidos dos cordeiros que se respondiam na esquina das ruas. Com efeito, vaqueiros e pastores haviam empurrado seus animais até ali, e eles mugiam de tempos em tempos, enquanto arrancavam com a língua alguma ponta de folhagem que lhes pendia no focinho.

Rodolphe aproximara-se de Emma, e dizia em voz baixa, falando depressa:

— Esta conjuração do mundo não a revolta? Há um só sentimento que ela não condene? Os instintos mais nobres, as simpatias mais puras são perseguidos, caluniados, e, se duas pobres almas enfim se encontram, tudo está organizado para que não possam unir-se. Tentarão, contudo, baterão as asas, chamar-se-ão. Oh! não importa, cedo ou tarde, em seis meses, dez anos, reunir-se-ão, amar-se-ão, porque a fatalidade o exige e porque nasceram uma para a outra.

Mantinha os braços cruzados sobre os joelhos e, erguendo assim o rosto para Emma, olhava-a de perto, fixamente. Ela distinguia em seus olhos pequenos raios de ouro irradiando-se em torno das pupilas negras, e sentia até o perfume da pomada que lhe lustruava a cabeleira. Então uma languidez a tomou; lembrou-se daquele visconde que a fizera valsar na Vaubyessard, e cuja barba exalava, como aqueles cabelos, esse odor de baunilha e limão; e, maquinalmente, semicerrava as pálpebras para melhor respirá-lo. Mas, no gesto que fez arqueando-se sobre a cadeira, avistou ao longe, bem no fundo do horizonte, a velha diligência Hirondelle, que descia lentamente a costa dos Leux, arrastando atrás de si um longo penacho de poeira. Era nessa carruagem amarela que Léon, tantas vezes, voltara para ela; e por aquela estrada lá embaixo que partira para sempre! Acreditou vê-lo em frente, à janela; depois tudo se confundiu, nuvens passaram; pareceu-lhe que ainda rodava na valsa, sob o fogo dos lustres, no braço do visconde, e que Léon não estava longe, que ia vir... e, no entanto, sentia sempre a cabeça de Rodolphe junto dela.

A doçura dessa sensação penetrava assim seus desejos de outrora, e, como grãos de areia sob uma rajada de vento, eles turbilhonavam na lufada sutil do perfume que se espalhava sobre sua alma. Abriu as narinas várias vezes, fortemente, para aspirar o frescor das heras em torno dos capitéis. Retirou as luvas, enxugou as mãos; depois, com o lenço, abanava o rosto, enquanto através do latejar das têmporas ouvia o rumor da multidão e a voz do conselheiro salmodiando suas frases.

Ele dizia:

“Continuai! perseverai! não escuteis nem as sugestões da rotina, nem os conselhos demasiado apressados de um empirismo temerário! Aplicai-vos sobretudo à melhoria do solo, aos bons adubos, ao desenvolvimento das raças cavalar, bovina, ovina e suína! Que estes comícios sejam para vós como arenas pacíficas, onde o vencedor, ao sair, estenderá a mão ao vencido e fraternizará com ele, na esperança de um êxito melhor! E vós, veneráveis servidores! humildes domésticos, cujos penosos labores nenhum governo até hoje tomara em consideração, vinde receber a recompensa de vossas virtudes silenciosas, e estai convencidos de que o Estado, doravante, tem os olhos fixos em vós, que vos encoraja, vos protege, dará razão às vossas justas reclamações e aliviará, tanto quanto estiver em si, o fardo de vossos penosos sacrifícios!”

O sr. Lieuvain tornou então a sentar-se; o sr. Derozerays levantou-se, começando outro discurso. O seu talvez não fosse tão florido quanto o do conselheiro; mas recomendava-se por um feitio de estilo mais positivo, isto é, por conhecimentos mais especiais e considerações mais elevadas. Assim, o elogio do governo ocupava nele menos lugar; a religião e a agricultura ocupavam mais. Via-se ali a relação de uma com a outra, e como sempre haviam concorrido para a civilização. Rodolphe, com madame Bovary, conversava sobre sonhos, pressentimentos, magnetismo. Remontando ao berço das sociedades, o orador descrevia aqueles tempos ferozes em que os homens viviam de bolotas, no fundo dos bosques. Depois haviam deixado a pele dos animais; envergado o pano; cavado sulcos; plantado a vinha. Era isso um bem, e não havia nessa descoberta mais inconvenientes do que vantagens? O sr. Derozerays propunha-se esse problema. Do magnetismo, pouco a pouco, Rodolphe chegara às afinidades, e, enquanto o sr. presidente citava Cincinato à sua charrua, Diocleciano plantando suas couves, e os imperadores da China inaugurando o ano com semeaduras, Rodolphe explicava à jovem senhora que aquelas atrações irresistíveis tiravam sua causa de alguma existência anterior.

— Assim, nós — dizia ele —, por que nos conhecemos? que acaso o quis? É que, através do afastamento, sem dúvida, como dois rios que correm para se juntar, nossas inclinações particulares nos haviam impelido um para o outro.

E tomou-lhe a mão; ela não a retirou.

“Conjunto de boas culturas!” — gritou o presidente.

— Há pouco, por exemplo, quando vim à sua casa...

“Ao sr. Bizet, de Quincampoix.”

— Sabia eu que a acompanharia?

“Setenta francos!”

— Cem vezes mesmo quis partir, e segui a senhora, fiquei.

“Esterco.”

— Como ficaria esta noite, amanhã, nos outros dias, a vida inteira!

“Ao sr. Caron, d’Argueil, uma medalha de ouro!”

— Pois nunca encontrei na companhia de ninguém um encanto tão completo.

“Ao sr. Bain, de Givry-Saint-Martin!”

— Por isso levarei comigo sua lembrança.

“Por um carneiro merino...”

— Mas a senhora me esquecerá, terei passado como uma sombra.

“Ao sr. Belot, de Notre-Dame...”

— Oh! não, não é? serei alguma coisa em seu pensamento, em sua vida?

“Raça suína, prêmio ex aequo: aos srs. Lehérissé e Cullembourg; sessenta francos!”

Rodolphe apertava-lhe a mão, e a sentia toda quente e trêmula como uma rola cativa que quer retomar o voo; mas, fosse porque tentasse desprendê-la ou porque respondesse àquela pressão, ela fez um movimento com os dedos; ele exclamou:

— Oh! obrigado! A senhora não me repele! É boa! compreende que sou seu! Deixe-me vê-la, contemplá-la!

Um golpe de vento que entrou pelas janelas enrugou o tapete da mesa, e, na praça, embaixo, todas as grandes toucas das camponesas se levantaram, como asas de borboletas brancas que se agitam.

“Emprego de tortas de sementes oleaginosas” — continuou o presidente.

Ele se apressava:

“Adubos flamengos — cultura do linho — drenagem — arrendamentos de longo prazo — serviços de domésticos.”

Rodolphe não falava mais. Olhavam-se. Um desejo supremo fazia estremecer seus lábios secos; e, suavemente, sem esforço, seus dedos se confundiram.

“Catherine-Nicaise-Élisabeth Leroux, de Sassetot-la-Guerrière, por cinquenta e quatro anos de serviço na mesma fazenda, uma medalha de prata — no valor de vinte e cinco francos!”

— Onde está Catherine Leroux? — repetiu o conselheiro.

Ela não se apresentava, e ouviam-se vozes que cochichavam:

— Vá!

— Não.

— À esquerda!

— Não tenha medo!

— Ah! como ela é besta!

— Enfim, está aí? — exclamou Tuvache.

— Sim!... lá está ela!

— Então que se aproxime!

Viu-se então avançar sobre o estrado uma velhinha de ar temeroso, que parecia encolher-se dentro de suas pobres roupas. Tinha nos pés grossos tamancos de madeira e, ao longo dos quadris, um grande avental azul. Seu rosto magro, cercado por uma touca sem borda, era mais pregueado de rugas que uma maçã reineta murcha, e das mangas de sua blusa vermelha saíam duas mãos longas, de articulações nodosas. O pó dos celeiros, a potassa das barrelas e a suarda das lãs as haviam tão bem encrostado, arranhado, endurecido, que pareciam sujas embora estivessem enxaguadas em água limpa; e, de tanto terem servido, ficavam entreabertas, como que para apresentar por si mesmas o humilde testemunho de tantos sofrimentos suportados. Uma espécie de rigidez monacal elevava a expressão de seu rosto. Nada de triste ou enternecido amolecia aquele olhar pálido. Na convivência com os animais, ela lhes tomara o mutismo e a placidez. Era a primeira vez que se via no meio de companhia tão numerosa; e, interiormente assustada com as bandeiras, os tambores, os senhores de fraque preto e a cruz de honra do conselheiro, permanecia toda imóvel, sem saber se devia avançar ou fugir, nem por que a multidão a empurrava e por que os examinadores sorriam para ela.

Assim se mantinha, diante daqueles burgueses satisfeitos, aquele meio século de servidão.

— Aproxime-se, venerável Catherine-Nicaise-Élisabeth Leroux! — disse o sr. conselheiro, que tomara das mãos do presidente a lista dos laureados.

E, examinando alternadamente a folha de papel e a velha mulher, repetia em tom paternal:

— Aproxime-se, aproxime-se!

— A senhora é surda? — disse Tuvache, saltando em sua poltrona.

E pôs-se a gritar-lhe no ouvido:

— Cinquenta e quatro anos de serviço! Uma medalha de prata! Vinte e cinco francos! É para a senhora.

Depois, quando recebeu a medalha, ela a contemplou. Então um sorriso de beatitude se espalhou por seu rosto, e ouviram-na resmungar enquanto se retirava:

— Vou dá-la ao cura lá de casa, para que me diga missas.

— Que fanatismo! — exclamou o farmacêutico, inclinando-se para o tabelião.

A sessão terminara; a multidão se dispersou; e, agora que os discursos haviam sido lidos, cada um retomava sua posição e tudo voltava ao costume: os patrões ralhavam com os criados, e estes batiam nos animais, triunfadores indolentes que voltavam ao estábulo, uma coroa verde entre os chifres.

Entretanto, os guardas nacionais haviam subido ao primeiro andar da prefeitura com brioches espetados nas baionetas, e o tambor do batalhão carregava uma cesta de garrafas. Madame Bovary tomou o braço de Rodolphe; ele a reconduziu até sua casa; separaram-se diante da porta; depois ele passeou sozinho pela campina, enquanto esperava a hora do banquete.

O festim foi longo, barulhento, mal servido; estavam tão comprimidos que mal conseguiam mover os cotovelos, e as tábuas estreitas que serviam de bancos quase se romperam sob o peso dos convivas. Comiam abundantemente. Cada um se servia segundo sua quota. O suor corria por todas as frontes; e um vapor esbranquiçado, como a bruma de um rio numa manhã de outono, flutuava acima da mesa, entre os lampiões suspensos.

Rodolphe, as costas apoiadas contra a chita da tenda, pensava tão fortemente em Emma que nada ouvia. Atrás dele, sobre a relva, criados empilhavam pratos sujos; seus vizinhos falavam, ele não lhes respondia; enchiam-lhe o copo, e um silêncio se estabelecia em seu pensamento, apesar do crescimento do rumor. Sonhava com o que ela dissera e com a forma de seus lábios; seu rosto, como num espelho mágico, brilhava sobre a chapa das barretinas; as pregas de seu vestido desciam ao longo das paredes, e dias de amor se desenrolavam ao infinito nas perspectivas do futuro.

Reviu-a à noite, durante os fogos de artifício; mas ela estava com o marido, madame Homais e o farmacêutico, que se atormentava muito com o perigo dos foguetes perdidos; e, a cada momento, deixava a companhia para ir fazer recomendações a Binet.

As peças pirotécnicas enviadas ao endereço do senhor Tuvache haviam, por excesso de precaução, sido trancadas em sua adega; por isso a pólvora úmida quase não se inflamava, e a peça principal, que devia figurar um dragão mordendo a cauda, falhou completamente. De tempos em tempos partia uma pobre vela romana; então a multidão boquiaberta soltava um clamor em que se misturava o grito das mulheres cuja cintura era beliscada na escuridão.

Emma, silenciosa, aninhava-se docemente contra o ombro de Charles; depois, o queixo erguido, acompanhava no céu negro o jato luminoso dos foguetes. Rodolphe a contemplava à luz dos lampiões que ardiam.

Eles se apagaram pouco a pouco. As estrelas se acenderam. Algumas gotas de chuva começaram a cair. Ela amarrou o lenço sobre a cabeça nua.

Nesse momento, o fiacre do conselheiro saiu da estalagem. Seu cocheiro, que estava bêbado, adormeceu de repente; e via-se de longe, por cima da capota, entre as duas lanternas, a massa de seu corpo que balançava da direita para a esquerda conforme o bamboleio das molas.

— Em verdade — disse o farmacêutico —, bem que se deveria agir com rigor contra a embriaguez! Eu gostaria que se inscrevessem semanalmente, à porta da prefeitura, num quadro ad hoc, os nomes de todos aqueles que, durante a semana, se tivessem intoxicado com álcoois. Aliás, sob o aspecto da estatística, ter-se-ia ali como que anais patentes que se iria, se preciso... Mas perdoem.

E correu ainda em direção ao capitão.

Este voltava para casa. Ia rever seu torno.

— Talvez não fizesse mal — disse-lhe Homais — mandar um de seus homens, ou ir o senhor mesmo...

— Deixe-me em paz — respondeu o coletor —, já que não há nada!

— Tranquilizem-se — disse o farmacêutico, quando voltou para junto dos amigos. — O sr. Binet me certificou de que as medidas estão tomadas. Nenhuma centelha terá caído. As bombas estão cheias. Vamos dormir.

— Francamente! bem que preciso — fez madame Homais, que bocejava consideravelmente; — mas, de qualquer modo, tivemos um belo dia para a nossa festa.

Rodolphe repetiu em voz baixa e com um olhar terno:

— Oh! sim, muito bela!

E, tendo-se saudado, voltaram-se as costas.

Dois dias depois, no Fanal de Rouen, havia um grande artigo sobre os comícios. Homais o compusera, de um só fôlego, já no dia seguinte:

“Por que estes festões, estas flores, estas guirlandas? Para onde corria esta multidão como as vagas de um mar em fúria, sob as torrentes de um sol tropical que derramava seu calor sobre nossas glebas?”

Em seguida, falava da condição dos camponeses. Certamente, o governo fazia muito, mas não o bastante! “Coragem!”, gritava-lhe; “mil reformas são indispensáveis, realizemo-las.” Depois, abordando a entrada do conselheiro, não esquecia “o ar marcial de nossa milícia”, nem “nossas mais vivazes aldeãs”, nem “os velhos de cabeça calva, espécie de patriarcas que ali estavam, e dos quais alguns, destroços de nossas imortais falanges, ainda sentiam bater o coração ao som varonil dos tambores.” Citava-se entre os primeiros membros do júri, e mesmo lembrava, numa nota, que o sr. Homais, farmacêutico, enviara uma memória sobre a sidra à Sociedade de Agricultura. Quando chegava à distribuição das recompensas, descrevia a alegria dos laureados em traços ditirâmbicos. O pai abraçava o filho, o irmão ao irmão, o esposo à esposa. Mais de um mostrava com orgulho sua humilde medalha, e sem dúvida, voltando para casa, junto de sua boa dona de casa, tê-la-á pendurado chorando às paredes discretas de sua choupana.

“Por volta das seis horas, um banquete, servido na relva do sr. Liégeard, reuniu os principais participantes da festa. A maior cordialidade não deixou de reinar ali. Diversos brindes foram propostos: sr. Lieuvain, ao monarca! sr. Tuvache, ao prefeito! sr. Derozerays, à agricultura! sr. Homais, à indústria e às belas-artes, essas duas irmãs! sr. Leplichey, aos melhoramentos! À noite, um brilhante fogo de artifício iluminou de súbito os ares. Dir-se-ia um verdadeiro caleidoscópio, um autêntico cenário de Ópera, e por um momento nossa pequena localidade pôde julgar-se transportada para o meio de um sonho das Mil e Uma Noites.

“Constatemos que nenhum acontecimento funesto veio perturbar esta reunião de família.”

E acrescentava: “Notou-se apenas a ausência do clero. Sem dúvida as sacristias entendem o progresso de outro modo. Livre a vós, senhores de Loyola!”

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