PARTE II - Capítulo V Madame Bovary · Capítulo 14 de 35
Obra Menu

PARTE II - Capítulo V

PARTE II - Capítulo V

Foi num domingo de fevereiro, uma tarde em que nevava.

Todos eles, o Sr. e a Sra. Bovary, Homais e o Sr. Léon, tinham partido para ver, a meia légua de Yonville, no vale, uma fiação de linho que se estava instalando. O boticário levara consigo Napoleão e Athalie, para lhes fazer exercício, e Justin os acompanhava, trazendo guarda-chuvas ao ombro.

Nada, entretanto, era menos curioso que aquela curiosidade. Um grande espaço de terreno vazio, onde se achavam, misturadas a montes de areia e de seixos, algumas rodas de engrenagem já enferrujadas, rodeava um longo edifício quadrangular, atravessado por quantidade de pequenas janelas. Ainda não estava acabado de construir, e via-se o céu através das ripas da cobertura. Preso à trave do frontão, um ramo de palha entremeado de espigas fazia estalar ao vento suas fitas tricolores.

Homais falava. Explicava à companhia a importância futura daquele estabelecimento, calculava a resistência dos assoalhos, a espessura das paredes, e lamentava muito não possuir uma bengala métrica, como o Sr. Binet tinha uma para seu uso particular.

Emma, que lhe dava o braço, apoiava-se um pouco em seu ombro, e olhava o disco do sol irradiando ao longe, na bruma, sua palidez deslumbrante; mas voltou a cabeça: Charles estava ali. Tinha a boina enterrada sobre as sobrancelhas, e seus dois grossos lábios tremelicavam, o que acrescentava ao rosto alguma coisa de estúpido; as próprias costas, suas costas tranquilas, eram irritantes de ver, e ela encontrava ali, espalhada sobre a sobrecasaca, toda a platitude do personagem.

Enquanto o observava, saboreando assim, em sua irritação, uma espécie de volúpia depravada, Léon avançou um passo. O frio, que o empalidecia, parecia depositar em sua fisionomia uma languidez mais doce; entre a gravata e o pescoço, a gola da camisa, um pouco frouxa, deixava ver a pele; uma ponta de orelha aparecia sob uma mecha de cabelo, e seu grande olho azul, erguido para as nuvens, pareceu a Emma mais límpido e mais belo que esses lagos das montanhas onde o céu se mira.

— Infeliz! — exclamou de repente o boticário.

E correu para o filho, que acabava de se precipitar num monte de cal para pintar os sapatos de branco. Sob as censuras com que o esmagavam, Napoleão começou a soltar urros, enquanto Justin lhe enxugava os sapatos com um chumaço de palha. Mas teria sido preciso uma faca; Charles ofereceu a sua.

— Ah! — disse ela consigo —, ele traz uma faca no bolso, como um camponês!

A geada caía, e regressaram para Yonville.

À noite, a Sra. Bovary não foi à casa dos vizinhos; e, quando Charles saiu, quando ela se sentiu só, o paralelo recomeçou na nitidez de uma sensação quase imediata e com esse alongamento de perspectiva que a lembrança dá aos objetos. Olhando da cama o fogo claro que ardia, ainda via, como lá longe, Léon de pé, fazendo dobrar com uma das mãos sua vareta e segurando com a outra Athalie, que chupava tranquilamente um pedaço de gelo.

Achava-o encantador; não podia desprender-se dele; recordou suas outras atitudes em outros dias, frases que dissera, o som de sua voz, toda a sua pessoa; e repetia, adiantando os lábios como para um beijo:

— Sim, encantador! encantador!… Será que não ama? — perguntou a si mesma. — A quem, então?… Ora, a mim!

Todas as provas, de uma só vez, se estenderam diante dela, e seu coração deu um salto. A chama da lareira fazia tremer no teto uma claridade alegre; ela virou-se de costas, espreguiçando os braços.

Então começou a eterna lamentação: “Oh! se o céu tivesse querido! Por que não foi assim? Quem, afinal, o impedia?…”

Quando Charles, à meia-noite, voltou, ela pareceu despertar, e, como ele fez barulho ao despir-se, queixou-se de enxaqueca; depois perguntou, negligentemente, o que se passara naquela noite.

— O Sr. Léon — disse ele — subiu cedo.

Ela não pôde deixar de sorrir, e adormeceu com a alma cheia de um novo encantamento.

No dia seguinte, ao cair da noite, recebeu a visita do senhor Lheureux, comerciante de novidades. Era um homem hábil, esse lojista.

Gascon de nascimento, mas tornado normando, ele duplicava sua loquacidade meridional com a prudência do país de Caux. Seu rosto gordo, mole e sem barba parecia tingido por uma decocção de alcaçuz claro, e sua cabeleira branca tornava ainda mais vivo o brilho duro de seus olhinhos negros. Ignorava-se o que fora outrora: mascate, diziam uns; banqueiro em Routot, segundo outros. O que é certo é que fazia, de cabeça, cálculos complicados de assustar o próprio Binet.

Polido até a obsequiosidade, mantinha sempre os rins meio curvados, na posição de alguém que saúda ou que convida.

Depois de deixar à porta o chapéu guarnecido de crepe, pousou sobre a mesa uma caixa verde, e começou por queixar-se à senhora, com muitas civilidades, de ter ficado até aquele dia sem obter sua confiança. Uma pobre loja como a dele não era feita para atrair uma elegante; acentuou a palavra.

Contudo, bastava-lhe mandar, e ele se encarregaria de fornecer o que ela quisesse, tanto em armarinho como em lingerie, meias ou novidades; pois ia à cidade quatro vezes por mês, regularmente. Tinha relações com as casas mais fortes.

Podia-se falar dele nos Três Irmãos, na Barba de Ouro ou no Grande Selvagem; todos esses senhores o conheciam como as próprias mãos! Hoje, portanto, vinha mostrar à senhora, de passagem, diferentes artigos que possuía, graças a uma ocasião das mais raras. E retirou da caixa meia dúzia de golas bordadas.

A Sra. Bovary as examinou.

— Não preciso de nada — disse ela.

Então o Sr. Lheureux exibiu delicadamente três xales argelinos, vários pacotes de agulhas inglesas, um par de pantufas de palha e, enfim, quatro porta-ovos de coco, vazados a cinzel por forçados. Depois, as duas mãos sobre a mesa, o pescoço estendido, o corpo inclinado, seguia, de boca aberta, o olhar de Emma, que passeava indeciso por aquelas mercadorias.

De tempos em tempos, como para tirar-lhes o pó, dava um golpe de unha na seda dos xales, desdobrados em todo o seu comprimento; e eles estremeciam com um ruído leve, fazendo cintilar, à luz esverdeada do crepúsculo, como pequenas estrelas, as lantejoulas de ouro do tecido.

— Quanto custam?

— Uma miséria — respondeu ele —; mas não há pressa; quando a senhora quiser; não somos judeus!

Ela refletiu por alguns instantes, e acabou ainda por agradecer ao Sr. Lheureux, que replicou sem se comover:

— Pois bem! Havemos de nos entender mais tarde; com as senhoras sempre me arranjei, salvo com a minha, entretanto!

Emma sorriu.

— Era para lhe dizer — retomou ele com ar bonachão, depois de sua pilhéria — que não é o dinheiro que me inquieta… Eu lhe daria, se fosse preciso.

Ela fez um gesto de surpresa.

— Ah! — tornou ele vivamente e em voz baixa —, eu não precisaria ir longe para lhe encontrar; conte com isso!

E pôs-se a perguntar notícias do pai Tellier, dono do Café Francês, que o Sr. Bovary tratava então.

— Que é que ele tem, afinal, o pai Tellier?… Tosse a ponto de sacudir a casa inteira, e temo muito que, em breve, lhe seja mais necessário um paletó de pinho do que uma camisola de flanela! Fez tantas farras quando era moço! Essa gente, senhora, não tinha a menor ordem! Calcinou-se na aguardente! Mas é triste, apesar de tudo, ver uma pessoa conhecida ir-se embora.

E, enquanto fechava de novo as correias da caixa, discorria assim sobre a clientela do médico.

— É o tempo, sem dúvida — disse, olhando as vidraças com uma cara contrariada —, que causa essas doenças! Eu também não me sinto em meus eixos; será preciso mesmo que, um destes dias, eu venha consultar o Sr. Bovary, por uma dor que sinto nas costas. Enfim, até logo, Sra. Bovary; às suas ordens, criado muito humilde!

E fechou a porta devagar.

Emma mandou que lhe servissem o jantar no quarto, junto ao fogo, numa bandeja; demorou-se a comer; tudo lhe pareceu bom.

— Como fui ajuizada! — dizia consigo, pensando nos xales.

Ouviu passos na escada: era Léon. Levantou-se e pegou sobre a cômoda, entre alguns panos por fazer bainha, o primeiro da pilha. Parecia muito ocupada quando ele apareceu.

A conversa foi lânguida. A Sra. Bovary a abandonava a cada minuto, enquanto ele permanecia, por sua vez, como todo embaraçado. Sentado numa cadeira baixa, perto da chaminé, fazia girar nos dedos o estojo de marfim; ela empurrava a agulha ou, de tempos em tempos, com a unha, franzia as pregas da tela. Ela não falava; ele se calava, cativado por seu silêncio como o teria sido por suas palavras.

— Pobre rapaz! — pensava ela.

— Em que lhe desagrado? — perguntava-se ele.

Léon, entretanto, acabou por dizer que devia, um destes dias, ir a Rouen por um assunto do escritório.

— Sua assinatura de música terminou; devo renová-la?

— Não — respondeu ela.

— Por quê?

— Porque…

E, apertando os lábios, puxou lentamente uma longa agulhada de fio cinzento.

Aquele trabalho irritava Léon. Os dedos de Emma pareciam esfolar-se nas pontas; veio-lhe à cabeça uma frase galante, mas ele não arriscou.

— A senhora o abandona, então? — retomou ele.

— O quê? — disse ela vivamente. — A música? Ah! meu Deus, sim! Não tenho eu a casa a manter, meu marido a cuidar, enfim, mil coisas, muitos deveres que passam antes?

Ela olhou para o relógio. Charles estava atrasado. Então fez-se de preocupada. Duas ou três vezes mesmo repetiu:

— Ele é tão bom!

O escrevente estimava o Sr. Bovary. Mas aquela ternura a respeito dele espantou-o de modo desagradável; não obstante, continuou o elogio, que dizia fazer a todos, e sobretudo ao farmacêutico.

— Ah! é um bravo homem — retomou Emma.

— Certamente — retomou o escrevente.

E pôs-se a falar da Sra. Homais, cuja aparência muito negligente de ordinário os fazia rir.

— Que importa isso? — interrompeu Emma. — Uma boa mãe de família não se inquieta com sua toilette.

Depois recaiu em seu silêncio.

O mesmo aconteceu nos dias seguintes; seus discursos, suas maneiras, tudo mudou. Viram-na tomar a sério a casa, voltar regularmente à igreja e manter a criada com mais severidade.

Retirou Berthe da ama. Félicité a trazia quando vinham visitas, e a Sra. Bovary a despia a fim de mostrar seus membros. Declarava adorar as crianças; era sua consolação, sua alegria, sua loucura, e acompanhava as carícias de expansões líricas que, a outros que não os yonvillenses, teriam lembrado a Sachette de Notre-Dame de Paris.

Quando Charles voltava, encontrava junto às cinzas as pantufas a aquecer. Seus coletes agora já não careciam de forro, nem suas camisas de botões, e dava até prazer contemplar no armário todas as toucas de algodão arrumadas em pilhas iguais.

Ela já não resmungava, como outrora, quando ele propunha dar voltas pelo jardim; o que ele propunha era sempre consentido, embora ela não adivinhasse as vontades a que se submetia sem murmurar; — e quando Léon o via ao canto do fogo, depois do jantar, as duas mãos sobre o ventre, os dois pés nos ferros da lareira, a face avermelhada pela digestão, os olhos úmidos de felicidade, com a criança que se arrastava no tapete e aquela mulher de cintura fina que, por cima do encosto da poltrona, vinha beijá-lo na testa:

— Que loucura! — dizia consigo. — E como chegar até ela?

Ela lhe pareceu, pois, tão virtuosa e inacessível que toda esperança, mesmo a mais vaga, o abandonou.

Mas, por essa renúncia, ele a colocava em condições extraordinárias. Ela se desprendeu, para ele, das qualidades carnais de que ele nada tinha a obter; e foi, em seu coração, subindo sempre e dele se afastando, à maneira magnífica de uma apoteose que voa. Era um desses sentimentos puros que não embaraçam o exercício da vida, que se cultivam porque são raros, e cuja perda afligiria mais do que a posse alegra.

Emma emagreceu, suas faces empalideceram, o rosto se alongou.

Com seus bandós negros, seus grandes olhos, o nariz reto, o andar de ave e sempre silenciosa agora, não parecia atravessar a existência tocando-a apenas de leve, e trazer na fronte a marca vaga de alguma predestinação sublime? Era tão triste e tão calma, tão doce ao mesmo tempo e tão reservada, que perto dela a gente se sentia tomado por um encanto glacial, como se estremece nas igrejas sob o perfume das flores misturado ao frio dos mármores.

Nem os outros escapavam a essa sedução. O farmacêutico dizia:

— É uma mulher de grandes meios, e não ficaria deslocada numa subprefeitura.

As burguesas admiravam sua economia, os clientes sua polidez, os pobres sua caridade.

Mas ela estava cheia de cobiças, de raiva, de ódio. Aquele vestido de pregas retas escondia um coração transtornado, e aqueles lábios tão pudicos não contavam a tormenta. Estava apaixonada por Léon, e procurava a solidão, a fim de poder, mais à vontade, deleitar-se com a imagem dele. A visão de sua pessoa perturbava a volúpia dessa meditação.

Emma palpitava ao rumor de seus passos; depois, em sua presença, a emoção tombava, e não lhe restava em seguida senão um imenso assombro que acabava em tristeza.

Léon não sabia que, quando saía da casa dela desesperado, ela se levantava atrás dele a fim de vê-lo na rua. Ela se inquietava com seus movimentos; espiava seu rosto; inventou toda uma história para encontrar pretexto de visitar-lhe o quarto.

A mulher do farmacêutico lhe parecia muito feliz por dormir sob o mesmo teto; e seus pensamentos continuamente se abatiam sobre aquela casa, como os pombos do Lion d’Or que vinham mergulhar ali, nas calhas, suas patas rosadas e suas asas brancas. Mas, quanto mais Emma se apercebia de seu amor, mais o reprimia, para que não aparecesse, e para diminuí-lo. Gostaria que Léon o adivinhasse; e imaginava acasos, catástrofes que o teriam facilitado.

O que a retinha, sem dúvida, era a preguiça ou o espanto, e também o pudor. Pensava que o repelira para longe demais, que já não era tempo, que tudo estava perdido. Depois o orgulho, a alegria de dizer consigo: “Sou virtuosa”, e de olhar-se no espelho tomando poses resignadas, consolava-a um pouco do sacrifício que acreditava fazer.

Então, os apetites da carne, as cobiças de dinheiro e as melancolias da paixão, tudo se confundiu num mesmo sofrimento; — e, em vez de dele desviar o pensamento, prendia-o ainda mais ali, excitando-se à dor e procurando por toda parte as ocasiões. Irritava-se com um prato mal servido ou uma porta entreaberta, gemia pelo veludo que não possuía, pela felicidade que lhe faltava, por seus sonhos altos demais, por sua casa estreita demais.

O que a exasperava era que Charles não parecia desconfiar de seu suplício. A convicção que ele tinha de fazê-la feliz parecia-lhe um insulto imbecil, e sua segurança a esse respeito, ingratidão. Por quem, então, era ela virtuosa? Não era ele, ele, o obstáculo a toda felicidade, a causa de toda miséria, e como o ardilhão pontudo dessa correia complexa que a prendia por todos os lados?

Assim, ela transferiu para ele apenas o ódio numeroso que resultava de seus tédios, e cada esforço para diminuí-lo só servia para aumentá-lo; pois esse sofrimento inútil se acrescentava aos outros motivos de desespero e contribuía ainda mais para o afastamento. Sua própria doçura lhe dava revoltas. A mediocridade doméstica a empurrava para fantasias luxuosas; a ternura matrimonial, para desejos adúlteros.

Teria querido que Charles a espancasse, para poder detestá-lo com mais justiça, vingar-se dele. Espantava-se às vezes com as conjecturas atrozes que lhe chegavam ao pensamento; e era preciso continuar sorrindo, ouvir repetir que era feliz, fingir sê-lo, deixá-lo acreditar?

Tinha, entretanto, náuseas dessa hipocrisia. Tentações a tomavam de fugir com Léon, para algum lugar, bem longe, a fim de experimentar um destino novo; mas logo se abria em sua alma um vago abismo, cheio de obscuridade.

— Além disso, ele já não me ama — pensava; — que será de mim? Que socorro esperar, que consolação, que alívio?

Ficava quebrada, ofegante, inerte, soluçando em voz baixa e com lágrimas que corriam.

— Por que não diz isso ao senhor? — perguntava-lhe a criada, quando entrava durante essas crises.

— São os nervos — respondia Emma; — não lhe fale nisso, você o afligiria.

— Ah! sim — retomava Félicité —, a senhora é justamente como a Guérine, a filha do pai Guérin, o pescador do Pollet, que conheci em Dieppe antes de vir para sua casa. Ela era tão triste, tão triste, que, ao vê-la de pé no limiar da casa, dava a impressão de um pano mortuário estendido diante da porta. O mal dela, ao que parece, era uma espécie de nevoeiro que tinha na cabeça, e os médicos nada podiam, nem o cura tampouco.

Quando aquilo a tomava forte demais, ela ia sozinha para a beira do mar, de tal modo que o tenente da alfândega, fazendo sua ronda, muitas vezes a encontrava estendida de bruços, chorando sobre os seixos. Depois, após o casamento, isso lhe passou, dizem.

— Mas a mim — retomava Emma — foi depois do casamento que isso me veio.

1/1
Menu

Fazer anotação