PARTE II - Capítulo XII Madame Bovary · Capítulo 21 de 35
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PARTE II - Capítulo XII

PARTE II - Capítulo XII

Recomeçaram a amar-se. Muitas vezes até, no meio do dia, Emma lhe escrevia de repente; depois, através das vidraças, fazia um sinal a Justin, que, desatando depressa o pano de chão, voava à Huchette. Rodolphe chegava; era para ela lhe dizer que se entediava, que o marido era odioso e sua existência horrível.

— Que posso eu fazer? — exclamou ele um dia, impacientado.

— Ah! se quisesses!...

Ela estava sentada no chão, entre seus joelhos, os bandós desfeitos, o olhar perdido.

— O quê, então? — fez Rodolphe.

Ela suspirou.

— Iríamos viver em outro lugar..., em alguma parte...

— Estás louca, de verdade! — disse ele, rindo. — É possível?

Ela voltou ao assunto; ele teve o ar de não compreender e desviou a conversa.

O que ele não compreendia era toda aquela perturbação numa coisa tão simples quanto o amor. Ela tinha um motivo, uma razão e como que um auxiliar para seu apego. Essa ternura, com efeito, crescia a cada dia sob a repulsão pelo marido. Quanto mais se entregava a um, mais execrava o outro; nunca Charles lhe parecia tão desagradável, de dedos tão quadrados, espírito tão pesado, modos tão comuns quanto depois dos encontros com Rodolphe, quando se achavam juntos.

Então, fazendo a esposa e a virtuosa, inflamava-se à ideia daquela cabeça cujos cabelos negros se viravam em cacho sobre a testa bronzeada, daquela cintura ao mesmo tempo tão robusta e tão elegante, daquele homem enfim que possuía tanta experiência na razão, tanto arrebatamento no desejo! Era para ele que limava as unhas com cuidado de cinzelador, e nunca havia cold-cream bastante sobre sua pele, nem patchuli em seus lenços.

Carregava-se de pulseiras, anéis, colares. Quando ele devia vir, enchia de rosas seus dois grandes vasos de vidro azul, e dispunha seu aposento e sua pessoa como uma cortesã que espera um príncipe. Era preciso que a criada estivesse sem cessar branqueando roupa; e, durante o dia inteiro, Félicité não saía da cozinha, onde o pequeno Justin, que muitas vezes lhe fazia companhia, a olhava trabalhar.

Com o cotovelo sobre a longa tábua onde ela passava roupa, ele considerava avidamente todos aqueles pertences de mulher espalhados ao redor: as anáguas de basin, os lenços, as golas e as calçolas de cordão, largas nos quadris e que se estreitavam embaixo.

— Para que serve isso? — perguntava o rapaz, passando a mão sobre a crinolina ou os colchetes.

— Tu nunca viste nada? — respondia Félicité, rindo. — Como se tua patroa, madame Homais, não usasse outros iguais!

— Ah! sim! madame Homais!

E acrescentava num tom meditativo:

— Será que ela é uma senhora como Madame?

Mas Félicité se impacientava por vê-lo assim rodeando-a. Tinha seis anos mais que ele, e Théodore, o criado do sr. Guillaumin, começava a fazer-lhe a corte.

— Deixa-me em paz! — dizia ela, deslocando seu pote de goma. — Vai antes pilar amêndoas; estás sempre fuçando do lado das mulheres; espera para te meter nisso, moleque ruim, que tenhas barba no queixo.

— Ora, não se zangue, vou engraxar as botinas dela.

E logo alcançava sobre o batente os calçados de Emma, todos empastados de lama — a lama dos encontros —, que se desprendia em pó sob seus dedos, e que ele olhava subir lentamente num raio de sol.

— Como tens medo de estragá-las! — dizia a cozinheira, que não usava tantos modos quando ela mesma as limpava, porque Madame, assim que o tecido já não estava fresco, as abandonava a ela.

Emma tinha uma porção delas no armário, e as gastava à medida, sem que Charles jamais se permitisse a menor observação.

Foi assim que ele desembolsou trezentos francos por uma perna de pau que ela julgou conveniente dar de presente a Hippolyte. O encaixe era guarnecido de cortiça, havia articulações de mola, uma mecânica complicada recoberta por uma calça preta, terminada por uma bota envernizada. Mas Hippolyte, não ousando usar todos os dias uma perna tão bela, suplicou a madame Bovary que lhe arranjasse outra mais cômoda. O médico, bem entendido, pagou ainda as despesas dessa aquisição.

Então o rapaz da estrebaria pouco a pouco retomou seu ofício. Via-se-o como outrora percorrer a aldeia, e, quando Charles ouvia de longe, no calçamento, o ruído seco de sua bengala, tomava depressa outro caminho.

Foi o sr. Lheureux, o comerciante, quem se encarregou da encomenda; isso lhe deu a oportunidade de frequentar Emma. Conversava com ela sobre as novas mercadorias de Paris, sobre mil curiosidades femininas; mostrava-se muito complacente e nunca reclamava dinheiro. Emma abandonava-se a essa facilidade de satisfazer todos os caprichos.

Assim, quis ter, para dá-lo a Rodolphe, um belíssimo chicote que vira em Rouen, numa loja de guarda-chuvas. O sr. Lheureux, na semana seguinte, colocou-o sobre sua mesa. Mas, no dia seguinte, apresentou-se na casa dela com uma fatura de duzentos e setenta francos, sem contar os centavos.

Emma ficou muito embaraçada: todas as gavetas da escrivaninha estavam vazias; deviam-se mais de quinze dias a Lestiboudois, dois trimestres à criada, quantidade de outras coisas ainda, e Bovary esperava impaciente o envio do sr. Derozerays, que tinha o costume, todos os anos, de lhe pagar por volta de São Pedro.

Ela conseguiu primeiro afastar Lheureux; enfim ele perdeu a paciência: era cobrado, seus capitais estavam ausentes, e, se não recuperasse alguns, seria forçado a retomar todas as mercadorias que ela tinha.

— Ora, retome-as! — disse Emma.

— Oh! estou brincando! — replicou ele. — Apenas lamento o chicote. Francamente, vou pedi-lo de volta ao senhor.

— Não! não! — fez ela.

— Ah! eu te peguei! — pensou Lheureux.

E, seguro de sua descoberta, saiu, repetindo em meia voz e com seu pequeno assobio habitual:

— Pois seja! veremos! veremos!

Ela sonhava como sair dali quando a cozinheira, entrando, depositou sobre a lareira um pequeno rolo de papel azul, da parte do sr. Derozerays. Emma saltou sobre ele, abriu-o. Havia quinze napoleões. Era a conta. Ouviu Charles na escada; atirou o ouro ao fundo da gaveta e tomou a chave.

Três dias depois, Lheureux reapareceu.

— Tenho um arranjo a propor-lhe — disse; — se, em vez da soma combinada, a senhora quisesse tomar...

— Ei-la — fez ela, colocando-lhe na mão catorze napoleões.

O comerciante ficou estupefato. Então, para dissimular a decepção, espalhou-se em desculpas e ofertas de serviço que Emma recusou todas; depois ficou alguns minutos apalpando, no bolso do avental, as duas moedas de cem sous que ele lhe dera de troco. Prometia-se economizar, a fim de devolver mais tarde...

— Ora! — pensou —, ele não pensará mais nisso.

Além do chicote com cabo de prata dourada, Rodolphe recebera um sinete com esta divisa: Amor nel cor; além disso, uma echarpe para fazer de cachecol, e enfim um porta-charutos igualzinho ao do visconde, que Charles outrora apanhara na estrada e que Emma conservava. Esses presentes, contudo, o humilhavam. Recusou vários; ela insistiu, e Rodolphe acabou por obedecer, achando-a tirânica e invasiva demais.

Depois, ela tinha ideias estranhas:

— Quando soar meia-noite — dizia —, pensarás em mim!

E, se ele confessava não ter pensado, vinham reprovações em abundância, que acabavam sempre pela eterna palavra:

— Tu me amas?

— Mas sim, amo-te! — respondia ele.

— Muito?

— Certamente!

— Não amaste outras, hein?

— Pensas que me encontraste virgem? — exclamava ele, rindo.

Emma chorava, e ele se esforçava por consolá-la, enfeitando com trocadilhos seus protestos.

— Oh! é que eu te amo! — retomava ela. — Amo-te a ponto de não poder passar sem ti, sabes bem? Às vezes tenho desejos de rever-te em que todas as cóleras do amor me dilaceram. Pergunto a mim mesma: “Onde está ele? Talvez fale a outras mulheres? Elas lhe sorriem, ele se aproxima...” Oh! não, não é? nenhuma te agrada? Há mais bonitas; mas eu sei amar melhor! Sou tua serva e tua concubina! Tu és meu rei, meu ídolo! és bom! és belo! és inteligente! és forte!

Ele ouvira dizerem-lhe tantas vezes essas coisas que elas nada tinham, para ele, de original. Emma se assemelhava a todas as amantes; e o encanto da novidade, caindo pouco a pouco como uma roupa, deixava ver nua a eterna monotonia da paixão, que tem sempre as mesmas formas e a mesma linguagem. Ele não distinguia, esse homem tão cheio de prática, a dessemelhança dos sentimentos sob a paridade das expressões. Porque lábios libertinos ou venais lhe haviam murmurado frases parecidas, acreditava apenas fracamente na candura daquelas; era preciso descontar, pensava, os discursos exagerados que escondem afeições medíocres; como se a plenitude da alma às vezes não transbordasse pelas metáforas mais vazias, já que ninguém, jamais, pode dar a medida exata de suas necessidades, nem de suas concepções, nem de suas dores, e a palavra humana é como um caldeirão rachado em que batemos melodias de fazer dançar os ursos, quando queríamos enternecer as estrelas.

Mas, com essa superioridade crítica pertencente a quem, em qualquer compromisso, se mantém atrás, Rodolphe percebeu naquele amor outros gozos a explorar. Julgou todo pudor incômodo. Tratou-a sem cerimônia. Fez dela alguma coisa dócil e corrompida.

Era uma espécie de apego idiota, cheio de admiração por ele, de volúpias para ela, uma beatitude que a entorpecia; e sua alma se afundava nessa embriaguez e nela se afogava, encolhida, como o duque de Clarence em seu tonel de malvasia.

Pelo efeito apenas de seus hábitos amorosos, madame Bovary mudou de modos. Seus olhares tornaram-se mais ousados, suas palavras mais livres; teve até a inconveniência de passear com o sr. Rodolphe, um cigarro à boca, como para afrontar o mundo; enfim, os que ainda duvidavam não duvidaram mais quando a viram, certo dia, descer da Hirondelle, a cintura apertada num colete, à maneira de um homem; e madame Bovary mãe, que, depois de uma espantosa cena com o marido, viera refugiar-se na casa do filho, não foi a burguesa menos escandalizada.

Muitas outras coisas lhe desagradaram: primeiro, Charles não dera ouvidos a seus conselhos quanto à proibição dos romances; depois, o gênero da casa lhe desagradava; permitiu-se observações, e houve uma briga, uma vez sobretudo, a propósito de Félicité. Madame Bovary mãe, na véspera à noite, atravessando o corredor, surpreendera-a na companhia de um homem, um homem de colarinho castanho, de cerca de quarenta anos, que, ao ruído de seus passos, escapara depressa da cozinha. Então Emma pôs-se a rir; mas a boa senhora enfureceu-se, declarando que, a menos que se zombasse dos costumes, era preciso vigiar os das criadas.

— De que mundo é a senhora? — disse a nora, com um olhar tão impertinente que madame Bovary lhe perguntou se não defendia a própria causa.

— Saia! — fez a jovem, levantando-se de um salto.

— Emma!... mamãe!... — exclamava Charles para reconciliá-las.

Mas ambas haviam fugido em sua exasperação. Emma batia os pés, repetindo:

— Ah! que educação! que camponesa!

Ele correu à mãe; ela estava fora de si, balbuciava:

— É uma insolente! uma leviana! pior, talvez!

E queria partir imediatamente, se a outra não viesse pedir-lhe desculpas. Charles voltou então à mulher e lhe suplicou que cedesse; pôs-se de joelhos; ela acabou respondendo:

— Pois seja! eu vou.

Com efeito, estendeu a mão à sogra com uma dignidade de marquesa, dizendo-lhe:

— Desculpe-me, madame.

Depois, tendo subido de novo ao quarto, Emma atirou-se de bruços sobre a cama e chorou ali como uma criança, a cabeça enterrada no travesseiro.

Tinham combinado, ela e Rodolphe, que, em caso de acontecimento extraordinário, ela prenderia à veneziana um pequeno pedaço de papel branco, para que, se por acaso ele se encontrasse em Yonville, corresse à ruela, atrás da casa. Emma fez o sinal; esperava havia três quartos de hora quando de repente avistou Rodolphe no canto do mercado. Sentiu a tentação de abrir a janela, de chamá-lo; mas ele já desaparecera. Ela caiu de novo em desespero.

Logo, entretanto, pareceu-lhe que alguém caminhava na calçada. Era ele, sem dúvida; desceu a escada, atravessou o pátio. Ele estava lá, fora. Ela se atirou em seus braços.

— Toma cuidado — disse ele.

— Ah! se soubesses! — retomou ela.

E começou a lhe contar tudo, às pressas, sem sequência, exagerando os fatos, inventando vários, prodigalizando parênteses tão abundantemente que ele nada compreendia.

— Vamos, meu pobre anjo, coragem, consola-te, paciência!

— Mas há quatro anos que tenho paciência e sofro!... Um amor como o nosso deveria se confessar à face do céu! Eles me torturam. Não aguento mais! Salva-me!

Ela se apertava contra Rodolphe. Seus olhos, cheios de lágrimas, cintilavam como chamas sob a água; o peito ofegava em golpes rápidos; ele nunca a amara tanto, de modo que perdeu a cabeça e lhe disse:

— Que é preciso fazer? que queres?

— Leva-me contigo! — exclamou ela. — Arrebata-me!... Oh! eu te suplico!

E se precipitou sobre sua boca, como para agarrar ali o consentimento inesperado que se exalava num beijo.

— Mas... — retomou Rodolphe.

— O quê?

— E tua filha?

Ela refletiu alguns minutos, depois respondeu:

— Nós a levaremos, tanto pior!

— Que mulher! — disse ele consigo, vendo-a afastar-se.

Pois ela acabava de escapar para o jardim. Chamavam-na.

Madame Bovary mãe, nos dias seguintes, ficou muito espantada com a metamorfose da nora. Com efeito, Emma se mostrou mais dócil, e levou a deferência até pedir-lhe uma receita para conservar pepinos em vinagre.

Seria para melhor enganá-los a ambos? Ou queria, por uma espécie de estoicismo voluptuoso, sentir mais profundamente a amargura das coisas que ia abandonar? Mas não prestava atenção nisso; ao contrário, vivia como perdida na degustação antecipada de sua felicidade próxima.

Esse era, com Rodolphe, um eterno assunto de conversas. Ela se apoiava em seu ombro, murmurava:

— Hein! quando estivermos na mala-posta!... Pensas nisso? É possível? Parece-me que, no momento em que eu sentir a carruagem disparar, será como se subíssemos num balão, como se partíssemos para as nuvens. Sabes que conto os dias?... E tu?

Nunca madame Bovary foi tão bela como nessa época; tinha essa indefinível beleza que resulta da alegria, do entusiasmo, do sucesso, e que não é senão a harmonia do temperamento com as circunstâncias. Suas cobiças, seus desgostos, a experiência do prazer e suas ilusões sempre jovens, como fazem às flores o esterco, a chuva, os ventos e o sol, haviam-na desenvolvido por gradações, e ela enfim desabrochava na plenitude de sua natureza. Suas pálpebras pareciam talhadas de propósito para seus longos olhares amorosos, onde a pupila se perdia, enquanto um sopro forte dilatava suas narinas finas e erguia o canto carnudo dos lábios, que uma penugem negra sombreava levemente à luz. Dir-se-ia que um artista hábil em corrupções dispusera sobre sua nuca a torçada de seus cabelos: enrolavam-se em massa pesada, negligentemente, segundo os acasos do adultério, que todos os dias os desatava. Sua voz agora tomava inflexões mais brandas, sua cintura também; alguma coisa sutil, que penetrava a gente, desprendia-se até das dobras de seu vestido e do arqueado de seu pé. Charles, como nos primeiros tempos do casamento, achava-a deliciosa e irresistível.

Quando voltava no meio da noite, não ousava acordá-la. A lamparina de porcelana arredondava no teto uma claridade trêmula, e as cortinas fechadas do pequeno berço faziam como uma cabana branca que se abaulava na sombra, à beira da cama. Charles as olhava. Acreditava ouvir o sopro leve da criança. Ela agora iria crescer; cada estação, depressa, traria um progresso. Já a via voltando da escola ao cair da tarde, toda risonha, com a bata manchada de tinta e trazendo no braço sua cesta; depois seria preciso pô-la em internato, isso custaria muito; como fazer? Então refletia. Pensava em alugar uma pequena fazenda nos arredores, que fiscalizaria ele próprio, todas as manhãs, ao ir visitar os doentes. Economizaria o rendimento, aplicá-lo-ia na caixa econômica; depois compraria ações, em alguma parte, não importava onde; aliás, a clientela aumentaria; contava com isso, pois queria que Berthe fosse bem educada, tivesse talentos, aprendesse piano. Ah! como seria bonita, mais tarde, aos quinze anos, quando, parecida com a mãe, usasse como ela, no verão, grandes chapéus de palha! De longe as tomariam pelas duas irmãs. Imaginava-a trabalhando à noite junto deles, sob a luz da lâmpada; bordar-lhe-ia pantufas; cuidaria da casa; encheria toda a casa com sua gentileza e alegria. Enfim, pensariam em seu estabelecimento: arranjariam para ela algum rapaz honesto, de ofício sólido; ele a faria feliz; isso duraria para sempre.

Emma não dormia, fingia dormir; e, enquanto ele adormecia a seu lado, ela despertava em outros sonhos.

Ao galope de quatro cavalos, era levada havia oito dias para um país novo, de onde não voltariam mais. Iam, iam, os braços enlaçados, sem falar. Muitas vezes, do alto de uma montanha, avistavam de repente alguma cidade esplêndida com cúpulas, pontes, navios, florestas de limoeiros e catedrais de mármore branco, cujos campanários agudos traziam ninhos de cegonha. Andava-se a passo, por causa das grandes lajes, e havia no chão buquês de flores que mulheres vestidas de corpete vermelho ofereciam. Ouviam-se sinos, relinchos de mulas, com o murmúrio das guitarras e o ruído das fontes, cuja evaporação refrescava pilhas de frutas dispostas em pirâmides ao pé das estátuas pálidas, que sorriam sob os jatos d’água.

E depois chegavam, uma noite, a uma aldeia de pescadores, onde redes pardas secavam ao vento, ao longo da falésia e das cabanas. Era ali que parariam para viver; habitariam uma casa baixa, de teto plano, sombreada por uma palmeira, no fundo de um golfo, à beira-mar. Passeariam de gôndola, balançar-se-iam em redes; e sua existência seria fácil e larga como as roupas de seda, toda quente e estrelada como as noites suaves que contemplariam.

Entretanto, na imensidão desse futuro que fazia aparecer diante de si, nada de particular surgia; os dias, todos magníficos, assemelhavam-se como ondas; e isso se balançava no horizonte, infinito, harmonioso, azulado e coberto de sol. Mas a criança começava a tossir no berço, ou Bovary roncava mais forte, e Emma só adormecia pela manhã, quando a aurora embranquecia as vidraças e o pequeno Justin, na praça, já abria os postigos da farmácia.

Mandara chamar o sr. Lheureux e lhe dissera:

— Eu precisaria de uma capa, uma grande capa, de gola longa, forrada.

— A senhora parte em viagem? — perguntou ele.

— Não! mas... não importa, conto com o senhor, não é? E depressa!

Ele se inclinou.

— Eu precisaria ainda — retomou ela — de uma caixa..., não muito pesada..., cômoda.

— Sim, sim, entendo, cerca de noventa e dois centímetros por cinquenta, como se fazem agora.

— Com uma mala de noite.

— Decididamente — pensou Lheureux — há embrulho por baixo disso.

— E tome — disse madame Bovary, tirando o relógio da cintura —, pague-se com isto.

Mas o comerciante exclamou que ela estava errada; eles se conheciam; por acaso ele duvidava dela? Que infantilidade! Ela insistiu, entretanto, para que ele tomasse ao menos a corrente, e Lheureux já a pusera no bolso e se ia, quando ela o chamou de volta.

— O senhor deixará tudo em sua casa. Quanto à capa — ela pareceu refletir —, não a traga também; apenas me dê o endereço do operário e avise para que a tenha à minha disposição.

Era no mês seguinte que deviam fugir. Ela partiria de Yonville como se fosse fazer compras em Rouen. Rodolphe teria reservado os lugares, tirado os passaportes e até escrito a Paris, a fim de ter reservada a mala-posta inteira até Marselha, onde comprariam uma caleche e, de lá, continuariam sem parar pela estrada de Gênova. Ela tomaria o cuidado de enviar a Lheureux sua bagagem, que seria levada diretamente à Hirondelle, de modo que ninguém assim teria suspeitas; e, em tudo isso, nunca se falava de sua filha. Rodolphe evitava falar dela; talvez Emma não pensasse nisso.

Ele quis ainda duas semanas para terminar alguns arranjos; depois, ao cabo de oito dias, pediu outras quinze; em seguida disse-se doente; depois fez uma viagem; o mês de agosto passou, e, depois de todos esses adiamentos, fixaram que seria irrevogavelmente em 4 de setembro, uma segunda-feira.

Enfim chegou o sábado, antevéspera.

Rodolphe veio à noite, mais cedo que de costume.

— Está tudo pronto? — perguntou ela.

— Sim.

Então deram a volta num canteiro e foram sentar-se perto da terraço, na borda do muro.

— Estás triste — disse Emma.

— Não, por quê?

E, no entanto, ele a olhava singularmente, de maneira terna.

— É por partires? — retomou ela. — Por deixares tuas afeições, tua vida? Ah! compreendo... Mas eu não tenho nada no mundo! Tu és tudo para mim. Assim, eu serei tudo para ti, serei tua família, tua pátria; cuidarei de ti, hei de te amar.

— Como és encantadora! — disse ele, tomando-a nos braços.

— Verdade? — fez ela com um riso de volúpia. — Tu me amas? Jura, então!

— Se te amo! se te amo! Mas eu te adoro, meu amor!

A lua, toda redonda e cor de púrpura, erguia-se rente à terra, ao fundo da campina. Subia depressa entre os galhos dos choupos, que a escondiam de lugar em lugar, como uma cortina negra, rasgada. Depois apareceu, resplandecente de brancura, no céu vazio que iluminava; e então, tornando-se mais lenta, deixou cair sobre o rio uma grande mancha que fazia uma infinidade de estrelas; e aquela claridade de prata parecia retorcer-se até o fundo, à maneira de uma serpente sem cabeça coberta de escamas luminosas. Parecia também algum monstruoso candelabro, do qual escorressem, por todo o comprimento, gotas de diamante em fusão.

A noite suave se estendia ao redor deles; camadas de sombra enchiam as folhagens. Emma, de olhos meio fechados, aspirava com longos suspiros o vento fresco que soprava. Não se falavam, demasiado perdidos que estavam na invasão de seu devaneio.

A ternura dos dias antigos voltava-lhes ao coração, abundante e silenciosa como o rio que corria, com tanta moleza quanto trazia o perfume das siringas, e projetava em sua lembrança sombras mais desmedidas e mais melancólicas que as dos salgueiros imóveis que se alongavam sobre a relva. Muitas vezes algum animal noturno, ouriço ou doninha, pondo-se à caça, remexia as folhas; ou então se ouvia por momentos um pêssego maduro que caía sozinho da espaldeira.

— Ah! a bela noite! — disse Rodolphe.

— Teremos outras! — retomou Emma.

E, como falando consigo mesma:

— Sim, será bom viajar... Por que tenho o coração triste, entretanto? Será a apreensão do desconhecido..., o efeito dos hábitos abandonados..., ou antes...? Não, é o excesso da felicidade! Como sou fraca, não é? Perdoa-me!

— Ainda há tempo! — exclamou ele. — Reflete; talvez te arrependas.

— Jamais! — fez ela impetuosamente.

E, aproximando-se dele:

— Que desgraça, afinal, me poderia acontecer? Não há deserto, nem precipício, nem oceano que eu não atravessasse contigo. À medida que vivermos juntos, será como um abraço cada dia mais apertado, mais completo! Nada teremos que nos perturbe, sem preocupações, nenhum obstáculo! Estaremos sós, inteiramente nossos, eternamente... Fala, então, responde-me.

Ele respondia a intervalos regulares:

— Sim... sim!...

Ela passara as mãos pelos cabelos dele, e repetia com voz infantil, apesar das grossas lágrimas que escorriam:

— Rodolphe! Rodolphe!... Ah! Rodolphe, querido pequeno Rodolphe!

Soou meia-noite.

— Meia-noite! — disse ela. — Vamos, é amanhã! ainda um dia!

Ele se levantou para partir; e, como se esse gesto que fazia fosse o sinal da fuga deles, Emma, de repente, tomando um ar alegre:

— Tens os passaportes?

— Sim.

— Não esqueces nada?

— Não.

— Tens certeza?

— Certamente.

— É no hotel de Provence, não é, que me esperarás?... ao meio-dia?

Ele fez sinal com a cabeça.

— Até amanhã, então! — disse Emma, numa última carícia.

E o viu afastar-se.

Ele não se voltou. Ela correu atrás dele e, inclinando-se à beira d’água, entre as moitas:

— Até amanhã! — exclamou.

Ele já estava do outro lado do rio e caminhava depressa pela campina.

Ao cabo de alguns minutos, Rodolphe parou; e, quando a viu, com sua roupa branca, pouco a pouco desvanecer-se na sombra como um fantasma, foi tomado por tamanha palpitação que se apoiou contra uma árvore para não cair.

— Que imbecil eu sou! — fez, praguejando horrivelmente.

De qualquer modo, era uma bela amante!

E, logo, a beleza de Emma, com todos os prazeres daquele amor, reapareceu-lhe. A princípio enterneceu-se, depois se revoltou contra ela.

— Pois enfim — exclamava gesticulando —, não posso expatriar-me, carregar uma criança.

Dizia essas coisas para se fortalecer ainda mais.

— E, além disso, os embaraços, a despesa... Ah! não, não, mil vezes não! teria sido tolice demais!

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