PARTE III - Capítulo IX Madame Bovary · Capítulo 33 de 35
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PARTE III - Capítulo IX

PARTE III - Capítulo IX

Há sempre, depois da morte de alguém, como que um estupor que se desprende, tão difícil é compreender essa irrupção do nada e resignar-se a crer nela. Mas, quando percebeu enfim a imobilidade de Emma, Charles lançou-se sobre ela, gritando:

— Adeus! adeus!

Homais e Canivet o arrastaram para fora do quarto.

— Modere-se!

— Sim — dizia ele, debatendo-se —, serei razoável, não farei mal. Mas deixem-me! quero vê-la! é minha mulher!

E chorava.

— Chore — retomou o farmacêutico —, dê curso à natureza, isso o aliviará!

Tornado mais fraco que uma criança, Charles deixou-se conduzir para baixo, à sala, e M. Homais logo voltou para sua casa.

Na Praça, foi abordado pelo Cego, que, tendo-se arrastado até Yonville na esperança da pomada antiflogística, perguntava a cada passante onde morava o boticário.

— Ora, muito bonito! como se eu não tivesse mais o que fazer! Ah! tanto pior, volte mais tarde!

E entrou precipitadamente na farmácia.

Tinha de escrever duas cartas, preparar uma poção calmante para Bovary, encontrar uma mentira que pudesse esconder o envenenamento e redigi-la em artigo para o Fanal, sem contar as pessoas que o esperavam para obter informações; e, quando todos os yonvillenses ouviram a sua história de arsênico que ela tomara por açúcar ao fazer um creme de baunilha, Homais, mais uma vez, voltou à casa de Bovary.

Encontrou-o sozinho (M. Canivet acabava de partir), sentado na poltrona, perto da janela, contemplando com olhar idiota as lajotas da sala.

— Seria preciso agora — disse o farmacêutico — que o senhor mesmo fixasse a hora da cerimônia.

— Por quê? que cerimônia?

Depois, numa voz balbuciante e assustada:

— Oh! não, não é? não, quero conservá-la.

Homais, para disfarçar, tomou uma jarra na prateleira a fim de regar os gerânios.

— Ah! obrigado — disse Charles —, o senhor é bom!

E não terminou, sufocando sob uma abundância de lembranças que aquele gesto do farmacêutico lhe despertava.

Então, para distraí-lo, Homais julgou conveniente conversar um pouco sobre horticultura; as plantas precisavam de umidade. Charles baixou a cabeça em sinal de aprovação.

— De resto, agora os belos dias vão voltar.

— Ah! — fez Bovary.

O boticário, sem mais ideias, pôs-se a afastar docemente as pequenas cortinas da vidraça.

— Olhe, lá vai M. Tuvache.

Charles repetiu como uma máquina:

— M. Tuvache que passa.

Homais não ousou voltar a falar-lhe dos preparativos fúnebres; foi o eclesiástico que conseguiu fazê-lo decidir-se.

Ele se fechou no gabinete, tomou uma pena e, depois de soluçar algum tempo, escreveu:

“Quero que a enterrem com seu vestido de noiva, sapatos brancos, uma coroa. Que lhe arranjem os cabelos sobre os ombros; três caixões: um de carvalho, um de mogno, um de chumbo. Que não me digam nada, terei força. Que ponham por cima de tudo uma grande peça de veludo verde. Eu o quero. Façam-no.”

Esses senhores espantaram-se muito com as ideias romanescas de Bovary, e logo o farmacêutico foi lhe dizer:

— Esse veludo me parece uma superfetação. A despesa, além disso…

— E isso é da sua conta? — exclamou Charles. — Deixe-me! o senhor não a amava! Vá embora!

O eclesiástico tomou-o por baixo do braço para dar uma volta no jardim. Discorria sobre a vaidade das coisas terrenas. Deus era muito grande, muito bom; devia-se submeter sem murmúrio a seus decretos, e até agradecer-lhe.

Charles explodiu em blasfêmias.

— Eu o execro, esse seu Deus!

— O espírito de revolta ainda está no senhor — suspirou o eclesiástico.

Bovary estava longe. Caminhava a grandes passos ao longo do muro, junto à espaldeira, e rangia os dentes, erguia ao céu olhares de maldição; mas nem uma folha sequer se mexeu.

Uma chuva fina caía. Charles, que tinha o peito descoberto, acabou por tiritar; voltou para dentro e se sentou na cozinha.

Às seis horas, ouviu-se um ruído de ferragens na Praça: era a Hirondelle que chegava; e ele ficou com a testa contra as vidraças, vendo descerem um a um todos os viajantes. Félicité estendeu-lhe um colchão no salão; ele se jogou sobre ele e adormeceu.

Embora filósofo, M. Homais respeitava os mortos. Assim, sem guardar rancor do pobre Charles, voltou à noite para velar o cadáver, trazendo consigo três volumes e uma pasta para tomar notas.

M. Bournisien estava lá, e dois grandes círios ardiam à cabeceira da cama, que fora puxada para fora da alcova. O boticário, a quem o silêncio pesava, não tardou a formular algumas queixas sobre aquela “infortunada jovem”; e o padre respondeu que agora já não restava senão rezar por ela.

— Entretanto — retomou Homais —, de duas coisas uma: ou ela morreu em estado de graça (como se exprime a Igreja), e então não tem necessidade alguma de nossas orações; ou então faleceu impenitente (creio que é a expressão eclesiástica), e nesse caso…

Bournisien o interrompeu, replicando em tom rude que nem por isso se devia rezar menos.

— Mas — objetou o farmacêutico —, já que Deus conhece todas as nossas necessidades, para que pode servir a oração?

— Como! — fez o eclesiástico. — A oração! O senhor não é cristão?

— Perdão! — disse Homais. — Admiro o cristianismo. Ele primeiro libertou os escravos, introduziu no mundo uma moral…

— Não se trata disso! Todos os textos…

— Oh! oh! quanto aos textos, abra a história; sabe-se que foram falsificados pelos jesuítas.

Charles entrou e, avançando para a cama, puxou lentamente as cortinas.

Emma tinha a cabeça inclinada sobre o ombro direito. O canto da boca, que se mantinha aberta, fazia como um buraco negro na parte inferior do rosto; os dois polegares permaneciam dobrados para dentro da palma das mãos; uma espécie de poeira branca lhe salpicava os cílios, e seus olhos começavam a desaparecer numa palidez viscosa que lembrava uma teia fina, como se aranhas a tivessem fiado por cima. O lençol se cavava desde os seios até os joelhos, erguendo-se depois na ponta dos dedos dos pés; e parecia a Charles que massas infinitas, que um peso enorme, pesava sobre ela.

O relógio da igreja soou duas horas. Ouvia-se o grosso murmúrio do rio correndo nas trevas, ao pé do terraço. M. Bournisien, de tempos em tempos, assoava-se ruidosamente, e Homais fazia a pena ranger sobre o papel.

— Vamos, meu bom amigo — disse ele —, retire-se, este espetáculo o dilacera!

Uma vez Charles fora, o farmacêutico e o cura recomeçaram suas discussões.

— Leia Voltaire! — dizia um. — Leia d’Holbach, leia a Enciclopédia!

— Leia as Letras de alguns judeus portugueses — dizia o outro —; leia a Razão do cristianismo, de Nicolas, antigo magistrado!

Aqueciam-se, estavam vermelhos, falavam ao mesmo tempo sem se escutar; Bournisien escandalizava-se com tanta audácia; Homais maravilhava-se com tamanha estupidez; e não estavam longe de se insultar quando Charles, de súbito, reapareceu. Uma fascinação o atraía. Ele subia continuamente a escada.

Colocava-se diante dela para vê-la melhor, e se perdia naquela contemplação, que já não era dolorosa de tão profunda.

Recordava histórias de catalepsia, os milagres do magnetismo; e dizia a si mesmo que, querendo-o com extrema força, talvez conseguisse ressuscitá-la. Uma vez até se inclinou sobre ela e gritou baixinho:

— Emma! Emma!

Seu hálito, impelido com força, fez tremer a chama dos círios contra a parede.

Ao romper do dia, madame Bovary mãe chegou; Charles, ao abraçá-la, teve novo transbordamento de pranto. Ela tentou, como o farmacêutico havia tentado, fazer-lhe algumas observações sobre as despesas do enterro. Ele se exaltou tanto que ela se calou, e ele até a encarregou de ir imediatamente à cidade para comprar o necessário.

Charles ficou sozinho toda a tarde: haviam levado Berthe para a casa de madame Homais; Félicité permanecia em cima, no quarto, com a mãe Lefrançois.

À noite, recebeu visitas. Levantava-se, apertava-lhes as mãos sem poder falar; depois todos se sentavam ao lado uns dos outros, formando diante da chaminé um grande semicírculo. Com o rosto baixo e a perna cruzada sobre o joelho, balançavam o pé, soltando de vez em quando um grosso suspiro; e cada um se entediava de uma maneira desmedida; era, contudo, uma competição para ver quem não partiria.

Homais, quando voltou às nove horas (não se via senão ele na Praça havia dois dias), estava carregado de uma provisão de cânfora, benjoim e ervas aromáticas. Trazia também um vaso cheio de cloro, para banir os miasmas. Naquele momento, a criada, madame Lefrançois e a mãe Bovary giravam em torno de Emma, acabando de vesti-la; e baixaram o longo véu rígido, que a recobriu até os sapatos de cetim.

Félicité soluçava:

— Ah! minha pobre senhora! minha pobre senhora!

— Olhem para ela — dizia suspirando a estalajadeira —, como ainda está graciosa! Não se juraria que vai se levantar daqui a pouco?

Depois se inclinaram para lhe pôr a coroa.

Foi preciso levantar-lhe um pouco a cabeça, e então uma onda de líquidos negros saiu, como um vômito, de sua boca.

— Ah! meu Deus! o vestido, cuidado! — exclamou madame Lefrançois. — Ajude-nos, então! — dizia ao farmacêutico. — Por acaso tem medo?

— Eu, medo? — replicou ele, erguendo os ombros. — Ora essa! Já vi outras no Hôtel-Dieu, quando estudava farmácia! Fazíamos ponche no anfiteatro às dissecações! O nada não assusta um filósofo; e até, digo muitas vezes, tenho a intenção de legar meu corpo aos hospitais, a fim de servir mais tarde à Ciência.

Ao chegar, o cura perguntou como ia Monsieur; e, diante da resposta do boticário, retomou:

— O golpe, compreende, ainda é recente demais!

Então Homais o felicitou por não estar exposto, como todo o mundo, a perder uma companheira querida; disso se seguiu uma discussão sobre o celibato dos padres.

— Pois — dizia o farmacêutico — não é natural que um homem passe sem mulheres! Já se viram crimes…

— Mas, sabre de pau! — exclamou o eclesiástico. — Como quer que um indivíduo preso no matrimônio possa guardar, por exemplo, o segredo da confissão?

Homais atacou a confissão. Bournisien a defendeu; estendeu-se sobre as restituições que ela fazia operar. Citou diferentes anedotas de ladrões que se tornaram honestos de repente. Militares, ao se aproximarem do tribunal da penitência, haviam sentido as escamas lhes caírem dos olhos. Havia em Friburgo um ministro…

Seu companheiro dormia. Depois, como sufocasse um pouco na atmosfera pesada demais do quarto, abriu a janela, o que despertou o farmacêutico.

— Vamos, uma pitada! — disse-lhe. — Aceite, isto dissipa.

Latidos contínuos se arrastavam ao longe, em algum lugar.

— Está ouvindo um cão uivando? — disse o farmacêutico.

— Dizem que eles sentem os mortos — respondeu o eclesiástico. — É como as abelhas: elas voam para fora da colmeia quando alguém morre.

Homais não refutou aqueles preconceitos, pois tornara a adormecer.

M. Bournisien, mais robusto, continuou por algum tempo a mover baixinho os lábios; depois, insensivelmente, baixou o queixo, soltou seu grande livro negro e pôs-se a roncar.

Estavam um diante do outro, o ventre para a frente, a face inchada, o ar carrancudo; depois de tantos desacordos, encontravam-se enfim na mesma fraqueza humana; e não se mexiam mais que o cadáver ao lado, que tinha o ar de dormir.

Charles, ao entrar, não os despertou. Era a última vez. Vinha despedir-se dela.

As ervas aromáticas ainda fumegavam, e turbilhões de vapor azulado se confundiam à beira da janela com a névoa que entrava. Havia algumas estrelas, e a noite era doce.

A cera dos círios caía em grossas lágrimas sobre os lençóis da cama. Charles os observava arder, fatigando os olhos contra o fulgor de suas chamas amarelas.

Moirés estremeciam no vestido de cetim, branco como um luar. Emma desaparecia debaixo dele; e parecia-lhe que, derramando-se para fora de si mesma, ela se perdia confusamente no contorno das coisas, no silêncio, na noite, no vento que passava, nos cheiros úmidos que subiam.

Depois, de repente, ele a via no jardim de Tostes, no banco, contra a sebe de espinhos; ou então em Rouen, pelas ruas, na soleira de sua casa, no pátio dos Bertaux. Ouvia ainda o riso dos rapazes alegres que dançavam sob as macieiras; o quarto estava cheio do perfume de seus cabelos, e seu vestido lhe fremia nos braços com um ruído de centelhas. Era a mesma, ela mesma!

Durante muito tempo ficou assim, recordando todas as felicidades desaparecidas, suas atitudes, seus gestos, o timbre de sua voz. Depois de um desespero, vinha outro, e sempre, inesgotavelmente, como as ondas de uma maré que transborda.

Teve uma curiosidade terrível: devagar, com a ponta dos dedos, palpitando, ergueu-lhe o véu. Mas soltou um grito de horror que despertou os outros dois. Arrastaram-no para baixo, à sala.

Depois Félicité veio dizer que ele pedia cabelos dela.

— Corte-os! — replicou o boticário.

E, como ela não ousasse, ele próprio avançou, tesoura na mão. Tremia tanto que picou a pele das têmporas em vários pontos. Enfim, enrijecendo-se contra a emoção, Homais deu dois ou três grandes golpes ao acaso, o que fez marcas brancas naquela bela cabeleira negra.

O farmacêutico e o cura voltaram a mergulhar em suas ocupações, não sem dormir de tempos em tempos, do que se acusavam reciprocamente a cada novo despertar. Então M. Bournisien aspergia o quarto com água benta, e Homais jogava um pouco de cloro no chão.

Félicité tivera o cuidado de pôr para eles, sobre a cômoda, uma garrafa de água-de-vie, um queijo e uma grande brioche. Assim o boticário, que já não aguentava mais, suspirou, por volta das quatro da manhã:

— Palavra, eu me sustentaria com prazer!

O eclesiástico não se fez de rogado; saiu para ir dizer sua missa, voltou; depois comeram e beberam, rindo um pouco sem saber por quê, excitados por essa vaga alegria que nos toma depois de sessões de tristeza; e, no último copinho, o padre disse ao farmacêutico, dando-lhe uma palmada no ombro:

— Acabaremos por nos entender!

Encontraram embaixo, no vestíbulo, os operários que chegavam. Então Charles, durante duas horas, teve de sofrer o suplício do martelo ressoando sobre as tábuas. Depois ela foi descida para dentro de seu caixão de carvalho, que encaixaram nos outros dois; mas, como o esquife era largo demais, foi preciso tapar os interstícios com a lã de um colchão.

Enfim, quando as três tampas foram aplainadas, pregadas, soldadas, ela foi exposta diante da porta; a casa foi aberta de par em par, e as pessoas de Yonville começaram a afluir.

O pai Rouault chegou. Desmaiou na Praça ao avistar o pano preto.

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