PARTE III - Capítulo VII Madame Bovary · Capítulo 31 de 35
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PARTE III - Capítulo VII

PARTE III - Capítulo VII

Ela foi estoica, no dia seguinte, quando maître Hareng, o oficial de justiça, acompanhado de duas testemunhas, apresentou-se em sua casa para lavrar o auto da penhora.

Começaram pelo gabinete de Bovary e não registraram a cabeça frenológica, que foi considerada instrumento de sua profissão; mas contaram, na cozinha, os pratos, as panelas, as cadeiras, os castiçais, e, no quarto de dormir dela, todas as quinquilharias da prateleira.

Examinaram-lhe os vestidos, a roupa branca, o gabinete de toalete; e sua existência, até nos recantos mais íntimos, foi, como um cadáver que se autopsia, estendida por inteiro aos olhos daqueles três homens.

Maître Hareng, abotoado num fino traje preto, de gravata branca e com presilhas muito esticadas sob os pés, repetia de tempos em tempos:

— A senhora permite, madame? A senhora permite?

Muitas vezes fazia exclamações:

— Encantador!… Muito bonito!

Depois voltava a escrever, molhando a pena no tinteiro de chifre que segurava com a mão esquerda.

Quando terminaram nos aposentos, subiram ao sótão.

Ela guardava ali uma escrivaninha onde estavam encerradas as cartas de Rodolphe. Foi preciso abri-la.

— Ah! uma correspondência! — disse maître Hareng, com um sorriso discreto. — Mas permita! pois devo assegurar-me de que a caixa não contém outra coisa.

E inclinou ligeiramente os papéis, como para fazer cair deles napoleões. Então a indignação tomou Emma, ao ver aquela mão grossa, de dedos vermelhos e moles como lesmas, pousar sobre aquelas páginas onde seu coração havia palpitado.

Enfim, partiram! Félicité voltou. Emma a mandara ficar de vigia para desviar Bovary; e as duas instalaram depressa, sob o telhado, o guardião da penhora, que jurou permanecer ali.

Durante a noite, Charles lhe pareceu preocupado. Emma o espiava com um olhar cheio de angústia, julgando perceber, nas rugas de seu rosto, acusações. Depois, quando seus olhos recaíam sobre a chaminé ornada de biombos chineses, sobre as grandes cortinas, sobre as poltronas, sobre todas aquelas coisas, enfim, que haviam suavizado a amargura de sua vida, tomava-a um remorso, ou antes um imenso pesar que irritava a paixão, longe de aniquilá-la. Charles remexia as brasas placidamente, com os dois pés sobre os ferros da lareira.

Houve um momento em que o guardião, sem dúvida entediado em seu esconderijo, fez um pouco de barulho.

— Andam lá em cima? — disse Charles.

— Não! — respondeu ela. — É uma claraboia que ficou aberta e o vento está mexendo.

Ela partiu para Rouen, no dia seguinte, domingo, a fim de ir à casa de todos os banqueiros cujo nome conhecia. Estavam no campo ou em viagem. Ela não se desencorajou; e aos que pôde encontrar, pediu dinheiro, protestando que precisava dele, que o devolveria. Alguns riram-lhe no rosto; todos a recusaram.

Às duas horas, correu à casa de Léon, bateu à porta. Não abriram. Enfim ele apareceu.

— Que te traz aqui?

— Eu te incomodo?

— Não…, mas…

E ele confessou que o proprietário não gostava que se recebessem “mulheres”.

— Tenho de falar contigo — retomou ela.

Então ele procurou a chave. Ela o deteve.

— Oh! não, lá embaixo, no nosso lugar.

E foram para o quarto deles, no Hôtel de Boulogne.

Ao chegar, ela bebeu um grande copo d’água. Estava muito pálida. Disse-lhe:

— Léon, tu me prestarás um serviço.

E, sacudindo-o pelas duas mãos, que apertava com força, acrescentou:

— Escuta, preciso de oito mil francos!

— Mas estás louca!

— Ainda não!

E, logo, contando a história da penhora, expôs-lhe sua aflição; pois Charles ignorava tudo, a sogra a detestava, o pai Rouault nada podia; mas ele, Léon, ia pôr-se em campo para encontrar aquela soma indispensável…

— Como queres…?

— Que covarde tu és! — exclamou ela.

Então ele disse estupidamente:

— Exageras o mal. Talvez com um milhar de escudos esse sujeito se acalmasse.

Razão a mais para tentar alguma providência; não era possível que não se descobrissem três mil francos. Além disso, Léon podia comprometer-se em lugar dela.

— Vai! tenta! é preciso! corre!… Oh! esforça-te! esforça-te! eu te amarei muito!

Ele saiu, voltou ao cabo de uma hora e disse, com uma fisionomia solene:

— Fui à casa de três pessoas… inutilmente!

Depois ficaram sentados um diante do outro, nos dois cantos da chaminé, imóveis, sem falar. Emma erguia os ombros, batendo o pé. Ele a ouviu murmurar:

— Se eu estivesse no teu lugar, eu encontraria!

— Onde, então?

— No teu escritório!

E ela o fitou.

Uma audácia infernal escapava de suas pupilas inflamadas, e as pálpebras se estreitavam de uma forma lasciva e encorajadora; de modo que o jovem se sentiu fraquejar sob a vontade muda daquela mulher que lhe aconselhava um crime. Então teve medo e, para evitar qualquer esclarecimento, bateu na testa, exclamando:

— Morel deve voltar esta noite! não me recusará, espero (era um de seus amigos, filho de um negociante muito rico), e eu te trarei isso amanhã — acrescentou.

Emma não pareceu acolher essa esperança com tanta alegria quanto ele imaginara. Suspeitava da mentira? Ele retomou, corando:

— Contudo, se não me vires às três horas, não me esperes mais, minha querida. Preciso ir, desculpa-me. Adeus!

Apertou-lhe a mão, mas a sentiu toda inerte. Emma já não tinha força para sentimento algum.

Soaram quatro horas; e ela se levantou para voltar a Yonville, obedecendo como um autômato ao impulso dos hábitos.

Fazia bom tempo; era um daqueles dias de março claros e ásperos, em que o sol reluz num céu todo branco. Os roueneses de domingo passeavam com ar feliz. Ela chegou à praça do Adro. Saía-se das vésperas; a multidão escorria pelos três portais como um rio pelas três arcadas de uma ponte, e, no meio, mais imóvel que um rochedo, estava o suíço.

Então ela se lembrou daquele dia em que, toda ansiosa e cheia de esperanças, entrara sob aquela grande nave que se estendia diante dela menos profunda que o seu amor; e continuou andando, chorando sob o véu, aturdida, cambaleante, quase a desfalecer.

— Cuidado! — gritou uma voz que saía de uma porte cochère que se abria.

Ela parou para deixar passar um cavalo negro, que pateava entre os varais de um tílburi conduzido por um gentleman de pele de zibelina. Quem era, então? Ela o conhecia… A carruagem lançou-se e desapareceu.

Mas era ele, o Visconde! Ela se voltou: a rua estava deserta. E ficou tão esmagada, tão triste, que se apoiou contra um muro para não cair.

Depois pensou que se enganara. De resto, nada sabia. Tudo, nela mesma e fora dela, a abandonava. Sentia-se perdida, rolando ao acaso em abismos indefiníveis; e foi quase com alegria que avistou, ao chegar à Croix-Rouge, esse bom Homais que olhava carregarem na Hirondelle uma grande caixa cheia de provisões farmacêuticas. Trazia na mão, dentro de um lenço, seis cheminots para a esposa.

Madame Homais gostava muito desses pãezinhos pesados, em forma de turbante, que se comem na Quaresma com manteiga salgada: último exemplar das comidas góticas, que talvez remonte ao século das Cruzadas, e de que os robustos normandos outrora se enchiam, crendo ver sobre a mesa, à luz das tochas amarelas, entre os jarros de hipocraz e as gigantescas charcutarias, cabeças de sarracenos para devorar.

A mulher do farmacêutico os trincava como eles, heroicamente, apesar de sua detestável dentição; assim, todas as vezes que M. Homais fazia uma viagem à cidade, não deixava de trazer-lhos, sempre comprados no grande fabricante da rua Massacre.

— Encantado em vê-la! — disse ele, oferecendo a mão a Emma para ajudá-la a subir na Hirondelle.

Depois pendurou os cheminots nas correias da rede e ficou de cabeça descoberta e braços cruzados, numa atitude pensativa e napoleônica.

Mas, quando o Cego, como de costume, apareceu ao pé da ladeira, exclamou:

— Não compreendo que a autoridade ainda tolere ofícios tão culpáveis! Deveriam encerrar esses infelizes, forçando-os a algum trabalho! O Progresso, palavra de honra, anda a passo de tartaruga! Chafurdamos em plena barbárie!

O Cego estendia o chapéu, que balançava à beira da portinhola como uma bolsa de tapeçaria despregada.

— Eis aí — disse o farmacêutico — uma afecção escrofulosa!

E, embora conhecesse aquele pobre-diabo, fingiu vê-lo pela primeira vez, murmurou as palavras córnea, córnea opaca, esclerótica, fácies, depois lhe perguntou em tom paternal:

— Há muito tempo, meu amigo, que tens essa espantosa enfermidade? Em vez de te embriagares na taverna, farias melhor seguindo um regime.

Aconselhava-o a tomar bom vinho, boa cerveja, bons assados. O Cego continuava a canção; parecia, aliás, quase idiota. Enfim, M. Homais abriu a bolsa.

— Toma, aí vai um sou, devolve-me dois liards; e não esqueças minhas recomendações: tu te darás bem.

Hivert permitiu-se, em voz alta, alguma dúvida sobre sua eficácia. Mas o boticário certificou que ele próprio o curaria, com uma pomada antiflogística de sua composição, e deu seu endereço:

— M. Homais, perto do mercado, suficientemente conhecido.

— Pois bem, pelo trabalho — disse Hivert —, vais nos mostrar a comédia.

O Cego abateu-se sobre os jarretes e, a cabeça tombada para trás, rolando os olhos esverdeados e puxando a língua, esfregava o estômago com as duas mãos, enquanto soltava uma espécie de uivo surdo, como um cão faminto. Emma, tomada de nojo, atirou-lhe por cima do ombro uma moeda de cinco francos. Era toda a sua fortuna. Parecia-lhe belo jogá-la assim.

A carruagem recomeçara a andar, quando de repente M. Homais se inclinou para fora do postigo e gritou:

— Nada de farináceos nem laticínios! Usar lã sobre a pele e expor as partes doentes à fumaça de bagas de zimbro!

O espetáculo dos objetos conhecidos que desfilavam diante de seus olhos desviava pouco a pouco Emma de sua dor presente. Uma fadiga intolerável a esmagava, e ela chegou em casa hebetada, desanimada, quase adormecida.

— Venha o que vier! — dizia consigo.

E depois, quem sabe? Por que, de um momento para outro, não surgiria algum acontecimento extraordinário? O próprio Lheureux podia morrer.

Às nove horas da manhã, foi despertada por um rumor de vozes na praça. Havia um ajuntamento ao redor do mercado para ler um grande cartaz colado a um dos postes, e ela viu Justin subir num marco e rasgar o cartaz. Mas, naquele momento, o guarda rural pôs-lhe a mão na gola. M. Homais saiu da farmácia, e a mãe Lefrançois, no meio da multidão, parecia perorar.

— Madame! madame! — exclamou Félicité, entrando. — É uma abominação!

E a pobre moça, comovida, estendeu-lhe um papel amarelo que acabara de arrancar da porta. Emma leu num relance que todo o seu mobiliário estava à venda.

Então as duas se entreolharam em silêncio. A criada e a senhora não tinham segredo uma para a outra. Enfim Félicité suspirou:

— Se eu fosse a senhora, madame, iria à casa de M. Guillaumin.

— Achas?…

E aquela interrogação queria dizer:

— Tu, que conheces a casa pelo criado, será que o patrão alguma vez falou de mim?

— Sim, vá, fará bem.

Ela se vestiu, pôs o vestido preto com a capota de contas de azeviche; e, para que não a vissem (havia sempre muita gente na praça), tomou por fora da aldeia, pelo caminho à beira da água.

Chegou toda ofegante diante do portão do notário; o céu estava sombrio e caía um pouco de neve.

Ao som da sineta, Théodore, de colete vermelho, apareceu no patamar; veio abrir-lhe quase familiarmente, como a uma conhecida, e a introduziu na sala de jantar.

Um grande fogão de porcelana zumbia sob um cacto que enchia o nicho, e, em molduras de madeira preta, contra o papel de parede cor de carvalho, havia a Esmeralda de Steuben, com a Putifar de Schopin. A mesa posta, dois réchauds de prata, o botão das portas em cristal, o parquet e os móveis, tudo reluzia com uma limpeza meticulosa, inglesa; os vidros eram decorados, em cada canto, por peças de cor.

— Eis uma sala de jantar — pensava Emma — como eu precisaria ter.

O notário entrou, apertando com o braço esquerdo contra o corpo seu robe de chambre com palmas, enquanto tirava e recolocava depressa, com a outra mão, seu gorro de veludo marrom, pretensiosamente posto sobre o lado direito, onde caíam as pontas de três mechas louras que, tomadas do occipital, contornavam-lhe o crânio calvo.

Depois de lhe oferecer uma cadeira, sentou-se para almoçar, desculpando-se muito pela descortesia.

— Monsieur — disse ela —, eu lhe pediria…

— O quê, madame? Estou ouvindo.

Ela começou a lhe expor sua situação.

Maître Guillaumin a conhecia, pois era ligado secretamente ao comerciante de tecidos, em cuja casa sempre encontrava capitais para os empréstimos hipotecários que lhe pediam contratar.

Portanto, sabia (e melhor do que ela) a longa história daquelas promissórias, mínimas de início, trazendo como endossantes nomes diversos, espaçadas em longos vencimentos e renovadas continuamente, até o dia em que, reunindo todos os protestos, o comerciante encarregara seu amigo Vinçart de fazer em nome próprio as diligências necessárias, não querendo passar por tigre entre seus concidadãos.

Ela entremeou a narrativa de recriminações contra Lheureux, recriminações às quais o notário respondia, de tempos em tempos, por uma palavra insignificante. Comendo sua costeleta e bebendo seu chá, baixava o queixo na gravata azul-celeste, presa por dois alfinetes de diamantes que uma correntinha de ouro unia; e sorria com um sorriso singular, de uma maneira adocicada e ambígua. Mas, percebendo que ela estava com os pés úmidos:

— Aproxime-se do fogão… mais… contra a porcelana.

Ela tinha medo de sujá-la. O notário retomou em tom galante:

— As coisas belas não estragam nada.

Então ela tentou comovê-lo e, comovendo-se a si mesma, veio a contar-lhe a estreiteza de sua casa, os apertos, as necessidades. Ele compreendia aquilo: uma mulher elegante! E, sem interromper a refeição, voltara-se inteiramente para ela, de tal modo que roçava com o joelho sua botina, cuja sola se recurvava toda fumegante contra o fogão.

Mas, quando ela lhe pediu mil escudos, ele apertou os lábios, depois se declarou muito penalizado por não ter tido outrora a direção de sua fortuna, pois havia cem meios bastante cômodos, mesmo para uma senhora, de fazer render o dinheiro. Poder-se-ia, fosse nos brejos de Grumesnil ou nos terrenos do Havre, arriscar quase com segurança excelentes especulações; e deixou-a devorar-se de raiva à ideia das somas fantásticas que ela certamente teria ganhado.

— Como é — retomou ele — que a senhora não veio à minha casa?

— Não sei bem — disse ela.

— Por quê, hein?… Eu lhe fazia tanto medo? Sou eu, ao contrário, quem deveria queixar-se! Mal nos conhecemos! No entanto, sou-lhe muito dedicado; já não duvida disso, espero?

Estendeu a mão, tomou a dela, cobriu-a com um beijo voraz, depois a conservou sobre o joelho; e brincava delicadamente com seus dedos, enquanto lhe contava mil doçuras.

Sua voz insípida sussurrava como um riacho que corre; uma centelha saltava de sua pupila através do cintilar dos óculos, e suas mãos avançavam pela manga de Emma, para lhe apalpar o braço. Ela sentia contra a face o sopro de uma respiração ofegante. Aquele homem a constrangia horrivelmente.

Levantou-se de um salto e lhe disse:

— Monsieur, estou esperando!

— O quê? — fez o notário, que se tornou de súbito extremamente pálido.

— Esse dinheiro.

— Mas…

Depois, cedendo à irrupção de um desejo forte demais:

— Pois bem, sim!…

Arrastava-se de joelhos até ela, sem consideração por seu robe de chambre.

— Por piedade, fique! Eu a amo!

Agarrou-a pela cintura.

Uma onda de púrpura subiu rapidamente ao rosto de madame Bovary. Ela recuou com ar terrível, exclamando:

— O senhor se aproveita impudentemente de minha aflição, monsieur! Sou digna de pena, mas não estou à venda!

E saiu.

O notário ficou muito estupefato, os olhos fixos em suas belas pantufas de tapeçaria. Eram um presente do amor. Aquela vista, no fim, consolou-o. De resto, pensava que uma aventura semelhante o teria arrastado longe demais.

— Que miserável! que grosseirão!… que infâmia! — dizia ela consigo, fugindo com passo nervoso sob os álamos da estrada. O desapontamento do insucesso reforçava a indignação de seu pudor ultrajado; parecia-lhe que a Providência se encarniçava em persegui-la e, elevando-se em orgulho, nunca tivera tanta estima por si mesma nem tanto desprezo pelos outros. Alguma coisa belicosa a transportava.

Teria querido bater nos homens, cuspir-lhes no rosto, esmagá-los todos; e continuava andando depressa à sua frente, pálida, fremindo, enraivecida, vasculhando com olhos chorosos o horizonte vazio, e como saboreando o ódio que a sufocava.

Quando avistou a própria casa, um torpor a tomou. Não podia avançar; era preciso, contudo; além disso, para onde fugir?

Félicité a esperava à porta.

— E então?

— Não! — disse Emma.

E, durante um quarto de hora, as duas examinaram as diferentes pessoas de Yonville talvez dispostas a socorrê-la. Mas, cada vez que Félicité nomeava alguém, Emma respondia:

— Será possível? Não hão de querer!

— E Monsieur, que vai voltar!

— Eu bem sei… Deixa-me sozinha.

Ela tentara tudo. Agora já nada havia a fazer; e, quando Charles aparecesse, ela teria então de lhe dizer:

— Retira-te. Este tapete sobre o qual caminhas já não é nosso. Da tua casa, não tens um móvel, um alfinete, uma palha, e fui eu que te arruinei, pobre homem!

Então haveria um grande soluço, depois ele choraria abundantemente e, enfim, passada a surpresa, perdoaria.

— Sim — murmurava ela, rangendo os dentes —, ele me perdoará, ele que não teria um milhão a me oferecer para que eu o desculpasse por me haver conhecido… Nunca! nunca!

A ideia da superioridade de Bovary sobre ela a exasperava. Depois, quer confessasse ou não, daqui a pouco, logo mais, amanhã, ele não saberia menos a catástrofe; portanto, era preciso esperar aquela cena horrível e suportar o peso de sua magnanimidade. Veio-lhe a vontade de voltar à casa de Lheureux: de que adiantaria? de escrever ao pai; era tarde demais; e talvez se arrependesse agora de não ter cedido ao outro, quando ouviu o trote de um cavalo no caminho.

Era ele, abria a porteira, estava mais lívido que o muro de gesso. Saltando pela escada, ela escapou depressa pela praça; e a mulher do prefeito, que conversava diante da igreja com Lestiboudois, viu-a entrar na casa do coletor.

Correu a contá-lo a madame Caron. As duas senhoras subiram ao sótão; e, escondidas por lençóis estendidos sobre varas, postaram-se comodamente para avistar todo o interior de Binet.

Ele estava sozinho, em sua mansarda, tentando imitar em madeira uma dessas peças de marfim indescritíveis, compostas de crescentes, de esferas vazadas umas dentro das outras, o conjunto reto como um obelisco e sem servir para nada; e começava a última peça, tocava a meta! No claro-escuro da oficina, a poeira loura voava de sua ferramenta como um penacho de faíscas sob as ferraduras de um cavalo ao galope; as duas rodas giravam, roncavam; Binet sorria, de queixo baixo, narinas abertas, e parecia enfim perdido numa dessas felicidades completas, pertencentes sem dúvida às ocupações medíocres, que divertem a inteligência por meio de dificuldades fáceis e a saciam numa realização além da qual nada há a sonhar.

— Ah! ei-la! — fez madame Tuvache.

Mas era quase impossível, por causa do torno, ouvir o que ela dizia.

Enfim, as damas julgaram distinguir a palavra francos, e a mãe Tuvache soprou baixinho:

— Ela lhe pede um prazo para as contribuições.

— Parece! — retomou a outra.

Viram-na andando de um lado para outro, examinando contra as paredes os anéis de guardanapo, os castiçais, as bolas do corrimão, enquanto Binet acariciava a barba com satisfação.

— Teria vindo encomendar-lhe alguma coisa? — disse madame Tuvache.

— Mas ele não vende nada! — objetou a vizinha.

O coletor tinha o ar de escutar, arregalando os olhos, como se não compreendesse. Ela continuava de uma maneira terna, suplicante. Aproximou-se; o peito ofegava; já não falavam.

— Será que ela está lhe fazendo propostas? — disse madame Tuvache.

Binet estava vermelho até as orelhas. Ela lhe tomou as mãos.

— Ah! isso é demais!

E sem dúvida ela lhe propunha uma abominação; pois o coletor — que, no entanto, era valente, combatera em Bautzen e em Lutzen, fizera a campanha da França e até fora indicado para a cruz — de repente, como à vista de uma serpente, recuou para longe, exclamando:

— Madame! está pensando no que faz?…

— Deviam açoitar mulheres dessas! — disse madame Tuvache.

— Onde está ela, então? — retomou madame Caron.

Pois ela desaparecera durante aquelas palavras; depois, vendo-a enfiar pela Grande-Rue e dobrar à direita como para ganhar o cemitério, perderam-se em conjecturas.

— Mãe Rolet — disse ela, ao chegar à casa da ama —, eu sufoco!… desaperte-me.

Caiu sobre a cama; soluçava. Mãe Rolet cobriu-a com uma anágua e ficou de pé junto dela. Depois, como Emma não respondesse, a boa mulher se afastou, pegou a roca e pôs-se a fiar linho.

— Oh! pare! — murmurou ela, pensando ouvir o torno de Binet.

— O que a incomoda? — perguntava-se a ama. — Por que vem aqui?

Correra para lá impelida por uma espécie de pavor que a expulsava de casa.

Deitada de costas, imóvel e com os olhos fixos, distinguia vagamente os objetos, embora aplicasse a atenção a eles com uma persistência idiota. Contemplava os descascados da parede, dois tições fumegando ponta a ponta, e uma longa aranha que caminhava acima de sua cabeça, na fenda da travinha. Enfim, reuniu as ideias.

Lembrava-se… Um dia, com Léon… Oh! como aquilo estava longe… O sol brilhava sobre o rio, e as clematites perfumavam o ar… Então, levada por suas lembranças como por uma torrente que borbulha, chegou logo a recordar o dia da véspera.

— Que horas são? — perguntou.

Mãe Rolet saiu, levantou os dedos da mão direita para o lado em que o céu estava mais claro, e voltou lentamente, dizendo:

— Três horas, quase.

— Ah! obrigada! obrigada!

Pois ele viria. Era certo! Teria encontrado dinheiro. Mas talvez fosse lá, sem saber que ela estava ali; e ela ordenou à ama que corresse à sua casa para trazê-lo.

— Depressa!

— Mas, minha cara senhora, vou! vou!

Admirava-se agora de não ter pensado nele desde o início; ontem, ele havia dado sua palavra, não faltaria; e ela já se via em casa de Lheureux, estendendo sobre a escrivaninha dele as três notas de banco. Depois seria preciso inventar uma história que explicasse as coisas a Bovary. Qual?

Entretanto, a ama demorava muito a voltar. Mas, como não havia relógio na choupana, Emma temia talvez exagerar a duração do tempo. Pôs-se a passear pelo jardim, passo a passo; foi pelo caminho ao longo da cerca, e voltou depressa, esperando que a boa mulher tivesse regressado por outra estrada.

Enfim, cansada de esperar, assaltada por suspeitas que repelia, sem saber se estava ali havia um século ou um minuto, sentou-se num canto, fechou os olhos, tapou os ouvidos. A porteira rangeu: deu um salto; antes que pudesse falar, Mãe Rolet lhe dissera:

— Não há ninguém em sua casa!

— Como?

— Oh! ninguém! E Monsieur chora. Ele a chama. Estão procurando a senhora.

Emma nada respondeu. Ofegava, enquanto rolava os olhos ao redor, e a camponesa, assustada com o rosto dela, recuava instintivamente, acreditando-a louca. De repente, Emma bateu na testa, soltou um grito, pois a lembrança de Rodolphe, como um grande relâmpago numa noite escura, lhe atravessara a alma. Ele era tão bom, tão delicado, tão generoso! E, além disso, se hesitasse em lhe prestar esse serviço, ela saberia constrangê-lo, recordando-lhe, com um só relance, o amor perdido dos dois.

Partiu então para a Huchette, sem perceber que corria a se oferecer àquilo que ainda há pouco tanto a exasperara, nem desconfiar minimamente daquela prostituição.

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